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Vida & Arte

ENTREVISTA

A herança Pixinguinha

O neto que administra os direitos autorais da obra de Pixinguinha também é músico e fã do avô. Marcelo Vianna em entrevista ao O POVO fala sobre o acervo, o legado de Pixinguinha e lembra as memórias que ouvia o pai contar


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16/02/2008 16:50

(Foto: Arquivo de família/IMS)
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(Foto: Arquivo de família/IMS)

O acervo de partituras com a caligrafia de Pixinguinha, músicas inéditas e o álbum de família foram conservados e guardados num baú a sete chaves pelo único filho do músico, Alfredinho Vianna. A estante que acumulou durante toda uma vida o material de trabalho e objetos pessoais de Alfredo Vianna foi vasculhada pelo neto Marcelo Vianna, que aos 11 anos descobriu que o autor das canções que gostava de ouvir nas serestas em que acompanhava a mãe era seu avô. Já apaixonado por música, Marcelo conta que viu um mundo novo se abrir quando conheceu o pai biológico e teve a chance de entrar na história da música de Pixinguinha, como herdeiro. Ator, cantor e compositor, Marcelo não tem memórias do avô. Guarda as histórias que ouviu o pai contar e administra os direitos autorais de toda a obra de Pixinguinha. Faz um bom trabalho. Entregou todo o material ao Instituto Moreira Sales, que digitalizou e disponibiliza músicas e fotografias na Internet, além de ter uma exposição com objetos pessoais do músico em sua sede.

Depois do primeiro contato com a obra de Pixinguinha, Marcelo montou um musical e gravou um CD interpretando músicas do avô, entre elas duas inéditas. O material nunca divulgado encontrado inclui cerca de 100 músicas. Em março chega às lojas o primeiro disco da série Pixinguinha, canções organizadas por gênero musical que formam uma coleção de 10 CDs.

Por telefone, Marcelo fala como a descoberta de ser neto de Pixinguinha ajudou a nortear os rumos de sua vida e carreira e se emociona ao contar sobre as preciosidades que encontrou nos acervos do pai. Mantem relação de ídolo com o avô. Conta que é através da música que se aproxima de Pixinguinha. Grande pesquisador da obra do músico, Marcelo define o estilo Pixinguinha com três elementos: suingue, balanço e melodia. E lembra da frase do avô para definir toda sua obra: "choro é chocalhar". (Paula Lima)


O POVO - Você só foi saber que seu avô era o Pixinguinha aos 11 anos?
Marcelo Vianna - Na verdade, eu fui criado por outro pai. Meus pais se separaram muito cedo, eu não tinha nem dois anos. A minha mãe se casou novamente, e o meu pai, Alfredinho (Alfredo Vianna, filho do Pixinguinha), só fui encontrá-lo com 11 anos. Mas esse segundo pai me criou no mundo musical, quando eu descobri que era neto do Pixinguinha já estava envolvido no meio da música por outras mãos. Tinha influência das escolas de samba, freqüentava serestas com minha mãe. Quando eu soube que era neto do Pixinguinha, fui conhecer meu pai e um novo mundo se abriu, porque meu pai abriu os armários onde estavam guardadas as coisas do Pixinguinha. Nessa perspectiva, de entrar nessa casa foi, sim, um mundo novo. Vi que fazia muito sentido ser neto de Pixinguinha.

OP - E o que mudou a partir daí?
Marcelo - Foi a partir daí que fui me aprofundar na família, fui conhecer meu pai verdadeiro, entrar verdadeiramente no mundo pixinguiano. Abrir o acervo mesmo, só comecei depois que me formei como ator. Na verdade, eu cheguei à música como ator, pelo teatro, a partir dos musicais. Foi então que fui começar a mexer nesse repertório, fui produzir um musical, aí entrei nesse universo. Meu pai catalogou, guardou o baú a sete chaves. Lembro assim que cheguei no arquivo, ele disse: aquela estante inteira são só de músicas do seu avô. Meu pai vendo que eu já estava me profissionalizando, abriu para mim. Comecei a pesquisar desde então com o orquestrador Caio César. Fizemos o musical Pixinguinha (direção de Amir Haddad) que ficou em cartaz em 1994 no Centro Cultural Banco do Brasil em 1994, e foi o primeiro musical a fazer parte do Festival de Teatro de Curitiba.

OP - O que de mais fascinante você encontrou nesse acervo?
Marcelo - Quando você entra num acervo desse é incrível. Pixinguinha era iluminado, todo mundo sabe da genialidade dele. Fazia música sempre com muita opinião. Quando você fala em Pixinguinha todo mundo tem boa referência. Comecei a representar essa obra e isso deu-se comigo. Esses sinais acontecem quando vêem um projeto com o nome Pixinguinha, todos olham com esses olhos. Aí que você pontua esses acontecimentos. Aí que eu ia me dando conta da grandiosidade de Pixinguinha. Ele é atemporal muito por conta disso, pela genialidade de músico, e pela freqüência que sua música ainda é tocada. Estou falando com você e sentado numa praça chamada São Salvador, em Laranjeiras, e aqui todo domingo tem roda de choro, gente tocando Pixinguinha, estou sentado bem no coreto. E as pessoas nem fazem idéia do que ainda existe, foi uma produção muito grande. Esse acervo levamos para o Istituto Moreira Sales, para ser digitalizado e preservado. Envolve partituras inéditas, fotografias, tudo o que estava guardado.

OP - Hoje você é músico, tem composições próprias, ser neto do Pixinguinha é uma responsabilidade a mais?
Marcelo - É uma responsabilidade, mas não dei nenhum peso a mais que se deva ter isso. O que a gente for fazer na vida terá essa marca, os meus irmãos, Fernando e Eduardo, nenhum deles enveredou pela música. E a gente sabe que é um tratamento especial ser neto de Pixinguinha, sei que tem isso, mas não dou importância para não atrapalhar. Vejo o Pixinguinha como um companheiro de música, não um gênio distante. Meu encontro com ele se dá através da música mesmo, chego perto dele assim.

OP - O que mais o emociona nesse encontro?
Marcelo - Foi emocionante encontrar as partituras com a caligrafia de Pixinguinha, ele tinha uma forma muito particular de escrever, letra bonita. Para quem eu pude mostrar via sempre como um documento, como descoberta da história do País. É muita história que existe ali. Graças a meu pai que sempre cuidou da melhor maneira que conseguiu e nos permitiu estar mexendo hoje, se papai não tivesse guardado teria tudo se perdido.

OP - Seu pai não chegou a ser músico, mas tocava...
Marcelo - Sim, tocava. Tem uma foto na casa do vovô com Baden Powel, papai no piano e Pixinguinha em cima deles. Meu pai não seguiu adiante, mas o elo dele com a obra do Pixinguinha foi muito forte e agora está tudo salvo.

OP - Qual história que seu pai gostava do contar, quais as lembranças mais marcantes?
Marcelo - Uma das coisas que papai repetia sempre, e estava sempre falando era dessa maneira de compor do Pixinguinha. Ele era muito danado e fazia música como quem respirava. Não é à toa que juntando todas as músicas vá para mais de 2 mil composições, só orquestrações ele fez mais de mil. Papai contava que ele era uma pessoa extremamente simples e pura de conviver, uma alma muito boa, além da genialidade como artista, era uma pessoa pura, incapaz de fazer maldade ou de elevar voz. Pixinguinha foi bom pai, ele e Betty tinham loucura pelo papai. Era filho único.

OP - Você tem lembranças pessoais com Pixinguinha?
Marcelo - Quando o vovô morreu eu tinha quatro anos, presença física não houve. Quando eu estou mexendo nos arquivos é que eu me encontro com ele. Tudo o que meu pai falava sobre ele era relevante, principalmente, sobre a adoção do papai. Papai era filho adotivo do Pixinguinha que foi escolhido com três meses de idade, é o único herdeiro direto. Essa história é a que mais me toca, da vida ter nos dado a oportunidade maravilhosa de ter a responsabilidade de cuidar da obra de um grande músico brasileiro. Pixinguinha já tem bisneto. A Clara, minha filha, que tem 12 anos, adora cantar, mas acho que ela vai descambar para o lado de ser atriz, ou moda, mas com certeza será no meio da arte.

OP - Além do seu pai, com quem mais da família Pixinguinha você conviveu?
Marcelo - A família Pixinguinha é muito grande, eu demorei um pouco para descobrir primos, sobrinhos. Eu vim conhecer primos através da Marília Trindade Barbosa, pesquisadora, que são os filhos das irmãs, e irmãos do Pixinguinha, da ala aqui no Rio de Janeiro. Mas cada hora fico sabendo de um parente, sei também que tem braço da família na escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, mas ainda não fui lá.

OP - Tendo ido tão a fundo na obra do seu avô, como você define o estilo Pixinguinha?
Marcelo - Costumo brincar que a música dele é suingue, balanço e melodia. Ele mesmo dizia: choro é negócio para chocalhar. Até com os temas mais introspectivos, a música dele tem movimento o tempo inteiro, tanto que anda sozinha até hoje. Ele criou um estilo de música mais brasileiro impossível. Ele, como poucos, soube captar e retratar essa essência brasileira.

OP - Quais as maiores influências de Pixinguinha para a música atual?
Marcelo - São muitas, principalmente em melodia. Ele era um grande melodista, a questão rítmica dele é muito forte, generoso em suas composições, que dão muito espaço para o improviso. Ele contribuiu o tempo inteiro com a música brasileira. Parou de tocar flauta e foi tocar saxofone, se você pegar a linha de melodia da música dele, vai ver que o contraponto brasileiro está ali, era um artista inovador e é isso que fica para o Brasil, essa capacidade que a música dele tem de romper com o tempo.

OP - O choro tem voltado a ocupar mais espaços?
Marcelo - Acho que sim, está havendo uma revitalização. Sempre são os movimentos que surgem, se repetem. Agora estourou o samba e com ele o choro. O choro é um ritmo genuinamente carioca, mas é muito lá pra trás, os tempos áureos já foram. Independente disso, o resgate está sendo muito bom.

OP - Quanto de material inédito do Pixinguinha ainda existe?
Marcelo - Para não deixar todo mundo maluco de informação eu digo que existem entre 80 e 100 músicas. A gente vai lançando isso aos poucos, porque quando as pessoas sabem do material inédito, querem logo gravar tudo. Tem muitas outras músicas que não são inéditas, tem outras semi-inéditas, que foram tocadas uma vez e nunca mais executadas novamente. São músicas que precisam chegar ao público e vamos fazendo isso aos poucos.

OP - Em 2002, você lançou o disco Teu Nome, Pixinguinha, em que regravou músicas e acrescentou duas inéditas. O que esse trabalho representou para você?
Marcelo - Participo pouco da geração que está fazendo a revitalização do samba. Quaria ser cantor, mas não parei de fazer teatro, mas era um trabalho que queria muito fazer. Então as músicas receberam letra do Paulo César Pinheiro, e eu achava que eu tinha que ser o intérprete. Foi bom para todo mundo. Foi um disco muito bem falado e me ensinou muitas coisas. Estou preparando um próximo de composições autorais.

OP - Você apontaria algum intérprete de destaque das composições de Pixinguinha?
Marcelo - É difícil, mas a música Glória, que é uma valsa, é a que mais me toca. Numa gravação de Paulo Moura e Clara Sverner, é a que mais me aproxima dele.

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