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Cultura e controle

Amanda Queirós
Enviada a São Paulo

07 Mar 2008 - 01h03min

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Banda de Pífanos de Santo Antônio de Carnaíba, Pernambuco durante apresentação no Encontro do Itaú Rumos (Foto: Divulgação/Christina Rufatto)

Entre no site de relacionamentos Orkut e faça uma pesquisa pela palavra "anorexia". Na tela do computador, surgem dezenas de comunidades relacionadas ao distúrbio alimentar. Centenas de meninas participam delas, comparando pesos e relatando experiência de como emagrecer. "Essas meninas sabem que vão morrer e pensam que isso é liberdade de escolha quando, na verdade, não é", aponta o psicanalista Renato Mezan. Está aí posto uns dos males mais prementes da contemporaneidade. Até que ponto as escolhas são realmente nossas? Até onde conseguimos exercer a nossa subjetividade nos dias de hoje?

Questões como essas são indispensáveis para se discutir os rumos da cultura no mundo atual. Na última quarta-feira, enquanto o cantor Bob Dylan se preparava para sua estréia de apresentações no Brasil, elas estavam sendo postas na sede do Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, no colóquio Tramas da Contemporaneidade.

Mezan é um dos psicanalistas mais popualres do País, considerado um dos profissionais mais preparados quando o assunto é Freud. Do outro lado da conversa, estava Franklin Leopoldo e Silva, filósofo e professor da Universidade de São Paulo. Ao colocar a filosofia e a psicologia para discutirem a cultura, preparou-se uma base de reflexão para se entender em que terrenos (tortuosos, por sinal) a arte atua hoje.

Nesse emaranhado, Leopoldo reavivou a dimensão histórica dos termos subjetividade e individualidade. Ao contrário do que pode parecer, esses dois termos guardam pouca semelhança. Segundo ele, é exatamente essa confusão de significados que faz com que as pessoas percam também a dimensão real de suas possibilidades. "A impressão é que o individualismo permite uma independência selvagem, como se a liberdade pudesse ser expandida a qualquer limite quando, na verdade, os limites da liberdade são as possibilidades de até onde se pode desfrutar da autonomia. Mas se o sujeito não exerce a sua subjetividade, ele não terá autonomia nenhuma, não será pleno. Isso nos mostra o quanto o individualismo pode ser enganoso", expõe o professor. Nisso, quanto mais a sociedade nos faz crer que somos livres para escolher, mais somos controlados e temos nossas opções cada vez mais uniformes. "Para exercer uma verdadeira escolha, é preciso exercer a subjetividade", alerta ele.

Para o psicanalista renato Mezan, um dos motivos para que isso aconteça está na desfiguração de marcos e valores, um fator com o qual ainda não aprendemos a lidar. "Existe uma pretensa homogeneização de valores. Não existem mais alvos precisos que possibilitem uma divisão clara entre o novo e o velho, o certo e o errado. Acontece que são essas noções que fomentam a capacidade de decisão, a autonomia, o que é possível e o que não é", afirma. Aí é onde entra o papel do estudo e da reflexão para o exercício de contextualização, compreensão e ação no mundo. "Não é possível compreender a complexidade da contemporaneidade sem se situar", conclui.

Rumos Música
Enquanto o Instituto Itaú Cultural discute cultura, tem gente fazendo cultura dentro dele. De hoje a domingo, os selecionados pela edição 2007 do programa Rumos Música começam a apresentar seus trabalhos em São Pauo. Tem som para todo gosto, desde a tradição renovada da Banda de Pífanos de Santo Antônio de Carnaíba, de Pernambuco, à Vanguart, de Mato Grosso, uma das bandas folks mais aclamadas do universo musical independente da internet. Depois dessa primeira série de apresentações (registradas para serem exibidas em TVs públicas), os demais contemplados passam 2008 fazendo shows em conjunto em outras cidades brasileiras a serem ainda definidas pela organização do instituto. Três grupos cearenses participam do programa: Os Cabinha (Nova Olinda), Dona Maria do Horto (Crato) e Idson Ricart (Quixadá).

* A repórter viajou a convite do Itaú Cultural

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