Pedro Salgueiro
Especial para O POVO
Ao contar uma história de solidariedade, o escritor Pedro Salgueiro abre o questionamento: se uma pessoa de boa vontade consegue salvar uma vida, o que não fariam os poderes estaduais, municipais e federais se tivessem um mínimo de boa vontade?
28/01/2008 01:57

Faz uns dez anos que perambula pelas ruas de nossa sonsa loirinha descabelada pelo sol um negro alto, cabelos fartos, sujo, roupas em farrapos, às vezes vestida sobre outra já em tiras. Distingue-se pelo porte altivo, cabeça levantada e pelo quase silêncio que o acompanha: poucos escutam as palavras que pronuncia baixinho, não raro esbraveja com alguém imaginário ou faz estranhos cálculos matemáticos.
Não pede esmola, mas lhe dão dinheiro, roupa e comida; quase sempre redistribui ou deposita as cédulas amassadas e rabiscadas com números em baixo de cones, desses usados em sinalizações de trânsito, e de papelões de outros moradores de rua, nada guarda para o dia seguinte. Come pouquíssimo e toma café e fuma em abundância (que lhe dão sem ele ao menos pedir).
De dia freqüenta os logradouros no centro: Praça Murilo Borges, rua Assunção, praça Coração de Jesus e uma calçada de estacionamento na Duque de Caxias, onde passa a maior parte da tarde acocorado em silêncio; de noitinha vai em direção à Praia de Iracema até a avenida Aquidabã, lá fica também acocorado em uma calçada em frente a um posto de gasolina. Não se sabe onde dorme, como faz suas necessidades fisiológicas, muito menos o que pensa e balbucia em quase preces noturnas.
Cumpre há uma década o mesmo ritual de sempre, dizem que ele faz as mesmas coisas, nas mesmíssimas horas (até para atravessar as ruas é sempre em locais determinados), o exato itinerário, quer faça chuva ou sol: o mesmo porte altivo, o olhar contemplativo de superioridade e paz. Não se apressa nunca, nem altera o semblante; nem se importa se ao seu lado passa uma bela jovem (que quase sempre aperta a bolsa e desce a calçada) ou um outro morador de rua.
Já apareceu em diversos ensaios fotográficos sobre o centro da cidade e foi até personagem de crônica de Airton Monte: faz parte, definitivamente, da paisagem dessa Fortaleza de Todos os Perdidos-Anjos.
Pois bem, acho que cumpriria este seu eterno ritual de perambular pelas calçadas, de se esgueirar pelos becos, de se acocorar pelas calçadas, até o final dos tempos, não fosse a alma enorme e boa do meu colega de repartição (e ex-baixista da banda de regue Rebel Lions) Jânio Alcântara, que puxou conversa, com uma paciência de Santo, com nosso personagem: descobriu o nome de sua cidade natal - Paranapanema, São Paulo) e o nome da mãe, Jandira Aparecida da Cruz (completo e com seu nome de solteira e de casada).
O novo amigo foi a Internet pesquisar e conseguiu falar por telefone com a mãe, uma senhora forte e saudável morando no interior de São Paulo; em poucos dias se encontrava em nossa cidade a mãezona (que há dez anos não sabia o paradeiro do filho) e a irmã mais nova, Sidelça, uma bela jovem parecidíssima com o nosso herói-de-rua.Jânio não ficou por aí, conseguiu internamento e tratamento dignos para o agora ex-morador das ruas sujas de nossa meretríssima loirinha descamisada pelo sol.
Moral de nosso conto de fada: se uma pessoa de boa vontade (com a ajuda de outros anjos bons) consegue salvar uma vida, o que não fariam os poderes estaduais, municipais e federais se tivessem um mínimo de boa vontade, competência e solidariedade.
P.S.: Para não deixar o leitor curioso com o destino de Silvio Tadeu da Cruz, ele está internado, limpo e bem vestido. A família o espera para levá-lo de volta, pois sua avó de 99 anos de idade há dez anos não se cansa de perguntar toda noite por ele. Duas de suas irmãs moram na Europa, os outros vivem bem em Paranapanema (SP). A mãe diz que seu descontrole começou quando ele presenciou a morte, em acidente de automóvel, do irmão de que mais gostava, depois agravado pela dificuldade em pagar a faculdade de engenharia que cursava já no 2º ano, após ser despedido do banco em que trabalhava. Diz-me (agora sua belíssima irmã) que ele era o mais inteligente da família, também o mais vaidoso...
Pedro Salgueiro é escritr. Publicou O Peso do Morto (1995), O Espantalho (1996), Brincar com Armas (2000), Dos Valores do Inimigo (2005) e Inimigos (2007), de contos; além de Fortaleza Voadora (2007), de crônicas.
A sensação é de que ele também nos foi devolvido.
Thaís Amorim Aragão
Que notícia boaaa! se todos os dias tivessemos notícias como essa. Aquele homem sempre me incomodou,mas nãoe ra incomodo de medo...era de saber porque sempre estava ali, tão quieto,tão observador. SEmpre fiquei intrigada, mas diante de um certo receio, não sabia o que fazer! Parabén mesmo para o Jânio que teve essa atitude de "enxergar" aquele ser..de nome Sílvio! com família, irmã...um ser humano precisando somente de ajuda. Vou procurar "enxergar" outros tantos que existem pela cidade e quem sabe poder ajudar mais e verdadeiramente o próximo. Posso dizer que hoje vou dormir mais feliz e tranquila! Boa sorte ao jânio e...ao Silvio!!! Tenham um bom trabalhoooo Diana
Diana Ferreira de paiva
Parabéns para você Jânio Alcântara, que teve atitude de efetivamente melhorar a vida de um ser humano. Nosso amigo Sílvio, posso assim dizer porque faz anos que convivo com ele na rua ao lado do estacionamento onde paro meu carro (Av. Duque de Caxias com Rua Assunção), merece ser feliz. Sempre soube que o pouco que ele tinha, sempre dividia. Deus é muito bom para mim também, pois eu estava preocupado quem poderia financiar, ao Sílvio, o velho cigarro ou o suco de frutas com guaraná em pó lá do Damião (Rua Assunção) quando eu fosse transferido de local de trabalho, previsto para esses dias. A boa notícia é que a familia dele vai cuidar dele doravante. Muito obrigado meu Deus. Deus os protejam sempre, Jânio e Sílvio. Estou muito feliz, de verdade !
Romildo Carneiro Rolim
Jânio, só em saber que existe pessoas como você capaz de quebrar todos os paradigmas em função do bem-estar de alguém, já valeu a pena viver até aqui, e a você Pedro que fez chegar até nós tão bonito conto, tão valoroso, meu muito obrigada!!! Esta é uma notícia que gostaria de ver em todos os canais de comunicação onde revela a bondade humana, onde Deus se manifesta de forma violenta em nós!!!
edinalva Queiroz de moraes
Feliz e comovente com a história, sempre que passava por ele ficava imaginando em que estava pensando, e porque ele estava naquela situação. Ele nunca me pareceu uma pessoa realmente necessitada materialmente, mas sim uma pessoa perdida, desencontrada. Adorei saber do término feliz da história, e que possam existir outros Jânios salvadores. Parabéns pela matéria.
Natalia Vasconcelos Peixoto
Que notícia maravilhosa! Já me emocionei ao olhar nos olhos dele e perceber que ele era "diferente" dos outros moradores de rua. Isso foi a mais de quatro anos, fazia o mesmo trajeto no Centro, dei-lhe comida,lembro-me como se fosse hoje, um olhar distante, generoso e ao mesmo tempo sem esperança. Tive vontade de conversar com ele, mas não fiz por receio, porque já conheci um outro morador de rua e este não falava nada sobre sua familia e seu passado, ou seja, ele evitava. Já cheguei a rezar um terço e lembrar do Silvio, e oferecer a ele, pedindo a Deus e Nossa Sra. de Fátima para dar-lhe (recuperar)a dignidade. Mas Deus fez mais, devolveu-o a sua família! Parabéns Jânio Alcântara e Pedro Salgueiro.
Ana Maria Lima
Parabéns ao Jânio por mais essa iniciativa inspiradora e impregnada de humanidade. Um grande abraço. Colaço
ANTONIO COLAÇO MARTINS FILHO
Quando ouço esse tipo de histório , penso que angústia essa mãe e essa família sofrida !!!!Deus bom e generoso!Obrigada Janio , por permitir ser guiado por Deus e Nossa Senhora !Que Deus te recompense sempre !!! Marcia Henz
marcia marcondes de mello henz
contos fantásticos. isso que uma cidade viva nos oferece. mesmo sendo implacável a moribundice de muito de seus filhos, fortaleza se revigora a cada manhã: surpreende e gera saber. linda escrita, pedro. linda história, jânio. dona jandira, sidelça e a vovó não serão mais as mesmas depois da intervenção desse baixista na vida da família de sílvo. daí, só me resta citar chico science: "um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar".
rodrigo de oliveira
Meu recadinho vai para o Jânio. Pra mim, a estrela dessa história é você, pois pessoas alienadas perambulando pelas ruas de Fortaleza é só o que se vê. Mas, alguém parar, conversar e ajudar, só conheço o Jânio. Olha, dar-lhe os parabéns pra mim é muito pouco. O que eu quero é agradecer a Deus por ter criando um Jânio, que faz a gente acreditar nos seres humanos, que realmente merecem a designação de humano. Você atualmente é a pessoa que mais admiro na face da Terra. Queria lhe dar um abraço, mas dei um aperto de mão, para simbolizar minha gratidão. Abs.
Poliana costa lima cabral
Ímpar. Atraia olhares. Sua aparência distinta despertava curiosidade. Ele não era como os outros, não era apenas mais um. O moço fascinava: O porte altivo, as dreads na cabeça, roupas negras. O rosto marcante porém sereno... Sua singularidade era gritante. E agora descubro seu nome, Silvio Tadeu, e fico muito feliz em saber que a vida lhe sorri novamente. Que, graças a uma pessoa sensata, ele terá uma nova oportunidade ao lado de seus queridos... Toda sorte do mundo pro moço da Duque de Caxias.
Pollyana Ferraz
DEUS nos envia anjos todos os dias e o anjo que libertou este homem apareceu e o libertou. Ha como seria bom se todos nós libertassemos o anjo que temos dentro de nós
Fernando
Uma notícia interessante, um pouco triste também por abordar as dificuldades que essa pessoa passou em sua vida e a angústia que causou aos familiares também. Isso mostra o contraste que existe em nosso Brasil. Mas está de parabéns o Sr. Jânio Alcântara pelo trabalho. Adm. Francisco de Assis
Adm. Francisco de Assis da Silva
Bem, sei que esse meu depô nem será lido, então não vou me estender: "Parabéns... ele deixará muita coisa aqui, mas ganhou a sua família(se é que se ganha..apenas complementa).." >>Putz..fiquei emocionado!
Plácido Lima Ferreira Sobrinho
Pois é, Histórias como essa muito enobrece o ser humano tão questionado pela indiferença e falta de sensibilidade para com a mazelas da nossa gente. Enfim, nem tudo está perdido. Enquanto uns exterminam moradores de rua noutros grandes centros, enquanto jovens animais queimam o índio em pelna capital federal, a gente tem a satisfação de ter o Jânio Alcântara responsável por atitude de elevado altruísmo. A sensibilidade do Jânio é própria do poeta, do músico, do artista. Como diria o Maciel Melo, músico pernambuano, "isso vale um abraço, companheiro". Geraldo Sales/Juazeiro do Norte-Ce.
geraldo alves de sales
Pra mim, a estrela dessa história é o Jãnio. Alienados pelas ruas de Fortaleza "Bela" é só o que se vê. Mas, parar, conversar e efetivamente ajudar, só conheço o Jãnio.Obrigada, Senhor Jesus, por ter criado um Jânio, que faz com que agente creia nos seres humanos, que realmente merecem ser designados de humano. Obrigada Jãnio por vc exitir. Poliana Cabral
Poliana costa lima cabral
Diz um provérbio chinês que "Um homem cava o poço, mil famílias tomam a água" Resolva ser aquele que entende que uma pessoa pode fazer a diferença. Cave um poço e permita que mil famílias bebam livrimente sua água" A ação do músico Jânio Alcântara é digna de haja uma mudança desse provérbio e que nele conste o seu nome. Posso dizer que hoje, para todas as pessoas de consciência e solidariedade que o Jánio é o cara mais invejável da terra. O poço que cavou como fala o provérbio, possibitou que todos aqueles que conheciam o andarilho sentissem-se mais felizes no dia de hoje. Receba um abraço e parabéns desse leitor.
ROBERTO DE SOUSA REBOUÇAS
Ótimo exemplo de ação! Mas, pra que este tipo de frase: "... pelas ruas de nossa sonsa loirinha descabelada pelo sol"??
Marcos AL Pereira
Emocionei-me em ler essa matéria, quantas e quantas vezes não passei do lado dele e senti vontade de falar e não falei por medo, sinto-me muito feliz agora em saber que este homem esta bem e com a família, que esse anjo que o ajudou possa ser muito feliz que Deus o abençõe......
aline gomes
Compartilho, com Diana Ferreira, minha felicidade, ao saber do bom destino que tomou (graças à atitude de Jânio Alcântara) aquele homem que de fato já fazia parte (sombria) da nossa cidade. Também concordo que devemos abrir mais nossos corações para poder enxergar de fato as tantas outras pessoas que existem pelas ruas, carentes de uma ajuda humanitária. Um minuto ou dois de nosso "precioso tempo" pode identificar uma pessoa com problemas como o senhor Silvio Tadeu e quem sabe trazer de volta a felicidade de uma família inteira. Por certo, uma moeda acalenta um estômago vazio, mas um pouquinho de atenção pode salvar uma vida.
Francisco Alexandre Vasconcelos Diogo de Siqueira
Parabéns, meus sinceros paranbéns, Janio. Soube dessa história somente hoje, 12.02.2008, através de um email de um amigo. Inclusive, eu e eesse amigo há uns dez anos quando estudávamos no Positivest demos alguns trocados a esse personagem que por sua vez não aceitou. (?)Até hoje tenho guardado na memória.
Fabiano Araújo
Fiquei bastante satisfeita por tudo,mesmo sentindo muita saúdade quando olho e vejo o vazio que ficou aquele espaço.O espaço de minha calçada que ele escolheu para se fixar.Ele é muito educado,e de fino trato.Muitas vezes 0 tirei das garras dessa feras feridas que aqui vivem.Esses menores delinquentes,que não são mais crianças,e sim menores capazes de qualqer coisa.Adorava um pratinho de sopa,piscava o olho,querendo dizer que estava muito bom,se eu fosse sair quando chegasse encontrava os pratos no lugarzinho indicado.Que saudade...
isabelita gadelha de aragao
Nossa, quando você ler uma notícia dessa percebe o quanto nós somos alheios às pessoas, o quanto somos individualistas. Me senti mal comigo mesma, pois sempre via o Sílvio na Duque de Caxias e, algumas vezes, na praça do Banco do Nordeste. Fazia alguns comentários com alguns amigos sobre ele, mas nunca tomei a iniciativa de fazer alguma coisa, nem por ele e nem por nenhum outro mendigo que já vi na rua (acho que dar esmola não significa fazer alguma coisa, pois não muda a trajetória dessas pessoas). Imaginem quantas pessoas estão nessa situação. Onde foi parar o nosso lado humanitário? Por que nos sensibilizamos tão pouco com essas pessoas, que são gente como nós, seres humanos? Acho que dizer que se sente mal em ver pessoas passando por essas necessidades, como eu sempre me sinto, não é se sensibilizar. Se sensibilizar é fazer o que esse Jânio fez, ele se preoculpou com o Silvio e foi atrás de ajudá-lo, investigou a vida do Sílvio, ligou para a mãe...Pena que existem poucas pessoas como ele. Essa história é bonita porque teve um final feliz, mas qtas outras histórias existem como essa e que não terão o mesmo fim? Acho que é bom fazermos uma reflexão sobre esse assunto.
yaskara cirino de queiroz