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PONTO DE VISTA

Os Sertões em meu estômago

Pedro Rocha
20 Nov 2007 - 00h45min

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Ao final do primeiro dia de espetáculo, as pessoas me perguntavam: "Gostou?", "E aí?", "O que achou?". Eu respondia laconicamente que sim e me esquivava de um debate prolongado. A peça Os Sertões gelou-me o estômago em vários momentos e, nos dois dias em que assisti ao espetáculo (A Terra e O Homem 1), saí meio perturbado. Sabia mais ou menos do que se tratava a proposta de Zé Celso, mas não tinha a noção da vivenciá-la.

Ter que desatravancar um pouco meu corpo quieto em cenas compartilhadas com o elenco do Teatro Oficina Uzyna Uzona me fez pensar nas dimensões da obra de arte que experimentava. O desconforto em certas situações fizeram da minha "fruição" um momento em que fui posto em tensão comigo mesmo. Ver um homem ter, contra sua vontade, suas calças arreadas, seu pênis exposto em público e ser marcado simbolicamente como gado, fez-me respirar fundo e pensar nos limites éticos da arte e sua relação com o público. No caso d'Os Sertões, uma relação ambígua de congregação e enfrentamento que se reverberava em cada um de forma diferente, seja na participação intensa, seja no incômodo explícito, ou mesmo numa fronteira indecisa entre estas duas posições, como foi minha postura.

Zé Celso já havia dito: "O melhor do teatro é a pessoa pensar que poderia acontecer com ela mesma". Muito mais que na história contata por Euclides da Cunha, pensei na postura existencial que a arte ali encenada exigia de seus atores ou mesmo de seus espectadores. Os Sertões encarna uma arte que tenta não ser mais apartada de outras dimensões do ser humano. Sacraliza e dessacraliza a toda hora o espetáculo. Em mim, um pedido pelo humano demasiadamente humano. Aos poucos, timidamente antropofágico, vou deglutindo.

Pedro Rocha é repórter do Núcleo de Cultura e Entretenimento

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