Juliana Girão
Da Redação
Em entrevista ao Vida & Arte, a dramaturga Maria Adelaide Amaral fala sobre a próxima miissérie da TV Globo Queridos Amigos, que estréia dia 18. A trama, inspirada no seu livro Aos Meus Amigos, se passa no ano de 1989 e traz histórias inspiradas na própria memória da autora
16/02/2008 00:49

Era novembro, 1989. A então repórter Maria Adelaide Amaral encerrava sua carreira na redação da Editora Abril. O País tinha a primeira eleição direta para presidente depois de quase três décadas e o mundo assistia à queda do Muro de Berlim. Cercada de sonhos e desencantos, a dramaturga foi viver de televisão e teatro. Simpatizante da esquerda, ela confrotava-se com ilusões perdidas e vivia a ressaca de anos de abaixo-assinados humanitários, manifestações contra a repressão, apoio às famílias de presos políticos e fundos para greves. Mas o baque maior viria dois anos depois. O seu grande amigo, jornalista Décio Bar, pôs fim à própria vida. O episódio foi devastador. Adelaide se viu com uma necessidade urgente de falar sobre o colega e sobre a própria geração. Em 1992, nascia o livro Aos Meus Amigos, que agora ganha adaptação para a televisão na minissérie Queridos Amigos, na TV Globo.
Dirigida por Denise Saraceni, a minissérie de 25 capítulos estréia próxima segunda-feira (18) e traz uma história sobre afetos e reencontros. A trama se passa naquele novembro de 1989, quando o publicitário e escritor Léo, personagem principal inspirado em Décio Bar, está doente e decide fazer da morte a sua grande obra prima. Ao se deparar com a finitude, ele escolhe alterar sua própria realidade e a daqueles que ama. Ele volta a reunir o seu grupo de amigos, que não se encontrava há quase dez anos por motivos diversos. A maior parte deles é uma mistura dos verdadeiros amigos da própria Maria Adelaide Amaral. "Nunca pensei em adaptar Aos Meus Amigos para a TV. Achei que dava um filme, não uma minissérie. A idéia de adaptar o livro para a TV não foi minha, mas do Dan Stulbach (ator, que fará o papel do personagem principal)", explica a autora, em entrevista por e-mail.
O POVO - O texto da minissérie Queridos Amigos é uma adaptação do seu livro Aos Meus Amigos, de 1992. Quando a senhora viu que a história do livro renderia uma minissérie?
Maria Adelaide Amaral - Nunca pensei em adaptar Aos Meus Amigos para a TV. Achei que dava um filme, não uma minissérie. A idéia de adaptar o livro para a TV não foi minha, mas do Dan Stulbach (ator, que fará o papel do personagem principal). Foi ele quem observou que o romance daria uma minissérie. Considerei a idéia, escrevi um argumento e recebi sinal verde para fazer a sinopse. E então me dei conta de que estava fazendo o primeiro trabalho exclusivamente meu para a TV. No teatro e na literatura quase sempre fiz isso.
OP - O personagem principal Léo é inspirado no jornalista Décio Bar, seu amigo, que se suicidou em 1991. Que peso teve esse episódio na sua vida para levá-la a escrever o livro?
Adelaide - O suicídio dele me levou a escrever sobre a nossa geração. Ele era um dos meus amigos mais antigos e o que exerceu mais influência nas minhas opções estéticas. A gente se conheceu em 1961 do Colégio Estadual de São Paulo, ele estava no terceiro científico e eu no primeiro clássico e já fazia parte dos Novíssimos, uma nova geração que estava revolucionando a poesia em São Paulo. A esse grupo pertenciam Lindolf Bell, Fernando de Franceschi e Roberto Piva, entre outros. Durante um ano convivemos intensamente. Ele, me iniciando na boa literatura e na filosofia (eu lia muito, mas indiscriminadamente): Fernando Pessoa, Albert Camus, Sartre e Simone de Beauvoir. Em 62, ele entrou na faculdade de Arquitetura e fomos nos encontrar na década de 70 na Editora Abril quando ele era jornalista, depois de ter passado pelas artes plásticas, a publicidade e o cinema.
OP - O que mais Queridos amigos tem de autobiográfico?
Adelaide - Quando o livro foi lançado, em 1992, houve quem dissesse que se tratava de um romance onde cada personagem correspondia a uma pessoa real. Não era inteiramente verdade, com exceção de Adônis, inspirado no meu querido amigo Renato Pompeu. A maior parte dos personagens do livro é uma mistura de várias pessoas reais e, na minissérie, eles se transformaram e ganharam novas características. E também uma nova cara e autonomia em virtude dos atores que os interpretam.
OP - Queridos Amigos é uma história sobre amizade. Que lugar a senhora acredita que a amizade ocupa na vida das pessoas? Até onde essa temática interessa ao telespectador?
Adelaide - Os amigos têm sido o esteio da minha vida afetiva e profissional. Devo muito a eles, na alegria e na dor, na saúde e na doença. Ser amigo é ser presente sem ser invasivo, ser íntimo sem ser promíscuo, saber quando é hora de falar e de silenciar, celebrar e consolar. Ser sensível e compassivo, em outras palavras. E todo mundo tem ou teve um grupo de amigos do peito e do coração. Pessoas que se tornaram mais importantes que a própria família de sangue. Quanto ao interesse do telespectador, a resposta virá através da audiência.
OP - Trabalhar um texto para uma minissérie dá mais liberdade do que para uma novela?
Adelaide - A vantagem das minisséries é uma liberdade maior que as novelas em relação à audiência. Trata-se realmente de obras fechadas e assim, não dá para fazer ajustes que às vezes se fazem nas telenovelas. Em Queridos Amigos o andamento do roteiro é cinematográfico, há pouca concessão ao folhetim e nenhuma à linguagem. Mas as pessoas que têm lido o texto têm achado interessante.
OP - A trama se passa nos anos 80. Como o contexto político e social, marcado pela disputa eleitoral no Brasil, vai ser retratado?
Adelaide - Quase todos os personagens da minissérie se envolveram direta ou indiretamente em política. Mesmo aqueles que fazem crítica à luta armada, durante a ditadura ajudaram a esconder amigos, ou mobilizaram suas relações para resgatá-los da prisão ou órgãos da repressão, e/ou facilitaram partidas para o exílio. Léo, o protagonista, cineasta e escritor, alinhado com pensamentos de vanguarda, é um exemplo de pessoa que deu esse tipo de retaguarda. Aqueles que estiveram mais diretamente envolvidos com a política são Ivan e Tito, jornalistas, ex-presos políticos; Pedro, autor de romances que denuncia os porões da ditadura militar; Bia, presa e torturada no DOI-Codi etc. A política, portanto, impregna a vida da maior parte do grupo. Em 1989, estão, cada um à sua maneira, revendo ou reforçando conceitos, se confrontando com ilusões perdidas e vivendo a ressaca das Diretas. Quanto à disputa eleitoral, a minissérie se encerra no alvorecer do dia 20 de novembro, quando a campanha não tinha chegado ao ponto mais acirrado, nem isso teria peso dramático na nossa história, pois os queridos amigos já anunciaram que votarão em peso no Lula, no segundo turno, com exceção do Benny que votará nulo.
OP - Por que a senhora escolheu esse período?
Adelaide - São várias as razões que me levaram a ambientar a trama em 1989. Uma delas foi a primeira eleição direta para presidente desde a eleição do Jânio, em 1960. As outras razões são tão importantes quanto: a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro; a inflação de 50% ao mês; o desemprego de modo geral e, de modo particular, no jornalismo, onde eu trabalhava. E também porque em novembro de 1989 encerrei, com a edição de Os Cem Anos da República, a minha última contribuição à indústria editoral. Foi a minha última vivência de redação e lembro bem dos sonhos e desencantos que nos cercavam.
OP - A senhora era jornalista free-lancer na época, certo? Como era a sua participação política?
Adelaide - No ano em que estreei no teatro, 1978, com Bodas de Papel, tive uma peça censurada, Cemitério sem cruzes, que fazia parte da Feira Brasileira de Opinião, proibida em bloco. Fui o que se chama de simpatizante da esquerda. Fiz parte do grupo de pessoas que subscreveram abaixo-assinados humanitários, manifestaram-se contra a repressão, assinaram Em Tempo e Opinião, ajudaram as famílias de presos políticos, foram ao enterro e à missa do Vlado (Vladimir Herzog) e angariaram fundos para a greve do ABC.
OP - A senhora já afirmou que nunca se filiou a nenhuma partido político, mas que sempre esteve mais alinhada à esquerda. Como a senhora analisa a esquerda brasileira no contexto político atual?
Adelaide - O único político que me representa verdadeiramente é Fernando Gabeira.
OP - O personagem principal Léo faz mágicas. Se a senhora tivesse o poder de realizar mágica, o que faria?
Adelaide - Faria os políticos corruptos irem todos para o Iraque. Sem passagem de volta.
E-mais
MARIA ADELAIDE AMARAL
Maria Adelaide Amaral é jornalista, escritora e dramaturga. Portuguesa, nasceu em 1º de julho de 1942, no Distrito do Porto. Aos 12 anos de idade, veio morar em São Paulo em 1954. Escreveu para o teatro, entre ourtas obras Bodas de Papel (1976), A Resistência (1975), Ossos D'Ofício (1980) e Chiquinha Gonzaga (1982). Na televisão, foi co-autora de Meu bem, Meu mal (1990) e colaborou, entre outras novelas, com Deus nos Acuda (1992), O Mapa da Mina (1993) e Sonho meu (1994). Mais recentemente, escreveu as minisséries A Casa das Sete Mulheres (2003), Um Só Coração (2004) e JK (2006).
LABORATÓRIO
Para viver os personagens Léo e Iraci em Queridos Amigos, os atores Dan Stulbach e Fernanda Montenegro estão fizeram aulas de mágica e dança, respectivamente. Este é o primeiro trabalho de Dan Stulbach como protagonista.
Na Internet!
queridosamigos.globo.com
www.mariaadelaideamaral.com.br