Pixinguinha foi o divisor de águas da música brasileira. Foi ele quem consolidou o jeito de tocar choro e definiu o som brasileiro que surgiu nas ruas como choro, a partir daí nascia a música urbana brasileira
16/02/2008 16:50

Para falar de choro, a flautista e pesquisadora Eliane Salek sugere: começa pensando que uma das características do carioca e do brasileiro em geral é aquele jeitinho, aquele jogo de cintura para resolver as coisas, a flexibilidade, que é bastante diferente do europeu. É na veia da malandragem nacional que nascem os acordes do choro. É da flexibilidade de ler uma partitura, de errar e fazer de um outro jeito, de improvisar e dar certo no final que o ritmo ganhou nome e força na música brasileira.
Salek explica que o choro esparramou a música européia, negra e indígena. O "la, la laaa" transformou-se em "laaa, laaa, laaaaaa". Na música popular brasileira existe a interpretação e o choro já nasceu com essa natureza, porque é uma música de rua, as pessoas tocavam e faziam variações em cima daquele tema. "O que acontecia é que músicas européias ganhavam jeitão brasileiro por causa do violão, cavaquinho e da flauta, e nisso estava incluído o improviso", diz Salek.
O choro é uma música instrumental, considerada uma escrita mais difícil que outros gêneros, faz-se até um paralelo entre o choro e a música clássica. Pixinguinha costumava dizer que música era Bach, o resto é conversa fiada. Mas o choro é também popular, porque nasceu no povo. "Numa época que o Brasil passou a ter povo, quando aconteceu a mistura da classe média com as classes baixas, foi aí que começou uma música brasileira, que era o choro". O pesquisador José Ramos Tinhorão escreve "o casamento da tradição do choro da pequena classe média com o samba das classes baixas, era muito fecundo. Uma vez realizada essa síntese da criação de um estilo de música urbana brasileira de origem popular, capaz de ser assimilada pela classe média, seria preciso efetuar a transposição do som para as orquestras convencionais". É aí que Pixinguinha entra como divisor de águas na história da música brasileira. Salek pontua que Pixinguinha foi o apogeu dessa música. "Antes dele teve Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e ele vem no apogeu, foi ele quem definiu a música com um nome. O choro até o inicio do século 20, os gêneros que estavam ali e que hoje a gente chama de choro era tudo meio misturado, chamavam de maxixe, tango brasileiro. Os choros de Chiquinha Gonzaga estão escritos como tango. Então não havia uma sistematização dessa música ela passa a ter com o Pixinguinha".
Flautista há 23 anos, e com carreira de sucesso na Europa, Eliane Salek diz que para tocar Pixinguinha não basta ler uma partitura. "Quem não tiver o mínimo conhecimento de como é uma roda de choro, não vai saber. Tem que ter a interpretação própria". "É a maneira de tocar o choro que transformou a maneira de tocar música a música brasileira". (Paula Lima)
Leia mais sobre esse assunto