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Vida & Arte

PIXINGUINHA

Choro à flor da pele

Paula Lima
da Redação

Há exatos 35 anos morria Pixinguinha, flautista, saxofonista e compositor, que revolucionou a música brasileira com seu ritmo suingado, melódico e cheio de balanço. O Vida & Arte Cultura de hoje homenageia o mestre do choro


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16/02/2008 16:50

"Meu coração
Não sei porque
Bate feliz, quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim, foges de mim"

Trecho de Carinhoso, música de Pixinguinha


O meio musical é unânime quando o assunto é Pixinguinha. Foi ele um marco na história da música brasileira. O menino que começou a tocar flauta profissionalmente aos 14 anos e depois trocou o instrumento pelo saxofone, morreu aos 76 anos, no dia 17 de fevereiro de 1973, há 35 anos. Seu legado continua influenciando gerações e suas melodias foram responsáveis pela consolidação da música popular brasileira, em fins da década de 20 e início de 30. "Pixinguinha surgiu no momento em que estava se definindo a personalidade da nossa música, e foi a maneira dele de tocar o choro, que resultou na nossa maneira de tocar música", explica a flautista e pesquisadora musical Eliane Salek na conversa sobre choro.

Contratado pelas gravadoras para fazer orquestração das músicas, até então entregue a instrumentistas estrangeiros, Pixinguinha traduziu o Brasil em canções cheias de ritmo e balanço. Baden Powell o definia como "o compositor do século". "Papai contava que Pixinguinha realmente compunha músicas como quem respirava", revela Marcelo Vianna, neto de Pixinguinha e responsável pelos direitos autorais de sua obra, em entrevista ao O POVO.

O Vida & Arte Cultura deste domingo troca idéias com gente que estudou e viveu Pixinguinha, para lançar um breve olhar sobre a vida e a obra de Alfredo Viana Filho. O crítico e historiador Ari Vasconcelos resumiu a importância de Pixinguinha à música brasileira: "Se você tem 15 volumes para falar da música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido; escreva depressa: Pixinguinha".


EMAIS

- Dona Betty precisou ser internada no Hospital do Iaserj. Pixinguinha não absorveu o choque, enfartou e acabou socorrido no mesmo hospital. Com medo que o estado de sua mulher piorasse, combinou com o filho (Alfredinho) não contar o enfarto a ela. Todos os dias, no horário de visita, Pixinguinha deixava o leito, vestia o terno e o chapéu, e, acompanhado do filho, ia ver a esposa levando-lhe um buquê de flores. Depois, voltava para o próprio quarto, na cardiologia, e prosseguia com o tratamento.

- Em 1952, na igreja São Geraldo, por ocasião das bodas de prata de Betty e Pixinguinha, quando tudo estava pronto para o início da missa, espalhou-se o comentário de que a organista faltara. Mas a situação foi rapidamente resolvida: o filho, Alfredinho, tomou o lugar ao lado da mãe e Pixinguinha apossou-se do coro, assumindo o órgão e presenteando a todos com inspiradas improvisações ao instrumento durante o transcorrer da celebração.

- No bar Gouveia, no Centro do Rio, onde mantinha mesa, cadeira e copo cativos, Pixinguinha reunia-se, todo fim de tarde, com os velhos amigos e colegas Donga e João da Bahiana. Donga e João explicavam tão fiel relacionamento, afirmando: "O que eles disserem é o que eu tenho a dizer. Somos um trio". E Pixinguinha recordava o seu tempo de moço ao falar de si mesmo e dos amigos: "Nós somos um poema". Perguntado se era um indivíduo modesto, respondia: "Se sou modesto não sei. Não tenho pretensão. Na verdade, não quero nada. Quero paz. Pronto."

- O escritor Mário de Andrade procurou Pixinguinha, em 1926, explicando que estava recolhendo material para um livro, "Macunaíma, o herói sem nenhum caráter", que pretendia publicar. Pediu um depoimento a Pixinguinha, que relatou em detalhes as rituais do candomblé da Tia Ciata, célebre pelas famosas sessões onde eram cultuados orixás africanos. Em retribuição, procurando homenageá-lo, Mário fez de Pixinguinha um de seus personagens na obra, inserido na famosa cena de macumba descrita no livro pelo autor paulista. Pixinguinha figura como "um negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão".

- Pixinguinha - disse (cabo da Polícia Militar que impedia a entrada dos folões da banda de Ipanema que entrassem na Igreja para ver o corpo do músico) - morreu dentro da igreja, um dos lugares mais bonitos da face da terra. Morreu como Cristo. Sabem por quê? Porque, como Jesus, quando ele fechou os olhos, a chuva começou a cair.

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