A exposição Di Cavalcanti: cronista de seu tempo dá início, hoje, à programação do Circuito Cultural Banco do Brasil em Fortaleza. A mostra traz 100 desenhos do artista carioca modernista
30/10/2007 02:40

"Assim, (Di Cavalcanti foi) tão importante para o Brasil quanto Picasso para a Espanha", afirma Glauber Rocha ao mirar o corpo rijo, coberto por pétalas vermelhas, do amigo Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Mello. Antes de as imagens finais do caricaturista, pintor, ilustrador, desenhista e escritor serem coladas em película pelo alucinado Glauber - que filmou em meio ao funeral, em 1976, o que resultaria no polêmico curta Di -, Di Cavalcanti (1897 - 1976) já tinha se consagrado como um dos grandes artistas brasileiros do século; um dos pioneiros da modernidade no Brasil e um dos principais idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922. "Ele teve uma obra muito extensa, foi um dos pintores mais importantes da primeira metade do século XX. Isso pela abordagem dos temas, pela cor de sua palheta, pela luminosidade de sua pintura", pontua o museólogo Fábio Guimarães, curador da exposição Di Cavalcanti: Cronista de seu tempo. A mostra - que dá início, hoje, à programação do Circuito Cultural Banco do Brasil - se estende até o próximo dia 18 no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. São 100 desenhos expostos, todos produzidos entre 1921 e 1964.
Apelidado por Mário de Andrade de "mulatista-mor da pintura", Di Cavalcanti detinha seu olhar sobre o cotidiano urbano de mulatas, prostitutas e pescadores, sobre a vida noturna da periferia do Rio de Janeiro. Uma brasilidade muito própria, um Brasil Di Cavalcanti: eminentemente miscigenado e popular. "É o Brasil mais profundo. Ele foi o primeiro pintor a se interessar, antes de Portinari, pelo subúrbio, pela periferia, pelo morro. E retratava isso não como quem olhasse de fora, mas se integrava; era como se fosse partícipe desse mundo", explica Fábio. Para o artista cearense Nilo Firmeza, o Estrigas, o trabalho de Di Cavalcanti se inscreve como fundamental na história das artes visuais brasileiras por sua abrangência: tematicamente, voltava-se "para o povo", ao passo que a qualidade de seu traçado fazia seu trabalho "atingir a camada erudita". As peças do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo - que já passaram por Porto Alegre, Belo Horizonte, Ribeirão Preto, Recife e Belém - tentam formar um panorama de sua obra e de sua vida, boêmia (madrugada adentro em bares) e lírica (cheia de amizades e paixões - foram quatro esposas).
Di - cujo nome artístico veio em homenagem a uma prima, Didi - começou como desenhista, caricaturando em jornais e revistas sob influência da art nouveau. Quando muda para São Paulo, em 1917, sua produção passa a ser mais eclética, experimentando formas e métodos. Depois da Semana de 22 e da primeira viagem à Europa, Di encontra seu traço particular, alinhavando geometrizações, luzes e cores. O melhor de sua obra vai até o início dos anos 1960, recorte da exposição - o próprio artista chegaria a confessar que, depois, teria passado a produzir apenas para sobreviver. Sua principal influência, contudo, foi mesmo o autor de Les Demoiselles d'Avignon (1907), Pablo Picasso, e seu olhar cubista sobre as prostitutas do subúrbio parisiense. Para o curador Fábio Guimarães, a exposição procura a abrangência de Di no desenho, arte que lhe acompanhou por toda a vida. "O desenho era essa anotação rápida, essa vivacidade de registrar as coisas que ele via, sentia. Pelo número expressivo de obras, nessa exposição dá para o visitante compreender bem a obra do Di Cavalcanti". São caricaturas, cenas da vida noturna, carnavais, retratos, críticas sociais (foi getulista e comunista), ilustrações e painéis para cenários de teatro.
E-mais
Assista Di Cavalcanti di Glauber: http://www.tempoglauber.com.br/glauber/Filmografia/di.htm
Site oficial: www.dicavalcanti.com.br
SERVIÇO:
Di Cavalcanti: Cronista de seu tempo. Exposição em cartaz no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, de hoje até 18 de novembro. Horário de funcionamento: de terça a quinta, das 9h às 19h; às sextas, sábados e domingos, das 14h às 21h. Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema. Entrada Gratuita. Pede-se a doação de dois quilos de alimentos não-perecíveis, livros ou cadernos infantis. As doações serão entregues às instituições sociais da região.