18/12/2007 00:13
Fred 04 empunha seu cavaquinho sobre o palco. A visão é a de um sambista de barbicha e óculos de armação preta grossa. O som agudo das cordas do instrumento abre a noite e não deixa dúvida: Mundo Livre S.A. tem samba nas veias. Samba e outros tantos ritmos amalgamados, deglutidos, que, vez por outra, aparecem em estado bruto, como a bateria roqueira pesada de Bactéria. Não por acaso, Fred alterna entre o cavaquinho e a guitarra durante toda apresentação.
Com um repertório baseado no EP Bebadogroove vol. 1 (2005), a banda fez ótimo show no último sábado, na Praça do Ferreira. Promovido pela Prefeitura, o show da banda pernambucana transitou ainda por outros CDs como o de estréia, Samba Esquema Noise (1994).
Encerrando a II Conferência Municipal de Cultural, o grupo fez festa para o que começa a se consolidar com um dos mecanismos de gestão participativa da política pública para a Cultura. O próprio Fred 04, que fez parte do Conselho Municipal de Cultura de Recife, frisou a importância do show em praça pública.
Selo próprio
Desde Bebadogroove, a banda segue sua carreira de forma independente. O CD, lançado pelo próprio selo da banda, Óia Records, marca um decisão do Mundo Livre de seguir com seus próprios passos, enfrentando as dificuldades econômicas da escolha, mas colhendo seus frutos, como a desejada coerência com seu discurso político impregnado, desde o início, em suas letras.
A música do Mundo Livre S.A. ganhou, na noite, incremento. A surpresa anunciada, mas não revelada, no início do show, não deixou por menos. O francês Mano Chao, recém-chegado em Fortaleza, subiu ao palco para cantar duas músicas com o grupo. A primeira, uma referência mútua dos artistas em palco: Guns of Brixton, da banda punk inglesa The Clash. A outra, Minha Galera, do próprio Mano Chao, já havia sido gravado pelo Mundo Livre S.A. em seu CD Por pouco (2000). A performance conjunta foi um dos pontos altos da noite, em um diálogo entrosado entre propostas e posturas semelhantes.
Depois do show, a impressão era de que a antena erguida nos mangues recifenses no começo da década de 90 ainda capta, original, as ondas magnéticas da época, em suas dimensões estéticas e éticas, políticas. E o Mundo Livre S.A. segue como uma de suas principais referências. (Pedro Rocha)