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EXPOSIÇÃO

Diálogo poético

A artista plástica Maíra Ortins homenageia o poeta Manuel Bandeira, na exposição a vida inteira que podia ter sido e que não foi, que abre hoje, às 19h, no Museu de Arte Contemporânea, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura

Camila Vieira
da Redação

13 Nov 2007 - 00h36min

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(Divulgação)
Assim Manuel Bandeira queria seu último poema. "Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais". Assim a artista plástica Maíra Ortins constrói sua arte. Pelo que há de extraordinário na simplicidade da poesia de Bandeira. Dois pernambucanos, uma só busca. A partir de hoje, às 19h, o público poderá contemplar os desenhos-gravuras de Maíra em homenagem ao poeta, na exposição A vida inteira que podia ter sido e que não foi, no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. O trabalho é resultado de pesquisa e análise do universo poético de Bandeira, que Maíra aprofundou como estudante do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC).

A idéia inicial era elaborar um projeto acadêmico, mas Ortins decidiu dialogar com a obra do poeta por meio de seus trabalhos artísticos. "Quase intuitivamente comecei a desenhar num caderninho um traço, depois outro. Queria pôr uma cor e escolhi o vermelho - cor recorrente em minha obra. Daí veio a necessidade de escrever um poema. Pensei logo em Bandeira, que desde pequena foi um dos meus poetas favoritos. Em momento algum, imaginei criar um poema meu. Eu já pensava que Bandeira dava certinho para aqueles desenhos. Acho que uma coisa acabou me levando para outra", explica Maíra.

Da poesia de Bandeira, a artista plástica se identificou com o melancólico e com o saudoso, principalmente as memórias relativas à cidade natal de Recife. "Essa eterna saudade daquilo que não há, porque o Recife que eu deixei há oito anos não existe mais, as minhas relações pessoais, os lugares, a escola, a casa, tudo faz parte do passado e, eu sei, assim como o poeta, que não voltam mais". Nesta exposição, Maíra emprega a técnica da gravura de maneira mais conceitual, na medida em que a matriz é a própria parede do museu. A artista grava nas paredes, aplica a tinta vermelha sobre o espaço e, depois, traça desenhos costurados pelos poemas de Bandeira.

Ao controle do gestual, cores, traços e linhas mapeiam formas que parecem composições geográficas de altiplanos e cidades. Por meio de incisões na parede, pigmento e desenho a nanquim, Maíra percorre o caminho da poesia de Bandeira. Em contraste com o branco, o vermelho pulsante simboliza a dor e a relação entre vida e morte, temas presentes nas obras do poeta. "Interpreto essa imagem de morte, que o poeta passa, como algo muito branco, quase nada, como se fosse à resignação da não-matéria. Não há mais corpo, só pensamento".

Com seus desenhos, Maíra procura aproximar as artes plásticas da literatura. Durante sua pesquisa, ela observou que vários poemas de Bandeira se reportam a imagens, na medida em que fazem descrições pictóricas de pessoas e de imagens. "O que fiz, no caso dos desenhos, foi incorporar a mesma lógica, ou seja, a imagem na poesia e agora, poesia na imagem. Explico: é um raciocínio de gravador. O que tirei da poesia apliquei na imagem e o que tirei da imagem apliquei na poesia e os dois se complementam".


E-MAIS

- Nos trabalhos anteriores da artista plástica pernambucana Maíra Ortins, a xilogravura era a principal técnica utilizada. Na exposição A vida inteira que podia ter sido e que não foi, ela incorpora o desenho, mas mantém a técnica da gravura, sob a forma de incisões na parede. "Mesmo quando faço o desenho sobre o papel, ele traz consigo uma marca do meu trabalho que é muito mais presente que a própria gravura: a imagem, a presença do branco, a força do vermelho".

- A exposição de Maíra Ortins está inserida no projeto Sala Experimental, do Museu de Arte Contemporânea, que procura apresentar obras que realizem algo diferente do convencional. A Sala Experimental propõe aos artistas convidados um espaço para experimentação de suas possibilidades plásticas, com obras que instigam o olhar do público do museu. Dentro do projeto do Centro Cultural Banco do Brasil, as exposições Di Cavalcanti - Cronista de Seu Tempo; Desconfigurações, de Antônio Bandeira; Retratos de Família, de Siegbert Franklin; e Desenhos, de Carlos Macedo, permanecem em cartaz até domingo.


SERVIÇO

A vida inteira que podia ter sido e que não foi - Exposição da artista plástica Maíra Ortins. Abertura hoje, às 19h, no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema). Horário de visitação: de terça a quinta, das 9h às 19h (acesso até às 18h30), e de sexta a domingo, das 14h às 21h (acesso até às 20h30). Ingressos: R$ 2 (inteira) e R$ 1 (meia). Aos domingos, a entrada é gratuita. Palestra Arte em Crivo com o professor Roberto Pontes amanhã, às 19h, no mesmo local. Info.: 3488.8624 / 8622.

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