Pedro Rocha
da
Redação
"Marilena, você tem imaginação excessiva e é muito indisciplinada. Deve estudar um clássico", disse José Arthur Giannoti, quando Marilena Chaui se preparava pro doutorado. A filósofa decidiu ir às vias de fato com o pensamento de Espinosa, sobre o qual ministra palestra amanhã no Theatro José de Alencar
07/03/2008 01:03

O pensador Baruch Espinosa (1632-1677) tornou-se um dos filósofos fundamentais na obra de Marilena Chaui, professora do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, depois que ela enveredou por seu pensamento. É ele que figura no título da palestra que Marilena ministrará amanhã, no Theatro José de Alencar, a partir das 19 horas: Paixão, ação. Espinosa e a liberdade. A intelectual, uma das mais atuantes no país, concedeu entrevista, por e-mail, ao Vida & Arte, e escreveu sobre o pensamento de Espinosa, política e religião.
Nascida em 1941, em São Paulo, Marilena passou a infância até os 10 anos em Pindorama, interior do Estado, onde começou a formação na escola pública, foi despertada para o patriotismo e, apesar da família católica e de freqüentar a igreja, não teve uma educação religiosa ortodoxa. Uma tia sua lhe dissuadiu de fazer o catecismo, e deu, ela própria, aulas preparatórias, esquivando-se dos cânones, para, só depois, fazer Marilena ler Catecismo, decorá-lo e responder a prova. A primeira pergunta era: "Quem é Deus?". Resposta: "Um Ser perfeitíssimo, criador do Céu e da Terra". Depois dos 10 anos, por problemas familiares, foi enviada a um colégio de freiras, na cidade vizinha, Catanduva, onde teve uma educação religiosa intensa. Nessa época, pensou, inclusive, em ser freira e virar missionária na África.
Nos anos seguintes, começou a ter aulas de filosofia, já em São Paulo, capital. O professor, João Villalobos, começou a primeira aula com o filósofo grego Parmênides, numa turma com faixa etária de 15 anos. "Depois da sua primeira aula, quando ele saiu, foi aquele alvoroço: "O que é isso? O que ele falou?". Mas a minha reação não foi essa. Eu fiquei num completo silêncio, incapaz de dizer qualquer coisa", contou em entrevista para o livro
Veio a graduação, a pós-graduação e o ingresso no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, em 1967, com 25 anos. Passou um tempo na França, quando presenciou os acontecimento de 1968, até voltar ao País no começo da década de 70.
No início dos anos 80, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, quando teve um contato direto com os movimentos sindicais e populares. Nesse tempo se empenhou em pensar a democracia e chegou a ocupar, no início de 1990, o cargo de Secretária da Cultura de São Paulo. Autora de ensaios sobre a história da filosofia e extensos estudos sobre Baruch Espinosa, ele é uma das intelectuais mais ativas do País e uma das defensoras do Governo Lula, mesmo depois da debandada de petistas históricos.
OP - Depois de tantos anos de convivência com a vida e obra de Espinosa, como ele está presente em seu cotidiano?
Marilena Chauí - É preciso cautela numa questão como esta, pois pode dar a entender que uma obra filosófica é um livro de auto-ajuda para bem viver. O que não é o caso. Uma obra filosófica é uma interrogação sobre a origem e o sentido das coisas, do espaço e do tempo, sobre as causas e efeitos dos acontecimentos, sobre a gênese das paixões e das ações, as causas de nossas ilusões, a possibilidade do conhecimento verdadeiro. No caso de Espinosa, sua filosofia é a crítica radical das superstições religiosas e teológicas, portanto, uma ruptura radical com a concepção teológico-metafísica judaico-cristã da transcendência de Deus, imaginado antropomorficamente como uma pessoa dotada de intelecto onisciente e vontade onipotente, que governa o mundo como um rei governa um reino. É também a recusa radical de que o homem seja dotado de livre-arbítrio, que exerceu essa liberdade para transgredir mandamentos divinos e, ao pecar, tornou-se uma criatura culpada e pervertida, habitada por vícios e paixões. A filosofia de Espinosa é uma ontologia da imanência de Deus à Natureza e do homem como parte do ser divino e como expressão do infinito. É uma ética da felicidade e da afirmação de que nossa liberdade é o poder de nosso corpo e de nossa mente para se auto-determinar. É desta maneira que sua obra está presente em meu cotidiano.
OP - Como o pensamento de Espinosa sobre a razão e liberdade influenciou sua ação política?
Marilena Chauí - Espinosa considera que os homens são iguais por natureza, ainda que sejam individualmente diferentes. Sua igualdade decorre do fato de que todos os seres, e o homem entre eles, são expressões finitas da potência infinita de uma substância absoluta (que ele chama de Deus) e, como tais, são todos potências de existir e de agir. Considera também que essa potência define o direito de cada um, de maneira que um direito é um poder de existir e agir e o direito de cada um vai até onde for seu poder para afirmar-se na existência e agir. A idéia de igualdade natural dos homens e da identidade entre direito e poder leva Espinosa a afirmar que a democracia é o mais natural dos regimes políticos, pois o único que respeita e conserva a igualdade, o direito e poder de cada um e de todos e assegura a liberdade individual e coletiva. Além disso, Espinosa considera que, por natureza, todos os homens desejam governar e não ser governados e somente a democracia pode satisfazer a este desejo. A concepção espinosana de democracia tem sido essencial para minhas idéias políticas.
OP - Espinosa argumenta uma separação entre Estado e Igreja, política e religião, filosofia e revelação. Um dos temas atuais que em que essas relações ganham maior complexidade é o da descriminalização do aborto. Qual sua opinião sobre essa questão?
Marilena Chauí - A filosofia de Espinosa é uma crítica radical da superstição religiosa e do poder que esta exerce por meio da teologia. Ou seja, a filosofia de Espinosa é uma crítica radical da teologia política. Sob este aspecto, seu pensamento é de grande atualidade e importância, pois nos ajuda a compreender as causas dos fundamentalismos religiosos que hoje parecem ocupar o centro da cena política mundial. Se os homens pudessem ter o domínio de todas as circunstâncias de suas vidas, diz Espinosa, não se sentiriam à mercê dos caprichos da sorte, isto é, da ordem imaginária do mundo como encontros fortuitos entre as coisas, os homens e os acontecimentos. Como não possuem o domínio das circunstâncias de suas vidas e são movidos pelo desejo de bens que não parecem depender deles próprios, os humanos são habitados naturalmente por duas paixões, o medo e a esperança. Têm medo que males lhes aconteçam e bens não lhes aconteçam, assim como têm esperança de que bens lhes advenham e males não lhes caiam sobre as cabeças. A gênese da superstição encontra-se, portanto, no medo. Por que ignoram as causas reais dos acontecimentos e das coisas, por que ignoram a ordem e conexão necessárias de todas coisas e as causas reais de seus sentimentos e de suas ações, imaginam que tudo depende de alguma vontade onipotente que cria e governa todas as coisas segundo desígnios inalcançáveis pela razão humana. A religião racionaliza (em sentido psicanalítico) o medo e a esperança; a submissão ao poder político como poder de uma vontade soberana secreta, situada acima das vontades individuais dos governados, racionaliza o permitido e o proibido. Essa dupla racionalização é mais potente quando a religião é monoteísta, revelada e destinada a um povo que se julga eleito pelo deus. E o resultado é evidente: os homens são persuadidos pelos poderes econômicos e políticos a se matarem uns aos outros em guerras sangrentas porque tais poderes os fazem acreditar que assim fazendo cumprem a vontade de seu deus e alcançam a salvação eterna.
OP - Um dos principais pontos levantados depois dos escândalos envolvendo o Governo Lula é a perda da ética petista, bem histórico do partido. A partir do conceito de Ética de Espinosa, em que o sentido grego de ethos ("modo ou maneira de ser") é retomado e uma clara separação entre Ética e Moral é realizada, qual a análise que você faz da ética petista depois de cinco anos de governo?
Marilena Chauí - Para compreendermos a posição de Espinosa, precisamos levar em consideração duas maneiras de conceber a figura do governante nas quais não é feita distinção entre ética privada e ética pública. A primeira delas é a concepção teológico-política, que considera o governante não como representante dos governados, mas de um poder mais alto (Deus, a Razão, a Lei, a Humanidade, etc), que lhe confere a soberania como poder de decisão pessoal e único. Para ser digno de governar, o dirigente deve possuir um conjunto de virtudes que atestam seu bom caráter do qual dependem a paz e a ordem. O governante virtuoso é um espelho no qual os governados devem refletir-se, imitando suas virtudes - o espaço público é idêntico ao espaço privado das pessoas de boa conduta e a corrupção é atribuída ao mau caráter ou aos vícios do dirigente. Por isso criticam-se os vícios do tirano e nunca se examina a tirania como instituição política. A outra concepção é a pós-moderna, que aceita a submissão da política aos procedimentos da sociedade de consumo e de espetáculo. Torna-se indústria política e dá ao marketing a tarefa de vender a imagem do político e reduzir o cidadão à figura privada do consumidor. Para obter a identificação do consumidor com o produto, o marketing produz a imagem do político enquanto pessoa privada: características corporais, preferências sexuais, culinárias, literárias, esportivas, hábitos cotidianos, vida em família, bichos de estimação. A privatização das figuras do político e do cidadão privatiza o espaço público. Por isso a avaliação ética dos governos não possui critérios próprios a uma ética pública e se torna avaliação das virtudes e vícios dos governantes; e a corrupção é atribuída ao mau caráter dos dirigentes e não a falhas das instituições públicas.
A concepção moderna da política funda-se na distinção entre o público e o privado - portanto, na idéia de república - e volta-se para as práticas da representação e da participação - portanto, para a idéia de democracia. O exemplo mais contundente da concepção moderna encontra-se em Espinosa. Mas, além de Espinosa, penso que vale a pena retomar também a posição de Aristóteles que, como se sabe, foi o primeiro pensador ocidental a distinguir entre o público e o privado. Justamente por haver separado o publico e o privado, Aristóteles também distinguiu entre virtudes privadas e virtudes públicas, isto é, pensou numa ética pública, na qual a virtude central é a justiça. Distinguiu entre justiça do partilhável ou distributiva - que se refere à distribuição dos bens e ao problema da desigualdade -- e justiça do participável ou participativa - que se refere ao exercício do poder e à igualdade. Ou seja, a primeira se refere ao que pode ser dividido, distribuído, partilhado; porém a segunda se refere ao que não pode ser dividido nem distribuído, mas somente participado. Uma política é injusta, do ponto de vista distributivo, quando trata os desiguais de modo igual e justa quando trata os desiguais de modo de desigual. Penso que o governo Lula tem se empenhado tanto na justiça distributiva (com todos os programas sociais, a reforma tributária, etc.) como na justiça participativa (pelo lugar dado aos movimentos sociais e populares, aos conselhos de representação da sociedade civil no Estado, à busca da reforma política ou de um novo ordenamento institucional, etc.) e, portanto, num ética pública, ou, como prefiro dizer, uma ética da política. Como se vê, é perfeitamente possível e necessário instituir uma ética pública e definir a probidade política pela realização das duas formas da justiça. Isso me parece importante por que tanto a sociedade brasileira ( sobretudo pela ação da mídia) quanto o prórpio PT interiorizaram a idéia de ética na política (isto é, a presença, na política, de virtudes e vícios dos indivíduos privados), em lugar compreender que se trata da ética da política, isto é, da qualidade republicana e democrática das instituições públicas na realização da duas formas da justiça.
SERVIÇO: "Paixão, ação. Espinosa e a liberdade". Palestra com Marilena Chaui, amanhã, às 19h, no Theatro José de Alencar (Praça José de Alencar - Centro). Mais informações: 3101 2568. Grátis.
QUEM É ESPINOSA
Espinosa nasceu em 1632, em Amsterdã, marcado pelo conflito de suas origens: judeu, por ter recebido educação rabínica; português, sua família emigrantes portugueses; holandês, pelo local de nascimento. Aos 24 anos, foi expulso da comunidade judaica, acusado de ateísmo. Depois da excomunhão, em 1656, ele abandonou os estudos judaicos e penetrou no humanismo clássico. Sua filosofia ficou como uma crítica radical da superstição em todas as sua formas (religiosa, política e filosófica) e afirmação da ação libertadora da razão.
Fonte: Espinosa, coleção Os Pensados, org. Marilena Chaui.