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Lina Cavalcante
especial para O POVO

A banda Mombojó volta a Fortaleza após a morte de um de seus integrantes. Os pernambucanos fazem show hoje na Órbita


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14/12/2007 00:23

A Mombojó faz show na abertura do 1º Campeonato Brasileiro de Surf Universitário (Divulgação)
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A Mombojó faz show na abertura do 1º Campeonato Brasileiro de Surf Universitário (Divulgação)

Em maio desse ano, os integrantes da banda pernambucana Mombojó chegaram na casa de show em que iam se apresentar, em São Paulo, com um único assunto. Estavam encantados com a apresentação maravilhosa que tinham feito em Fortaleza. Hoje eles voltam a se apresentar na cidade, mas muita coisa mudou desde o tão falado show. A ausência de O Rafa (músico e parte importante da banda que faleceu em junho desse ano) e a volta para a cena independente, depois de ter gravado um CD pela Trama, marcam uma fase de resgate, transformação e solidificação de algumas importantes características da banda. Um momento delicado para os jorvens que lançaram o primeiro disco - Nada de Novo - há quatro anos e conquistaram público e crítica com um som que prima pelas múltiplas referências e por misturas - por vezes bruscas - de ritmos. " Eu acho que momentos difíceis trazem você mais para a realidade da vida", sintetiza o vocalista da banda, Felipe S. Em entrevista exclusiva ao O POVO, ele fala sobre este momento, os projetos e, claro, sua relação com o público cearense.


O POVO - Quero lembrar uma cena. Dia 10 de maio, show da Mombojó no Studio SP, em São Paulo. Vocês chegam mais cedo e entre conversas com amigos não pararam de comentar que tinham feito um maravilhoso show em Fortaleza cinco dias antes (na casa de show Hey Ho!). Vocês têm um público muito forte em Fortaleza e pouco contato direto com a cidade, é isso?
Felipe S. - É. De fato temos muito pouco contato direto com a cidade, mas desde o primeiro show temos uma impressão muito boa do público cearense, pois ele tem uma energia que contagia. Não sei colocar em palavras, é uma coisa meio inexplicável. Mas são animados, cantam, gritam entre as músicas, estas coisas.

OP - Vocês conhecem, por exemplo, alguma banda cearense?
Felipe S. - Eu troco muita figurinha com a Layla, da Quarto de Cinzas, e acho a banda bem interessante. A gente se conheceu quando tocou junto no primeiro show que fizemos aí, no Dragão do Mar, depois disso encontrei com ela na viagem de volta (Fortaleza - Recife) do segundo show - se não me engano ela estava indo pro Abril Pro Rock. Ficamos amigos e estamos até pensando em fazer uma música juntos.

OP - O primeiro show na cidade foi em 2005, com o repertório de Nada de Novo, o segundo foi o tão bem falado show deste ano, já com repertório do segundo CD, Homem-Espuma. Agora, infelizmente, terá ausência do O Rafa (falecido em junho desse ano). Sei que o assunto ainda é difícil, mas como a banda (e o show) lida com a ausência do O Rafa?
Felipe S. - Depois do que rolou com O Rafa a gente ficou quatro meses sem tocar e pensamos bastante. Sabíamos que se ele pudesse falar com a banda, ia pedir para que não parássemos e, por outro lado, a gente jamais colocaria outra pessoa no lugar dele. Resolvemos então testar como seria, mas isso fora de Recife porque era realmente muito difícil tocar lá sem ele. Aliás, faz nove meses que não tocamos na nossa cidade. As mudanças foram basicamente as seguintes: não tem mais violão, cavaquinho e nem flauta na banda. Campello (Marcelo Campello era violonista da Mombojó) agora toca guitarra, além de trompete e escaleta - antes já tocados. Ele também passou se apresentar de pé (quem já foi ao show vai lembrar que Marcelo Campello ficava sentado mais ao fundo do palco em companhia de O Rafa), está falante, dançante. Enfim, a gente reduziu muito os instrumentos e o lado bom disso foi a facilidade porque era um trabalhão aquele monte de coisa. Testamos a nova fase numa turnê em São Paulo e foi muito difícil porque a gente tava há um tempo sem tocar, sem disco. Tanto que pegamos a grana dos próprios shows e usamos para fazer mais shows, tudo isso numa tentativa de recuperar os ânimos. Foi uma turnê "reanimation".

OP - Já se passaram quatro anos desde o primeiro trabalho, a banda conheceu muita gente, fez viagens, trocou experiências, ganhou prêmios. Hoje o que a Mombojó tem de diferente daqueles mombojovens que iam ao show com a roupa do trajeto, não se preparavam para entrevistas e descreviam seu processo criativo como lombração espontânea?
Felipe S. - Eu acho que a quantidade de informação que passou pela gente foi muito grande, e só agora estamos absorvendo melhor. Os prêmios, as pessoas, não são coisas que se compreende de uma vez. Nesse momento que a banda está completamente independente (o contrato com a gravadora Trama acabou mês passado) e numa situação mais difícil, parece que o cérebro funciona melhor. Nossa criação continua sendo espontânea, mas é também um pouco pensada porque a gente não gosta de se repetir, então, sempre pesquisamos o que já fizemos antes de criar algo.

OP - Ouvi dos fãs de vocês que os últimos shows foram mais programados, mais certinhos, digamos assim, e um deles chegou a questionar, "Será que eles pararam de se divertir?".
Felipe S. - Será? Acho que não. Uma coisa que a gente sempre gostou de fazer é ter o show amarradinho, era assim no começo, depois demos uma relaxada. Mas é o seguinte, se não for dessa forma fica chato, principalmente para mim, que canto. Acaba a música, eu não sei o que falar, fica aquele silêncio e acho que é algo desnecessário para a própria apresentação. Ensaiar é o caminho.

OP - Ainda escutam de Stereolab a Chico Buarque? O que você tem ouvido com mais freqüência estes dias?
Felipe S. - Acho que a coisa continua bem variada porque a gente pesquisa bastante. Eu tenho ouvido muito Burt Bacharach, um som instrumental bem alegre.

OP - Me fala um pouco do próximo CD. Ele já está sendo feito?
Felipe S. - Começaremos a primeira etapa em janeiro. Já temos muitas músicas, mas nenhuma ensaiada. Posso adiantar que o nosso trabalho vai mostrar muito do que temos observado do momento musical que vivemos, desde o nosso começo - que coincidiu com a crise das grandes gravadoras . Percebi muito isso quando fui fazer um show em Belém. Nós tivemos uma série de imprevistos e só tocamos às 4 da manhã, mesmo assim o show estava lotado e todo mundo sabia as músicas. Isso porque não tem CD nosso em lojas de lá. Então, no próximo trabalho, queremos registrar estes acontecimentos. Foi uma coisa que a gente não escolheu, no começo sim, com o copyleft (a banda disponibiliza gratuitamente suas músicas na internet desde o primeiro trabalho), mas o resto foi natural. Vamos mostrar tudo isso, pois queremos amarrar este lado conceitual da banda.

OP - Antes você ironizava esse termo "conceitual"...
Felipe S. - Conceitual que digo é mostrar isso que foi acontecendo naturalmente e se incorporando à banda. A gente quer lançar um DVD em formato de documentário. Montar uma equipe para retratar sete shows de lançamento do próximo disco, cada um com um tema. Belém e Porto Alegre, por exemplo, casos interessantes. Belém é excluída e ao mesmo tempo muito ligada - já transmitiram show da Mombojó em Brasília ao vivo pela Radio Padre Anchieta - e Porto Alegre tem uma cena independente forte e que se sustenta na própria cidade.

OP - Então, o próximo trabalho vai ser um resgate da proposta inicial de vocês? Em 2003, ouvi dizer que enquanto o público esperava um novo CD vocês poderiam vir com uma peça de teatro. Para ano que vem temos um disco independente, um documentário, a afirmação de um conceito...
Felipe S. - É, não deixa de ser similar. Vamos mostrar que a distribuição independente funciona. Queremos fazer um CD barato, deve ser vendido por R$5,00 e comercializado apenas em shows. O dinheiro para isso vamos tentar por meio de editais de cultura.

OP - O público cearense vai ouvir alguma música inédita?
Felipe S. - Infelizmente não, como te falei ainda não ensaiamos nenhuma.


SERVIÇO

Festa de Abertura do 1º Campeonato Brasileiro de Surf Universitário, com Mombojó (PE) e Radio Ilusión. Às 21h, na boite Órbita (ao lado do Dragão doMar). Ingressos: R$15 + 1 Kg de alimento não-perecível (antecipados) e R$20 + 1 Kg de alimento não-perecível (porta) - Os alimentos devem ser entregues somente na portaria da Órbita. Informações: 3453 1421.


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