Na roda, os problemas saltam e se desdobram em muitos outros. Saúde, segurança e lazer são alguns direitos cuja importância as mulheres do Parque Nazaré não aceitam negociar. Na calçada, conversam
08/03/2008 15:19

Em roda, a arrumação dos corpos faz lembrar as cirandas da meninice. Às 15h40 de uma terça-feira de março, elas haviam ajeitado as cadeiras na calçada, formado um círculo e se danado a conversar. Não em torno de uma trouxa de roupas ou da mesinha da cozinha. Aquelas mulheres não estavam às voltas com a caligrafia dos filhos, as meias sujas dos companheiros ou o feijão que esfumaçava na pressão. A razão que as tinha feito sair de casa e estirar as pernas até ali, na sede da associação, era bem outra: a de se enovelarem para se entenderem. Em derredor, os meninos, que não são mais de braço, aperreiam. Por alguma razão, estão vexados, repuxam as pontas dos calções encardidos e arregalam os olhos, admirados. Uma mãe ordena: se aquietassem. Eles obedecem e se calam. Ana do Nazaré está falando.
Aos 45 anos, Ana Maria Santos da Silva encarna uma espécie de força centrífuga do Parque Nazaré, bairro da periferia de Fortaleza que se avizinha do Bom Jardim e do Siqueira. Lá, Ana fez morada. Não casou. Não ingressou no ensino superior. Não voltou para a Parangaba com a família, que, ainda em 1980, tomara a decisão de se instalar no Parque e, anos depois, a de sair de lá. Ana fincou pé, pariu um menino e uma luta. "Quando cheguei aqui, não tinha nada. Era um mato da altura dessa casa. Fundei o bairro e a associação comunitária", ela conta. Hoje, é vice-presidente da associação e animadora cultural da Articulação das Mulheres do Grande Bom Jardim. Dedica-se integralmente aos movimentos sociais e diz: "Não tenho vocação para ser oprimida".
Organizadas pelo Fórum Cearense de Mulheres em parceria com inúmeras entidades, as rodas, sempre às terças-feiras, vêm acontecendo há pelo menos dois meses. Em Fortaleza, as rodas congregam prostitutas, costureiras, donas de casa, professoras, desempregadas etc. No último sábado, uma caminhada foi realizada no Bom Jardim, cujas organizações feministas constituem uma espécie de núcleo duro do movimento. "Aqui, somos a maioria. Aliás, essa é uma característica dos movimentos sociais em toda a cidade: são conduzidos por mulheres", garante Ana do Nazaré. "O Grande Bom Jardim foi escolhido dentro de uma perspectiva de levar os debates do 8 de Março para a periferia de Fortaleza", revela a assistente social e presidente do FCM, Beth Ferreira. Naquela terça, a entidade responsável por facilitar a roda de conversa foi o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Gênero, Idade e Família (Negif). Segundo Tiala Moraes, estudante de economia doméstica e membro do Coletivo de Jovens Feministas, as rodas de conversa acabam se convertendo em uma verdadeira terapia coletiva. Por não encontrarem espaço no âmbito doméstico, "essas mulheres, quanto têm a oportunidade de falar, extravasam o que sentem". No Parque Nazaré, as histórias são as mais impressionantes.
A de Ana, por exemplo, confunde-se com a do próprio movimento feminista. Ela reitera: "Nunca me casei para não ser mandada, mas, em casa, meu filho não aceita o que eu faço". Em roda, Ana e as demais trocam experiências. Elas entretecem as suas vidas e fazem do sofrimento alheio uma causa comum. Entre as presentes ao encontro do último dia 4, uma mulher de 27 anos. Ela é morena, magra e carrega, na barriga incipiente, o seu oitavo filho. "Nunca quis abortar. Pari todos eles." E, sem espanto, acrescenta: "Mas não fiquei com nenhum".
No Parque Nazaré, além das condições de estrutura do próprio bairro, as mulheres discutem as relações entre a lógica de produção vigente e os problemas que as afligem. "A gente não pode separar as coisas. Nossos problemas nascem de uma causa maior", Ana doutrina. (Henrique Araújo, Especial para O POVO)
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