Vida & Arte
1928
Notícias de "sabbado"
Na Fortaleza de 100 mil moradores, o baile das caridosas para ajudar criancinhas, filme sem fala e piano de fundo no Polytheama, novos casais e aniversariantes do dia, jogo do Fortaleza e Maguary
Cláudio Ribeiro
da Redação
07 Jan 2008 - 00h47min
O Gazeta de Notícias também chamou para o baile naquele "sabbado". Era a mesma data da estréia do O POVO, mas não saiu nada nas 16 páginas do novato. Veio com o dobro de folhas dos outros dois, pelo mesmo preço: 200 réis. "Ano I, nº 1" As tais senhoras e senhorinhas não conheciam ainda o mais novo vespertino de Fortaleza, não o procuraram para dar a notícia. Ainda naquela noite, a "Troupe do Pequeno Edison", de "pequenos artistas cearenses que tantos sucessos alcançaram no sul do paiz", apresentou-se no Theatro José de Alencar.
No Majestic, em cartaz, "Que Vida Apertada!, comedia ultra sensacional com Reginald Denny, em 7 actos" e "O Capitão Kidd, com Eddie Polo (reprise)". Cinema mudo com música de piano ao fundo, ao vivo, para a platéia entretida. No Polytheama, na praça do Ferreira, onde no local 30 anos depois surgiria o Cine São Luiz, a fita "Amores da Primavera - 7 actos belissimos com Clara Bow e Harrison Ford". Seu Samuel Tabosa, de 93 anos hoje, freqüentou o Polytheama. Ele puxa da memória: "Lá, quem tocava o piano era a dona Lica". Seu Tabosa depois virou o funcionário com mais tempo de serviço no grupo Luiz Severiano Ribeiro - onde começou, aos 14 anos, em 1º de outubro de 1929, como pintor de cartazes.
A mesma agenda de cinema saiu no primeiro O POVO. Uma edição inaugural cheia de anúncios: Caixa Forte, Agua Tonica de Quinino, Curso de Inglez de Mozart Solon, Adolpho Barroso & Cia, Pólvora Elephante, Fabrica Nacional de Mosaicos, entre muitos mais. Empresas sediadas pela Major Facundo, Travessa das Trincheiras, General Sampaio, Barão do Rio Branco, todas pelo Centro de Fortaleza. Onde as conversas, as notícias e o dinheiro circulavam.
Naquele sábado foram casantes: Antônio Ferreira da Silva e Maria Ferreira da Conceição, Manoel Paulino Soares e Raymunda Gomes da Silva, Anthenor Valle de Lima e Julieta Nogueira Ramos. Isso virava notícia. Foi o aniversário do "coronel Onulpho Câmara, vulto de destaque no meio de nossa sociedade", também "do pequeno Ary Assumpção, filhinho do sr. José Assumpção", e do "coronel Pedro Virgolino, opulento siringaleiro no território do Acre". Esses e mais outras foram notas de jornal na data.
De contraponto, o Judiciário local lamentava a morte do desembargador Luiz Gonzaga Gomes da Silva (que dá nome hoje a avenida na Cidade dos Funcionários), que teve enterro prestigiado no dia anterior, no cemitério São João Batista. No mesmo dia, o Fortaleza empatara com o Maguary em jogo beneficente (2x2), gols de Juracy e Humberto (F) e Barbosa e Waldir (M). Deu n´O POVO. Tinha marafonas que roubavam clientes durante os programas e policiais de plantão que faziam a ronda.
Dia 7 de janeiro de 1928 era início da semana de pagamento ao funcionalismo estadual. Servidores que atendiam ao presidente da província do Ceará, José Moreira da Rocha, com quem Demócrito Rocha mantinha uma rixa ferrenha. "Moreirinha" foi uma das principais motivações para DR finalmente lançar seu próprio jornal - até então escrevia no O Ceará. Às 17 horas do dia 1º de junho de 1927, na rua Major Facundo (onde hoje está a loja Bicho), 12 homens da polícia de Moreira deram uma sova no jornalista em praça pública. Chutes, murros e o que doesse. Apontaram revólveres para os que viram tudo e quiseram socorrê-lo. Depois foram bater foto para levar a prova ao chefe.
A injustiça da surra contra Demócrito Rocha virou bandeira na cidade contra o presidente. O jornal pode ter nascido dali, da cabeça machucada seis meses antes. Os demais jornais locais reconheceram logo de início a importância do O POVO. Havia também O Unitário, O Nordeste. A Gazeta e o Correio informaram seus leitores sobre o lançamento da publicação.
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