Cidicley Miranda
especial para O POVO
Aos oito anos de idade, Armandinho ja aprendia a tocar bandolim. O que lhe deu ingresso para, dois anos depois, subir num trio elétrico pela primeira vez
31/01/2008 00:49

Poucos minutos de conversa com Armandinho já são suficientes para um mergulho na história do Carnaval baiano. Ele é a mémoria viva de uma época em que para se brincar não era preciso gastar dinheiro com abadás e camarotes. Bastava ter uma dose de ousadia e criatividade, para juntar vários instrumentos de sopro, colocá-los em cima de um carro velho, ligar os instrumentos nuns amplificadores sob a regência de uma desconhecida guitarra baiana, mandar o som de Vassourinhas, e simplesmente enlouquer a multidão. Assim decretar o início de uma nova era do Carnaval e batizar o que conhecemos hoje como trio elétrico.
Armandinho sempre fala da origem do trio elétrico com uma emoção fácil de notar, através de um olhar vivo e de palavras que exprimem orgulho. Fruto de uma adoração nítida pelo pai, Osmar Macedo, que junto com Dodô, foram os responsáveis pela invenção do trio elétrico. Uma novidade que logo cedo Armandinho iria fazer parte. Aos dez anos de idade, já comandava um trio elétrico mirim, com bastante naturalidade, apenas fechando os olhos e sentindo a energia tomar conta de si. Ritual que conserva até hoje, mesmo que os tempos tenham mudado.
Amante do bandolim, Armandinho é também um instumentalista cuja maestria pode ser considerada única no Brasil. Apesar de admitir que o reconhecimento nem sempre é aquele esperado. Mesmo assim, ele vai tocando pra frente, longe da mídia e fazendo aquilo que sabe de melhor: música. Com a mesma crença de quem aos oito anos de idade se entregou ao bandolim, na esperança de encontrar uma razão de vida.
O POVO - Sua história com a música começou bem cedo. Ainda criança, você começou a tocar o bandolim, instrumento bem complexo para uma criança aprender. Como é que se deu esse aprendizado, essa iniciação?
Armandinho - O meu pai tocava desde menino também. Ele tocava bandolim, por causa da minha tia, que tinha um grupo de bandolinistas no interior da Bahia, somente com mulheres. Antigamente, era comum grupos de mulheres tocando bandolim. Era um instrumento que se achava próprio para mulheres. Violão não era, porque era considerado marginal. Então, meu pai aprendia em casa com minha tia, porque ele gostava. E ai, ele começou pelo chorinho, pela música popular brasileira. Ele tinha muita facilidade. E eu já nasci vendo meu pai tocando em casa. Apesar de que ele não era um músico profissional, porque tinha outro trabalho, como metalúrgico, trabalhava em construção civil. E eu sempre gostei daquilo, mesmo com minha mãe contrária a que eu aprendesse antes de estudar e me formar. Mas eu não tive jeito. Eu perdi minha mãe com oito anos de idade, e a minha salvação na vida foi tocar. Com dez anos, eu já tocava num trio elétrico mirim que meu pai criou, como solista. Já saía pelo Carnaval de Salvador, encontrando com grandes trios elétricos. Então, desde pequenininho, eu tenho isso que o povo chama de cachaça, uma coisa assim que me envolve. O trio elétrico é minha cachaça.
OP - Mas quanto ao bandolim, como você começou a tocar? Era escondido da sua mãe, já que ela não queria...
Armandinho - Engraçado. Eu só comecei a aprender depois que ela morreu, quando eu tinha oito anos. Dai em diante... Não sei, acho que foi a solidão que me fez ir fundo, porque a partir daí eu não conseguia largar mais o instrumento. O bandolim passou a ser o meu companheiro e meu elo social, porque eu era muito tímido, muito introvertido, e a música me fez esse intercâmbio com o mundo. Eu era péssimo aluno, piorei muito depois que minha mãe morreu, acabei ficando muito perdido. Então, a música foi a minha salvação. Dai em diante, toquei no trio elétrico todo o repertório do meu pai. Meu pai, na verdade, foi meu grande mestre. Eu não escutava os outros instrumentistas, eu sempre escutava ele. Como ele tinha uma relação com os maiores instrumentistas brasileiros, principalmente dessa área de cordas, eu estava bem relacionado com a música brasileira. Logo em seguida comecei a ouvir Beatles, Jimi Hendrix, e entrou toda essa história de guitarra, que fundiu com a guitarra do trio elétrico, porque ela tinha toda essa necessidade de ampliação de som, de falar alto. E ela já tinha também a distorção, naturalmente, pela própria potência que se botava nos aparelhos, mas ninguém sabia disso. Era engraçado. O Dodô chamava de areia no som. Aquela coisa que faz berrar o som. Ele dizia: "não! O som está com areia. Temos que limpar!". E quando eu comecei a escutar a guitarra do Hendrix, eu percebi que essa areia era o som do momento.
OP - Você é daqueles que segue a sina "filho de peixe, peixinho é". Seu pai, Osmar, é sua maior referência musical. Mas fora da música, como era a sua relação com ele?
Armandnho - De muito carinho. Sempre teve a maior presença. Tinha a metalúrgica dele, que ficava nos fundos la de casa. Então, estávamos sempre juntos. Meio-dia, de tarde, de noite. Todo tempo, ele estava lá em casa me passando os sons do bandolim e do cavaquinho. Eu sempre digo que a guitarra baiana vem desde misto. Prevalece o bandolim pela afinação, mas ela também é cavaquinho, porque não utiliza as cordas duplas. Então, era aquele instrumento de quatro cordas, como o cavaquinho, mas afinado como bandolim. Eu, em seguida, botei uma quinta corda, que eu uso até hoje, que veio por uma necessidade de você expandir com mais harmonia, solo e tudo mais. E batizei ela de guitarra baiana, porque ela não tinha esse nome.
OP - Foi você mesmo, ou o Dodô e o Osmar?
Armandinho - Foi eu mesmo, porque nos discos a gente escrevia cavaquinho elétrico. Nos dois primeiros discos do trio estão lá: "cavaquinho elétrico, Amandinho, Dodô, Haroldo...". E no terceiro disco, eu disse: "Pô, essa guitarra é baiana". Tínhamos que dar esse nome, porque é um instrumento diferente. Não é um bandolim, não é um cavaquinho, ou é um cavaquinho, é um bandolim, mas tem mais uma corda, e tem uma característica sonora diferente de tudo que esta na música brasileira por ser elétrico.
OP - E foi com uma guitarra baiana que você subiu, com dez anos de idade, num trio elétrico?
Armandinho - Exatamente. O cantor do trio elétrico era a guitarra baiana. Não tinha voz, era instrumental. Tinha sempre que ter um camarada que tocasse a guitarra elétrica no trio. O que era difícil, pois não existiam muitas boas guitarras baianas.
OP - Mas e a responsabilidade, Armandinho. Você com apenas dez anos de idade animando um dos carnavais mais tradicionais do pais. Não sentiu um frio na barriga?
Armandinho - Eu fazia isso com uma tranquilidade de menino, como se estivesse na sala da minha casa. Eu via meu pai fazendo isso, então eu era como ele, eu era ele ali. Tocava ali alheio àquela loucura em volta. Durante anos foi assim. Eu tocava de olhos fechados, a multidão em volta, acontecendo milhões de coisas, e eu lá, de olhos fechados.
OP - Então, não foi assim uma descoberta, uma iniciação?
Armandinho - Antes de eu aprender a tocar, as últimas vezes que via meu pai sair pra tocar num trio elétrico, eu chorava pra ir também. Era menino, né? Tinha sete, oito anos de idade, e não tinha como sair num trio elétrico. Então, eu ficava pedindo, e ele dizia: "aprenda a tocar que eu te levo". E no ano seguinte, eu aprendi a tocar e deslanchei. Quando sai no trio elétrico a primeira vez, com dez anos de idade, eu não tinha nem um ano que estava tocando aquilo tudo. Mas já tocava o repertório dele de frevos.
OP - Inicialmente, sua formação foi marcada pela influência de músicos tradicionais da musica popular brasileira, como Pixinguinha, Waldir Azevedo, mas na sua adolescência você mergulha de cabeça no rock, criando uma mistura do som brasileiro com o que vinha dos Estados Unidos. Naquela época, como é que o público e a crítica receberam isso?
Armandinho - Quando eu entrei pro rock, o conjunto que eu tocava era de festinhas de casas de amigos. Já quando eu me revelei, com meus primeiros discos, com 15 anos de idade, num programa nacional, foi com bandolim. Então, não tinha essa repercussão à formação do meu lado roqueiro, que não era ativo. Eu gravei três discos de bandolim, na época. Eu nunca coloquei em evidência o meu lado roqueiro básico. Profissionalmente, eu sempre segui o bandolim e o trio elétrico. Logo em seguida começamos a gravar os discos de trio, que era uma característica sonora da Bahia. Vista em disco, aquilo fez maior sucesso na Bahia, porque o trio já era um sucesso. Quando aquilo foi ouvido em rádio, foi uma loucura, foi a época em que mais se tocou música instrumental em rádio foi nesse período dos anos 70 e 80. E começamos também a colocar em cada disco, duas a três músicas cantadas, com o Moraes Moreira. Daí o Moraes começou a subir no trio e pegava um microfone precário, que tinha um som de corneta, pra ver se saia a sua voz. Quando saiu Pombo Correio, com música de Dodô e Osmar, que ele colocou a letra, o povo todo cantou atrás. Aí a voz passou a fazer parte do trio elétrico e ficou mais fácil pros outros conjuntos terem um cantor, do que ter a guitarra baiana, porque era muito difícil encontrar quem tocasse bem uma guitarra baiana.
OP - Mas nada de influência do rock nas composições das músicas de trio elétrico...
Armandinho - Total. O meu trio elétrico, quando ele voltou, em 74, já com Armandinho, Dodô e Osmar, os amigos já falavam que era como se fossémos um Jimi Hendrix.
OP - Até o próprio nome de guitarra baiana da uma idéia de algo que vem do rock...
Armandinho - Exatamente. A gente tinha essa postura de roqueiro. Inclusive, a quinta corda que coloquei foi para ter mais grave, mais postura de guitarra. E nos diziam que o trio elétrico era o rock brasileiro. O primeiro disco de trio foi mais uma homenagem ao repertorio de Dodô e Osmar. Mas no segundo, com composições minhas e do Haroldo, meu irmão, já tinham uma injeção do nosso rock. Chegaram até a comparar a gente com o Pink Floyd. Essas comparações eram feitas e tinham a ver com o que a gente vivia também, na musica universal.
OP - Você acredita que a sua vitória na eliminatória do concurso nacional, A Grande Chance, no programa do Flávio Cavalcanti, foi realmente um fato marcante para lhe tirar do anonimato?
Armandinho - Claro. Naquela época só tinha um canal de televisão, em Salvador. A Tupy, que na Bahia era a TV Itapuã. Primeiro eu ganhei na Bahia. Veio um júri do programa do Flávio Cavalcanti pra lá. Eu fiquei já famoso. O programa era passado em todo Estado. Eu saia e todos me paravam na rua. Eu era o candidato que ia fazer A Grande Chance, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Cinco meses depois, eu fiz a final. Meu pai me preparou, com o Dino Sete Cordas, grande violinista do Jacob do Bandolim. Quando comecei a tocar, menino, com 15 anos, a platéia começou a aplaudir a cada música que tocava. No final, o teatro inteiro aplaudindo. Eu chorei pra caramba. Foram três minutos de palmas sem parar. Quase que o Flávio não consegui prosseguir com o programa. No outro dia, eu saia no Rio de Janeiro, e parava tudo. Eu fui dar uma tarde de autógrafos numa loja no Centro do Rio, os guardas de trânsito pediram para parar, porque o tumulto na rua estava muito grande.
OP - Você foi consagrado ao som do bandolim ou do trio elétrico?
Armandinho - Bandolim. Olha que coisa engraçada. Não sei nem se interessa, mas recentemente eu fui na casa de um amigo, na Espanha. Ele tirou um bandolim da capa e me mostrou. Eu comecei a olhar bem pra ele e disse: "cara, eu tive um bandolim igualzinho a esse". Então, eu comecei a identificar algumas coisas. "Ué! Fui eu quem fez esse furo aí. Rapaz, esse bandolim era o meu, quando eu tinha 15 anos". O meu amigo ficou todo arrepiado e disse: "olha, eu comprei esse bandolim na Bahia, no final dos anos 70. Era um bandolim que tinha sido roubado". Eu liguei pro meu irmão, que tomava conta dos meus instrumentos antigos. Eu perguntei: "Garoto, o que é que houve com aquele meu bandolim?". Ele disse: "Foi roubado". E ai falei: "Acabei de achá-lo aqui em Madri". Esse foi o mesmo bandolim que eu toquei no dia do programa A Grande Chance.
OP - Você parece ter um relacionamento afetivo muito grande com o bandolim.
Armandinho - Por qualquer instrumento meu. Até já me perguntaram qual o instrumento que eu gosto mais: o bandolim ou a guitarra baiana? Eu respondo: "Você tem filhos? Já lhe perguntaram qual deles você mais gosta?". Para mim, é a mesma coisa.
OP - Você é uma figura emblemática do Carnaval baiano, uma referência graças à criação do Trio Armandinho, Dodô e Osmar, criadores do trio elétrico. Você poderia nos dar um testemunho de como surgiu esse que é um dos símbolos do Carnaval brasileiro: o trio elétrico?
Armandinho - O trio elétrico surgiu porque Dodô e Osmar criaram um instrumento altíssimo e massivo, a guitarra baiana. Essa foi a razão, porque onde eles tocavam, sempre atraiam uma multidão, por causa do som alto. Eles viram uma orquestra de frevo tocando na rua, viram que o frevo agitava e resolveram colocar aqueles instrumentos em cima de um carrinho e sair tocando. Tanto o som como aqueles 50 metais da orquestra de frevo poderiam funcionar bem só com a ajuda da boca de alto-falantes. Foi engraçado, porque, em 1959, eles foram levados, a convite, para tocar no Carnaval de Pernambuco. Como era um conjunto de frevo, eles misturaram com as orquestras de frevo existentes pro concurso da prefeitura. Quando eles chegaram lá na sede, onde todos se concentravam para sair tocando, o pessoal das outras orquestras dava risadas deles. "Vocês com esses cavaquinho e violão vão competir mesmo com esses 150 sopros tocando?". Eles diziam: "Mas a gente liga aqui no carro de som". Mostraram o trio e eles continuavam a dar risadas. Pois Dodô e Osmar saíram com o trio e arrastaram uma multidão, em Recife. E o resultado disso foi o primeiro lugar no concurso.
OP - Sobre essa historia, temos a idéia de que o Carnaval de Salvador surgiu inicialmente sob influência do frevo de Recife. Mas hoje fazem questão de separar o axé de Salvador do frevo de Pernambuco. Uma coisa que nasceu unida e hoje não se permite influência entre os carnavais da Bahia, de Pernambuco, do Rio de Janeiro. Como você ver isso?
Armandinho - Cada um tem a sua característica. Do Rio, é aquele Carnaval que já fechou mesmo. Aquela coisa de camarote e tal. O de Pernambuco é o mais autêntico, porque é um Carnaval que resgata mesmo os ritmos pernambucanos, a sua história. Até mesmo por uma imposição e foi muito bom, pois concentrou a atenção do Carnaval na cultura deles, na música deles que é riquíssima, com o Maracatu, o frevo, o Bloco do Batata. Sem dúvida, o mais criativo, porque o da Bahia, com essa mistura toda, o trio elétrico virou um carro de som e luz, e fez do Carnaval da Bahia um grande festival. Esse negócio de bloco, de vender abadá, de ganhar dinheiro em cima disso, mudou o rumo musical e cultural. Perdemos muito em função da mídia, de vender o abadá com o artista do momento. E isso fez do trio elétrico um palco de tudo. Descaracterizou musicalmente. Ao mesmo tempo, essa atenção pelas coisas de mídia, que não são necessariamente carnavalescas, muito menos manifestações baianas, acabaram enfraquecendo as instituições mais autênticas, como os blocos afros, Gandhi, Olodum, Ilêaiê. O Olodum ainda sobrevive internacionalmente, mas os outros blocos só sobrevivem daquele momento ali, do Carnaval. A atenção do patrocínio é toda desviada para o que esta na mídia, para o que esta no camarote.
OP - Então, o Carnaval da Bahia virou uma vitrine de celebridades. Algo distante do espírito do verdadeiro Carnaval?
Armandinho - O Carnaval da Bahia mistura, hoje em dia, o que acontece com o Carnaval do Rio de Janeiro, com seus camarotes e mídia. Coisa somente pra televisão. Porque aquele programinha que vai ao ar nacionalmente não tem aquele caráter de reportagem, de tudo o que realmente acontece no Carnaval, principalmente esse lado dos afros, dos blocos da cidade, das manifestações dos guetos da cidade. Eu vejo isso como muito ruim, e não sei como isso vai acabar. Mas de qualquer forma é uma grande festa, porque o trio elétrico é um fenômeno. E isso é nosso grande orgulho de ver, pois, mesmo diante dessa mudança, o trio ainda é toda a razão de ser do carnaval.
OP - E por isso você continua fazendo o Carnaval da Bahia. No entanto, há cantores, se não me engano o próprio Moraes Moreira, que não fazem mais o Carnaval da Bahia devido a esse desvio. Mas você continua lá...
Armandinho - Continuo porque é a minha cachaça. Eu tenho uma história muito forte, de vida, em subir naquele palco, naquele momento e tocar, mesmo vendo que a atenção esta muito desviada pela mídia, perdendo o sentido da alegria do Carnaval... Ou seja, está no Faustão, no Gugu, o ano todo, tem de estar no trio elétrico. Gente que é contratada somente para neguinho comprar abadá. Hoje em dia o povo já esta habituado a perguntar: "Pô! Quem são as atrações do teu trio?". Poxa! A gente mantém a nossa programação. Não somos um programinha de televisão que sai alheio. Nos mantemos a história. Nos temos uma escola tanto dentro como fora do trio.
OP - Você tem levado muito dessa história, o trio elétrico, para fora do país, para os quatro cantos do mundo. Eu queria saber se você acredita que essa forma de cantar e brincar bem brasileira pode se tornar universal.
Armandinho - Essa música que a gente faz em cima do trio elétrico com a guitarra baiana tem uma relação com a guitarra do rock como se fossem irmãs. E eu vejo em todos os lugares que toco a galera do rock, os jovens. E todos se identificam. A guitarra baiana é pop, é atual.
OP - Mas a forma que esse som tem de arrastar uma multidão no Brasil, teria o mesmo efeito, por exemplo, no Japão, na Europa, nos Estados Unidos?
Armandinho - Isso não é de agora não. Toda vez que a gente fez trio elétrico fora do Brasil foi sempre uma situação bem atrativa. Em várias condições. A gente fez na Itália, num trio que montaram muito mal feito, que teve de ficar parado senão caía a estrutura, e juntamos 100 mil pessoas, em 1983. Mesmo sem poder andar atraiu todo mundo e parou Roma inteira. Fizemos em Toulouse, em 1985 e 86, e arrastamos uma multidão, num Carnaval que tinha a tradição de escolas de samba, que era o grande sucesso. Vinham até 80 integrantes de escolas do Rio para Toulouse. Aí eles contrataram a gente. Dez pessoas apenas. E arrastamos 100 mil pessoas, no Carnaval do Coq (antigo Carnaval de rua de Toulouse, proibido atualmente depois da criação da lei do silêncio). Repetimos a dose, no dia da música (Fête de la Musique, festa tradicional francesa que ocorre todos os anos, no dia 21 de junho), dia em que comemoraram a vitória da França sobre o Brasil, na Copa de 1986. Na década de 90, fizemos o Sul da França, sem propaganda forte, somente distribuindo panfletos na beira da praia. De repente, tinha 15 a 20 mil pessoas atrás do trio elétrico. E eu vejo essas apresentações como um grande fenômeno. Eu dizia: "Olha, não é somente na Bahia que o povo vai atrás do trio elétrico. Aqui também".
OP - Em algumas declarações suas, você demonstrou optar sempre pela música instrumental do que pela presença da voz, do cantor. Isso é uma falsa impressão ou você acredita que a música é algo essencialmente instrumental?
Armandinho - Não. A voz é a comunicação maior. Eu tenho consideração pela música instrumental, mas a música cantada é a que tem esse poder de comunicação maior. Eu tenho muito esse lado de falar com meu instrumento, de querer ser popular, de buscar a animação. Na minha banda, do trio Armandinho, Dodô e Osmar, a característica forte é a guitarra baiana, uma exclusividade nossa. Ela é, na verdade, a vedete, mesmo tendo um repertório de músicas cantadas.
OP - Bem, são mais de 40 anos dedicados à música. Como você analisa a sua carreira e como se coloca dentro do atual cenário musical brasileiro?
Armandinho - Sinceramente, eu me considero como uma exclusividade, pelo instrumento e toda essa forma de tocar, que não é a forma que a mídia elege no momento. Eu tenho visto que tudo que vem, que não seja de uma origem brasilera, do regional, do chorinho, do baião, tem uma tendência a não ser considerado como MPB, porque não tem essa referência de fora construída pela mídia. O Brasil tem muita aquela coisa de desconsiderar o santo de casa. Algo que acontece naturalmente pelos interesses dos empresários, dos produtores, de colocar tudo dentro de um padrão internacional. E aí acaba sendo sempre um reflexo de tudo que acontece fora. O Brasil ainda tem muito de descobrir o que tem dentro, né? Eu falo isso muito pra quem está começando a tocar, para ter como referência a nossa música, os nossos instrumentistas. Aprender com o que vem de fora, mas não torná-la a referência fundamental. Até porque se ele for pra fora do Brasil, ele não dirá muita coisa. Ele será somente o reflexo daquilo que todos aqui já conhecem. E a música brasileira não. Você não encontra aqui fora quem faça igual. Você vai ser sempre a referência. Você vai ter mais valor que repetindo o que outros já fazem e são top.
OP - De qualquer forma, você acredita que a sua carreira é vitoriosa, por ter se mantido dentro das origens da musica brasileira?
Armandinho - Não só a musica como o instrumento. A minha guitarra continua aí, ela é atual, e acredito que muita gente ainda vai se interessar pela guitarra baianese. (risos)
EMais
- Esta entrevista com Armandinho aconteceu em dezembro na casa da irmã dele, Rita, que mora numa espécie de cortiço, num prédio antigo no centro histórico de Toulouse, cidade onde ela mora desde a década de 80, quando chegou a promover o carnaval brasileiro na região do Sul da França.
- Armandinho estava realizando uma turnê pela França, durante o mês de novembro, e foi a Toulouse para fazer uma participação especial numa apresentação de músicos do mundo, no Zenith, considerado o grande palco de espetáculos da cidade. Durante a semana em que passou pela cidade, ele topou fazer a entrevista.
- Após a entrevista, Armandinho dedicou um tempo para ensinar um pouco a arte do bandolim para uma jovem música francesa, Julie Delabarre, que faz parte da Associação Comunic'arte, que divulga a música brasileira em Toulouse. Sua paixão em ensinar a arte do bandolim é tanta que se empolgou ao ficar ensinando e se esqueceu do tempo e, por pouco, não perde a hora de uma outra entrevista que tinha numa radio local.
- Os últimos trabalhos de Armandinho foram os CDs Retocando o Choro Ao Vivo (2005), que chegou a receber uma indicação ao Grammy Latino, e A Voz do Bandolim (2001), lançados pela Biscoito Fino. Em conversa depois da entrevista, Armandinho disse que, neste ano, deve estar lançando seu primeiro DVD a partir de um show ao vivo. A previsão é de que o novo trabalho esteja no mercado ainda neste primeiro semestre.