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Vida & Arte

DIA DA MULHER

Água contra pedra

Henrique Araújo
Especial para O POVO

Como o pensamento feminista se expressa na contemporaneidade? Que dificuldades as mulheres enfrentam mais de dois séculos após as primeiras manifestações por direitos iguais? O Vida & Arte Cultura conversou com pesquisadoras e militantes políticas


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08/03/2008 15:19

(Arte: Andrea Araújo)
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(Arte: Andrea Araújo)

O cenário: a cozinha de uma casa simples na periferia da cidade. Os personagens: homem e mulher. Eles guardam uma distância relativamente curta entre si. A ambientação psicológica: tensa. Se apanhadas no ar, as falas de ambos, entrecortadas por xingamentos e gestos bruscos, dão conta de uma verdade inequívoca: para o homem, o corpo feminino ainda habita o mesmo altar ocupado por eletroeletrônicos e demais objetos que preenchem quase todos os espaços do imaginário masculino. Como eles, o corpo da mulher, costumam acreditar, lhes pertence. O pensamento que o anima, não.

"Ele me disse que se eu arranjasse outro homem, iria me matar", conta Vilanir. "Eu respondi: 'Se for assim, então me mate logo. Porque vai ser a primeira coisa que eu vou fazer quando sair daqui.'" Dezesseis anos e alguns namorados depois, Vilanir Lopes rememora a história de sua separação numa roda de conversa promovida pelo Fórum Cearense de Mulheres (FCM) em parceria com outras entidades. À entrada da associação comunitária do Parque Nazaré, bairro próximo ao Bom Jardim, ela aponta dois acontecimentos que lhe marcaram a fogo. "Em minha vida, só fiz duas coisas boas. A primeira foi me casar; a segunda, me separar."

"O pensamento das mulheres ainda incomoda muito." Dois séculos após as primeiras manifestações de mulheres na França e, anos depois, nos Estados Unidos, terem lançado os fundamentos da peleja das mulheres rumo à emancipação física e intelectual, Beth Ferreira, presidente do FCM e coordenadora nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras, sentencia: "O pensamento feminista que questiona e denuncia as bases de uma dominação masculina incomoda". A razão é simples: essas bases, que remontam ao regime patriarcal, ainda permanecem na contemporaneidade. São constitutivas de parte da estrutura social vigente no mundo ocidental. Igrejas, escolas, partidos políticos são apenas alguns desses espaços onde o ente feminino é rarefeito. Militantes de quaisquer movimentos feministas são unânimes ao afirmarem que os guetos de mando político são bastante refratários a elas, mulheres. Na Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, por exemplo, dos 46 deputados eleitos ou reeleitos no último pleito, apenas dois são mulheres. Na Câmara Municipal de Fortaleza, o número também é comparativamente inexpressivo: dos 42 vereadores, 6 são mulheres. Para Beth, a política parlamentar "é marcada por um viés conservador e machista que ainda recusa reconhecer as mulheres como legítimas de a ocuparem". Pesquisas recentes apontam, ela acrescenta, que a rejeição às mulheres que se candidatam a cargos eletivos é forte.

"O pensamento feminista é antipático." A frase é de Angela Freitas, jornalista, membro do Instituto Patrícia Galvão e editora do blog Mulheres de Olho. Segundo Angela, a natureza espinhosa da crítica feminista à sociedade é justificada. "Como estamos mexendo em cultura, em visões de mundo, em estruturas consolidadas, isto provoca muita gente." "Não é possível que um grupo social perca privilégios sem que isso provoque atritos. O pensamento feminino e feminista incomodou, incomoda e talvez nunca vá deixar de incomodar", responde Carmen Silva, coordenadora de educação do Instituto SOS Corpo, sediado em Recife. De acordo com Carmen, ainda que os ganhos que vieram na esteira das lutas das mulheres sejam consideráveis - políticas de saúde e legislação específica são alguns deles -, há um anteparo inexorável que impede resultados mais amplos. Ele se encontra preponderantemente no âmbito das relações domésticas.

Com raízes na política e até mesmo na economia, é nesse engodo cultural que as mulheres enfrentam uma luta encarniçada. Nos lares, a exemplo de Vilanir Lopes, dona de casa cujo pensamento a colocou no olho do furacão (seu primeiro companheiro era um típico machista), o feminismo esbarra na violência da cultura que contrapõe mulheres a homens e que, em muitos casos, acaba sendo absorvida também por elas. "A própria mulher incorpora esse discurso. Em casa, tem uma educação pros meninos voltada pra rua; e outra pra menina, voltada pra casa", diz Carmen.

SAIBA MAIS
Sobre o papel das mulheres na sociedade através dos sites do Instituto Patrícia Galvão (www.patriciagalvao.org.br) e Instituto SOS Corpo (www.soscorpo.org.br)

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