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Vida & Arte

TELEDRAMATURGIA

Novela: Capítulos da discórdia

Paula Lima
da Redação

O Ibope do horário nobre da Rede Globo registrou na estréia de Duas Caras o pior índice da década. O que aconteceu para o brasileiro desligar a TV? O Vida & Arte Cultura conversou com críticos, especialistas e autores para descobrir qual é - se é que existe - uma crise na teledramaturgia


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03/11/2007 16:11

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Duas Caras, novela de Aguinaldo Silva, do horário nobre da Rede Globo, estreou dia 1º de outubro e ainda não emplacou, ameaça agradar, mas nada de fazer sucesso. O Ibope registrou no segundo capítulo 35 pontos de audiência. O pior índice de estréia de novela das oito da década. Quando positivo esse número se mantém acima de 45. A pesquisa mostra que o problema não é apenas de Duas Caras, mas da TV.

Não é o Antônio Fagundes na pele de um líder de favela cenográfica que não convence, ou a madame que Letícia Spiller faz lembrar uma Babalu (Quatro Por Quatro, 1995), então coroa e endinheirada, nem a falta de emoção na interpretação da atriz Marjorie Estiano os culpados pelo telespectador ter virado as costas para o horário nobre global. O problema é maior, atinge a teledramaturgia. Sem uma trama diária instigante para acompanhar, o público desligou a TV.

De América, 2005, para Paraíso Tropical, 2007, o Ibope do que era o superproduto da televisão caiu 6,6 pontos. Desses, quatro eram de aparelhos desligados. A Rede Globo, até pouco tempo hegemônica no mercado, viu a maquininha do Ibope registrar seu pior pesadelo: a audiência caiu. O colunista da Folha de São Paulo, Daniel Castro, mostra um levantamento sobre a média de audiência do conjunto das novelas da Globo que aponta a crise. O Ibope do segundo trimestre de 2007, 32,1%, é o pior em quatro anos. O mais interessante, ainda segundo Castro, é o fato de esse número ser produto de uma queda generalizada, em todas as produções no ar naquele período: Malhação, Eterna Magia, Sete Pecados e Paraíso Tropical.

O que aconteceu para o maior produto cultural de massa brasileiro perder força? Pode-se mesmo falar em crise na teledramaturgia?

O Vida & Arte Cultura deste domingo lança olhares sobre o hábito que há 44 anos faz parte do dia-a-dia de milhões de pessoas, levando em conta que cada ponto do Ibope equivale a 49,5 mil domicílios: ver novela. O que mudou na fascinante teledramaturgia que consagrou Dias Gomes, Janete Clair, Gilberto Braga, Manoel Carlos, Glória Perez e o próprio Aguinaldo Silva como os escritores mais importantes do gênero? A fórmula parece ter vencido o prazo de validade. Colocar a mocinha para sofrer, já não é mais recurso certo para alavancar a audiência como pregava Janete Clair, nos anos 60 e 70. "Isso foi no tempo dela, hoje se tornou repetitivo", analisa Renata Pallottini, escritora e coordenadora do Núcleo de Estudos de Telenovela da Escola de Artes da Universidade de São Paulo (ECA - USP).

Segundo Pallottini, o público cansou do gênero. "Desde o seu surgimento até os dias de hoje houve mudanças de formas, há a divisão em núcleos, mudam-se alguns detalhes, mas os assuntos continuam os mesmos". E avisa que o conteúdo das telenovelas precisa ser urgentemente renovado, caso contrário, elas irão se esgotar. "Tudo que começa, acaba. Com certeza seriados, minisséries e teleteatros ocuparão o lugar das telenovelas de hoje, mas vai ser mais adiante".

Atualmente, a discussão gira em torno dos problemas que críticos, estudiosos e o grande público apontam nas histórias que são - ainda continuam sendo - o maior entretenimento brasileiro. Que problemas são esses? Bia Abramo, crítica de televisão da Folha de S. Paulo, afirma que as "emissoras produzem telenovelas pensando exclusivamente nas estratégias para atrair audiência - e não por alguma intenção de constituir algum tipo de narrativa que seja atraente e, portanto, seja capaz de manter os televisores ligados".

Tiago Santiago, autor de Caminhos do Coração, trama da Record que concorre com Duas Caras e comemora elevados índices no Ibope (para os padrões da emissora), discorda que a fórmula esteja falindo. Segundo ele o problema não é da telenovela, é da Globo. "Enquanto vivermos vamos assistir às novelas, as pessoas continuam acompanhando a teledramaturgia. A crise bate nas portas da Globo, que desde a falência da TV Manchete não teve mais concorrência. Mas a Record chegou e temos picos de 17 pontos de audiência e média de 16. O telespectador não desligou a TV, mudou de canal".

Maria Immacolata Lopes, professora de comunicação da USP e coordenadora-geral do Núcleo de Telenovelas da ECA - USP, chama atenção para o contexto atual. "Acho difícil defender a decadência das telenovelas. O que existe são histórias bem e mal sucedidas. É importante medir a trilha de audiência que vai variar de acordo com o contexto. Já foi 60 pontos, baixou para 50 e atualmente é 40. Não está proclamada a crise apenas porque uma novela ou outra novela foi um fracasso".

Não vamos aqui bater o martelo e dizer que a telenovela brasileira perdeu a graça, ou que está descendo a ladeira a todo vapor. Isso não é verdade. A socióloga Manuela Barros, no artigo A Eterna Magia das Telenovelas, explica porque o gênero exerce e continuará exercendo enigmática atração no público. Também não se deve ignorar o fato de que a narrativa empobreceu, está mais simples. "Os receptores de hoje foram criados numa sociedade de informação, não de conhecimento. E isso faz com que se produza uma narrativa bem menos elaborada", analisa a professora Maria Aparecida Baccega (ECA - USP), pesquisadora do mestrado da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo. Pelo visto, a luta entre o fracasso e o sucesso das telenovelas continua nos próximos capítulos.

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