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Vida & Arte

CARNAVAL

É de perder o sapato!

Guilherme Cavalcante
especial para O POVO

Uma boa surpresa para quem resolveu ficar na cidade durante o Carnaval. No encerramento folia, na noite de terça-feira, quem sobe o palco é o artista pernambucano Antônio Nóbrega, que contagia os foliões com música e dança repletos de referências multiculturais


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02/02/2008 00:16

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Uma colcha de retalhos. Para não cair no simplismo na hora de definir a pluralidade do trabalho feito pelo pernambucano Antônio Nóbrega, comparar sua arte com o recorte de diversas referências culturais costuradas em um só anteparo talvez seja o mais justo a se fazer na hora de explicar o que ele faz. A tarefa de defini-lo, portanto, não é fácil e até o próprio artista se esquiva de dar respostas pré-definidas. "É uma tal confusão que nem o criador saberia direito dizer o que que é", conta Nóbrega, achando graça da resposta que dá.

Quem o desconhece dificilmente crê que da baixa estatura e do corpo franzino do artista possa emanar energia suficiente para contagiar multidões em cirandas, reizados e frevos ladeira acima. Mas isso ele aprendeu a fazer desde cedo, quando, com as irmãs, cantava e dançava sem largar o violino. Mais tarde, na década de 1970, teve a honra de ser convidado por Ariano Suassuna para integrar o grupo Quinteto Armorial, quando teve mais contato com cultura popular nordestina. Entretanto, Nóbrega se descreve como universalista. Das fontes de que bebe também existem outras referências que não o regional. "Meu trabalho reflete um pouco essa justaposição, esse diálogo. A cultura popular é uma referência muito forte, claro, mas não é a única e nem sou prisioneiro dela", explica.

O fato é que quem assiste a um espetáculo do pernambucano, muitos deles premiados, impressiona-se com as luzes, cores, performances, cantos, sons e danças, a maioria delas muito convidativas a ponto de ninguém conseguir permanecer parado. No palco, ele é versátil: canta, dança, faz rir, conversa, ensina, educa olhos e ouvidos a reconhecerem a maestria do lúdico. Em São paulo, onde mora atualmente, ele também desenvolve outros trabalhos educativos e considera a escola Brincantes um pequeno centro cultural representando a cultura nordestina em terras do Sudeste.

Nóbrega já estava em Recife, preparando-se para o Carnaval, quando falou ao O POVO. A conversa por telefone rendeu papo suficiente para saber um pouco mais da história dele, do personagem Tonheta, dos trabalhos vindouros e, claro, da apresentação em Fortaleza. Para o folião que permanece na cidade, portanto, haverá muito o que se comemorar.


O POVO - Não é tarefa fácil definir exatamente o que você faz. Eu arriscaria dizer que seu trabalho é o de um artista performático que, ao mesmo tempo, é difusor da cultura popular, principalmente através de um viés lúdico. Mas, como você faz essa definição?
Antônio Nóbrega - Eu também tenho uma certa dificuldade de dizer sinteticamente. Às vezes as pessoas até pedem que eu me qualifique com uma única palavra o que eu sou. Eu tenho a alcunha mais difundida de multi-artista, mesmo, que é uma palavrinha que eu confesso que acho meio sem graça (risos). De qualquer forma eu ainda não encontrei outra melhor. Acho, talvez, que o meu trabalho começa a desenvolver um paradigma de atuação que ainda tá se inaugurando. Eu me sinto músico, músico que dança e que representa. Veja, não é uma palavra só, é mais um conceito. A presença visível no meu trabalho é a da ligação desse músico que dança e que representa a cultura do seu país. Então, isso para mim é o que marca realmente o meu trabalho, sem ser prisioneiro de uma visão regionalista. O meu trabalho reflete, de certa maneira, o temperamento, o caráter, uma certa maneira de ser do brasileiro.

OP - Poderia dizer, então, que você é algum ícone contemporâneo da cultura popular?
Nóbrega - Não, não. Eu não sou um artista popular. Sou um artista que se referencia, entre outras coisas, na cultura popular brasileira. Mas eu tenho referências, vamos dizer assim, universalistas. Eu sou uma pessoa que lê literatura não-regional, que escuta música clássica, escuta música dos povos... Meu trabalho reflete um pouco essa justaposição, esse diálogo. A cultura popular é uma referência muito forte, claro, mas não é a única e nem sou prisioneiro dela.

OP - E como a música surgiu na sua vida? E em que momento você passou a dar esse tom de miscelânea a ela?
Nóbrega - Desde cedo que meu pai me colocou para estudar música. Meu pai é cearense, é sertanejo de Lavras da Mangabeira. Ele tinha uma paixão muito grande e continua tendo, ainda, pela música, e viu que eu era um menino com dote artístico. Aí ele me colocou para estudar violino. As minhas irmãs também foram estudar e ele até propiciou que a gente fizesse um conjunto doméstico, onde eu já cantava, já brincava. E depois, quando eu conheci Ariano Suassuna, em 1971, quando ele me convidou para integrar o Quinteto Armorial, essa minha predisposição de artista versátil se deslocou para aquele universo que eu começava a conhecer, que era o da cultura brasileira em geral. Eu tinha aquela energia que exercitava com minhas irmãs e fui mudando de habitat, pegando as referências da cultura popular para o meu trabalho.

OP - Você é pernambucano, de Recife. Nasceu bem no olho de uma fonte cultural rica e inspiradora. Por que a mudança para São Paulo?
Nóbrega - Eu mudei para um local onde eu pudesse, primeiro, ter uma vida artística um pouco mais plena. São Paulo é um centro difusor de cultura, é um local que poderia me colocar, profissionalmente, numa situação que eu, certamente, não conquistaria estando em Recife. São Paulo também me possibilitava fazer um diálogo com outras culturas. Tem também o fato de eu ter uma estrutura que funcionou como um consuladozinho do Nordeste, de Pernambuco, em especial, que é o Brincantes. Ou seja, foi algo bom, importante, porque além de eu levar minhas referências nordestinas, penso que, ao mesmo tempo, me beneficiei de conhecer outras culturas, tanto a cultura metropolitana como a rural.

OP - Como é o seu trabalho no Brincantes?
Nóbrega - É um trabalho mais de linha educacional. Temos um curso muito bonito chamado Arte para Educadores que, inclusive, já formou professores da rede estadual e municipal. Ele também é um projeto de extensão e se desloca para algumas regiões do Brasil. Além dele, tem os cursos de percussão, os cursos de dança, de ações variadas da cultura brasileira. Aliás, não só da brasileira, mas da cultural geral. O Brincantes é uma espécie de um pequeno centro cultural referencial da nossa cultura.

OP - Um dos seus personagens mais famosos é o Tonheta. De que forma ele participa da sua vida?
Nóbrega - O Tonheta é um personagem que há muito tempo eu venho desenvolvendo. Ele, ultimamente, anda até em banho-maria (risos), porque dediquei três espetáculos a ele, que foram o Brincante, Segundas Histórias e o Figural, e depois dessas incursões com o personagem eu vim me dedicar mais à música. Mas agora eu tô retomando esse personagem, mesmo porque agora eu acho que a aventura de realizar uma obra cinematográfica dedicada à ele é uma meta que já está no horizonte da realização para muito em breve. Eu acho que o Tonheta tem uma participação muito forte no meu trabalho. Provavelmente é um alter-ego meu. Todos temos um lado bufão, um lado brincalhão dentro de nós, não é? Ariano (Suassuna) gosta muito de dizer que nós temos um pouco de rei e de palhaço dentro da gente. Essa gangorra do que é mais presente entre nós varia de cidadão pra cidadão. Então a presença de Tonheta na minha gangorra é muito forte e calha de eu ser artista e poder dar corpo, dar voz a ele através da própria arte.

OP - Já que você se diz artista de influências diversas, como você se relaciona com o Carnaval?
Nóbrega - Eu comecei a me interessar por essa data acho que faz uns 10 anos, quando imperava, aqui em Recife, os trios elétricos. Na semana pré-carnavalesca, aqui, na praia de Boa Viagem, tinha um desfile que era uma prévia da data, cujo cortejo era feito pelos trios elétricos. Mas só que eles não se preocupavam de tocar frevo. Então eu sugeri, na ocasião, a criação de um trio elétrico dedicado integralmente a ele. Aí foi quando eu criei o primeiro trio elétrico de frevo, que veio a chamar-se Na Pancada do Ganzá que, na verdade, era a transposição de um espetáculo meu para cima do trio. Eu já privilegiava frevos, maracatus, caboclinhos, aquele gênero de música que habitualmente se toca no Carnaval de Recife. Fiz isso da primeira vez e no segundo ano ia sair com Chico Science, mas ele faleceu no dia anterior. Aí fui cada vez mais me afeiçoando com o Carnaval. Os trios elétricos do Recife foram suspensos, o que eu achei muito bom e inclusive fui uma das vozes que falou a favor disso. Então criou-se os palcos em várias localidades da cidade, onde vários artistas se apresentam. O Carnaval de Pernambuco é uma grande festa a céu aberto, é uma grande vitrine de quem faz música no Brasil. Não só a música carnavalesca, mas, enfim, nós apresentamos nosso universo musical à revelia daqueles gêneros do Carnaval.

OP - Falando em frevo, você foi um dos estandartes que deram início à comemoração dos 100 anos do Frevo, no ano passado. Você acha que, depois disso, o gênero passou a ser mais lembrado, mais difundido na cultura nacional?
Nóbrega - Eu tenho pra mim que, nacionalmente, ainda não. Mas é cedo, né? A gente não pode pedir resultados assim com tanta brevidade. Acho que, de qualquer forma, o frevo ganhou uma visibilidade muito maior. Eu lancei dois CDs, outros compositores também lançaram os seus e em Recife há uma efervescência muito grande do ritmo. É claro que estamos ao redor da data, já que esse é o ano da comemoração. Mas eu espero que o frevo seja assimilado não só como música carnavalesca. A meu ver, as formas do frevo transcendem os limites do próprio Carnaval, assim como o baião transcende a época dos festejos juninos. O frevo é uma música cujo texto se auto-alimenta do Carnaval, mas acho que ele também pode romper isso. Na minha busca, eu aposto muito nisso e acho que ele pode ser um gênero musical de exercício para os compositores por todo o ano.

OP - Com o primeiro volume do disco Nove de Frevereiro você recebeu o prêmio Tim de música em 2006 e o segundo também recebeu a indicação. O que isso significou para você?
Nóbrega - Veja, eu acho que essa é uma declaração, para mim, de que as pessoas gostaram de uma música que habitualmente não é consumida. É um reconhecimento, acho que ajuda nessa co-relação de esforços para por o frevo dentro de locais de visibilidade maior. Mas eu também não me deixo contaminar muito por isso (risos). Eu não sou muito vaidoso e às vezes nem vou para as premiações. Não tenho muita natureza pra isso. Mas essa eu fui, viu? Até mesmo em nome do próprio frevo.

OP - No segundo volume do disco você conseguiu arranjos diversificados para cada uma das canções e mostrou diversas facetas do frevo. Sobre a evolução do gênero, você acredita que ele tem passado por algum tipo de renovação?
Nóbrega - Olha, tem evoluído sim. Antes é preciso entender que o frevo é, antes de tudo, uma instituição cultural, porque ele abriga uma música instrumental. Aí nós temos o frevo de rua. O frevo cantado têm duas vertentes: o cantando e o de bloco. E também temos a dança. Então, falar da evolução do frevo não pode se focar num só desses. Todos eles têm que ser observados. Eu acho que há. A dança cresce, não só em relação ao número de pessoas, mas à própria evolução da dança. A recriação de passos e a pedagogia em que ele é ensinado é diferente. Eu me pergunto é sobre a alteração que se pode fazer no frevo instrumental, que é a modalidade pela qual eu tenho mais paixão. Quem escuta um frevo de 60, 70 anos atrás tende a pensar em características de um frevo de 20, 30 anos atrás já transcendem, seja no plano harmônico ou na inventividade melódica. Isso demonstra que o frevo tem, sim, essa evolução. É como você comparar um choro de Pixinguinha e outro mais moderno. Há a evolução no gênero, mas é preciso ter uma educação musical para perceber isso. Como não é uma música muito tocada, se pensa que um frevo é igual ao outro.

OP - Você está trabalhando em algum novo projeto?
Nóbrega - Tá para sair meu DVD do disco Nove de Frevereiro, acredito que em maio deste ano. Além disso, estou preparando um espetáculo que, pela primeira vez, é totalmente dedicado à dança, que estréia agora em março. Claro, também tem outros projetos de espetáculos, assim como o filme que já falei, que está andando. Cada um deles, na medida em que estiverem na linha de montagem final, eu aviso para que as pessoas tomem conhecimento do que se tratam.

OP - A sua apresentação em Fortaleza é na terça-feira de Carnaval. Dá para adiantar o que você planeja para o show?
Nóbrega - Claro! Vai ser o mesmo show que farei em Recife este ano, uma versão adaptada do Nove de Frevereiro, com oito músicos. Daí eu vou cantar maracatus, frevos, cocos... É um espetáculo bem no clima de Carnaval, para as pessoas brincarem, confraternizarem, viverem a alegria que o Carnaval nos oferece de maneira tão gentil e tão cortês.


SERVIÇO

Carnaval de Fortaleza, com apresentação do multi-artista pernambucano Antônio Nóbrega. Terça-feira, 5/2, a partir das 23h30min, na avenida Domingos Olímpio. O evento é gratuito. Confira na programação outras atrações do Carnaval Fortalezense.

(!)
Confira a programação completa do carnaval de Fortaleza em www.opovo.com.br/conteúdoextra

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