Entre exércitos de meninas que oferecem cartões de crédito, vendedoras ambulantes e donas de casa apressadas, O POVO zanzou no Centro com um único objetivo: sondar a opinião das mulheres a respeito de um assunto que elas conhecem a fundo: o mundo feminino
08/03/2008 15:19

Vera acha que a mulher é "sensível e frágil" e que se houver um homem por perto, não precisará forcejar com os parafusos do pneu furado do carro. Lourdes, para quem o 8 de março "simplesmente não existe" - esteja ele ligado às mulheres que cozinharam, em 1857, num galpão têxtil nos Estados Unidos ou às incendiárias que fizeram explodir o rojão da Revolução Russa, 60 anos depois -, gostaria que seus filhos e netos guardassem sempre uma boa distância das buchas de lavar louça ou de vassouras. Banheiro sujo, nem pensar. Se os seus rebentos fossem vampiros, as lides da casa funcionariam, ao menos para eles, como uma beberagem a base de alho concentrado. "Não acho muito certo isso de homem fazer coisa de mulher", diz a senhora. Ao lado, Francisca opõe-se timidamente à amiga. "Essa cultura, a do machismo, é um atraso. Lá fora não é desse jeito", pondera. Distante dali, outra Lurdes (esta com "u"), mais baixa e trajando um jaleco de enfermeira, diz que os homens é que "são mais vulneráveis às coisas da vida". Às drogas, ela exemplifica. Um pouco mais adiante, Heloísa tem uma fórmula para que homens e mulheres possam conviver harmoniosamente: "Saio de casa cedo pra trabalhar e ele também. Desse jeito, a gente não tem tempo pra ficar pensando em besteira".
O POVO foi às ruas do Centro numa quarta-feira de sol e chuva e conversou, a três dias do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com cinco representantes do sexo feminino: uma proprietária de banca de revistas; uma enfermeira; uma bibliotecária; uma funcionária pública aposentada e outra da ativa, ambas Testemunhas de Jeová. O fato curioso: todas elas apontaram que o machismo é praga reinante, que ele impede que homens e mulheres se tornem seres complementares, que o preconceito contra a mulher não arrefeceu tanto assim e que alguns espaços permanecem vedados ao ir-e-vir das fêmeas. Por fim, disseram também que não criariam os seus filhos como se criam meninas, educando-os para lavar as próprias cuecas e os pratos do almoço.
"A mulher não pode perder a sua feminilidade. A própria natureza se encarrega de nos tornar assim, mais sensíveis." Há 16 anos vendendo apostilas para concursos, revistas, jornais, cartões telefônicos e postais de Fortaleza, Vera Lúcia Torres parece ter sempre as respostas ensaiadas, à mão ou na ponta da língua. Atrás do balcão da Principal, a banca de revistas que comanda na Praça do Ferreira, ela envereda por sendas bastante espinhosas, fala da relação com o ex-marido, da criação dos filhos e retorna invariavelmente com uma frase lapidar. "O olho do coração é mais sensato do que o da razão" e "Bonito mesmo é que os dois se complementam" são apenas duas de sua modesta coleção. Em seu discurso, cada pecinha parece se encaixar uma à outra perfeitamente. Até que o acaso a leva a falar novamente da família e, por conseguinte, dos filhos, os "três projetos perfeitos" que, por sorte e também por empenho, não estragou. O pé em falso não demora. Ruborizada, Vera admite: "A própria educação favorece o homem, que se acomoda, e a mulher também. Eu mesma tenho um filho que não foi educado pra lavar louça, por exemplo". (Henrique Araújo, Especial para O POVO)
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