Vida & Arte
MÚSICA
A universalidade de Elba
Conhecida através da música regional e das parcerias com artistas como Alceu Valença, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo, a cantora paraibana Elba Ramalho lança novo CD e faz show em Fortaleza amanhã, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro
Guilherme Cavalcante
especial para O POVO
26 Out 2007 - 03h08min
Abandonando o circuito das grande gravadoras, Elba Ramalho lança seu primeiro disco independente através do selo próprio Ramax e distribuido pela BrasilMúsica!. Bem diferente do que já produzira na carreira, que conta 28 anos, o novo CD de Elba surge com tom de catarse em discursos apocalípticos, religiosos, universais e plurais, o que certamente assusta o fã que busca os tradicionais sons nordestinos desta paraibana. O resultado das novas misturas de Elba Ramalho poderá ser conferidos amanhã, quando Elba Ramalho apresenta ao fortalezense o disco recente, no show intitulado Raízes e Antenas, em única apresentação no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro.
Na verdade, o show de Elba Ramalho vai muito além do novo álbum. Mesmo priorizando o repertório do disco inédito, a turnê Raízes e Antenas revisita a carreira de Elba e dá pistas do DVD homônimo, um mix de documentário e de show, a ser lançado em novembro. É certeza, também, encontrar um pouco do agito como o da última apresentação da cantora em Fortaleza, durante o réveillon no aterro da Praia de Iracema. No disco recente, entretanto, temos uma Elba Ramalho insatisfeita com o mundo atual e que tenta equilibrar, através de uma música e outra, sua indignação e seus ansejos de "paz e bem a todos".
Em entrevista por e-mail, Elba Ramalho contou ao O POVO suas impressões sobre o novo disco, sobre a experiência como artista independente e, entre outras coisas, fala a respeito do atual momento da carreira, em palavras que revelam a personalidade forte da cantora. “Não há espaço para enrolação ou frustação. Sou o que sou e todos já me reconhecem. Não há nada a esconder e muito ainda por se revelar”, avisa
O POVO - O título do seu novo álbum é Qual assunto que mais lhe interessa? e ele trata de uma miscelânea de assuntos. É um disco muito plural que, ao mesmo tempo, se remete bastante ao cotidiano, a rotina das pessoas, aos noticiários, ao caos urbano. Como você responde a essa pergunta que seu álbum faz, ou seja, qual assunto que mais lhe interessa?
Elba Ramalho - Tudo que envolve as relações humanas. O amor que adoça e alimenta, a paz tão ansiada e que nunca chega, o futuro prenunciado por tragédias... Enfim, tudo que se revela como bem e como mal perante nós.
OP - Você está lançando de um álbum através de um selo próprio (Ramax) e está integrando, agora, o circuito de artistas independentes. O que fez você alternar para essa modalidade de gravadora?
Elba - Quero trilhar meu caminho sem pressão externa ou tempo determinado, ocupando os espaços que acho convenientes. A diversidade do mercado, minha liberdade plena, geral e irrestrita são razões fortes, mas não definitivas. Isto foi uma consequência natural, um posicionamento de vida, como foi adotar duas crianças a essa altura da vida.
OP - Além dos parceiros habituais, como Alceu Valença e Zé Ramalho, Qual assunto que mais lhe interessa? está repleto de grandes nomes da música, como Carlinhos Brown, Gabriel, O Pensador, Jorge Ben Jor, Lenine, Arnaldo Antunes, entre outros. Por que tantas participações especiais num só disco?
Elba - Para que soe harmônico e competente. Para agradar a meu público fiel e amoroso, já que tudo começa e termina no público. Também para meu deleite, afinal é um momento de grande prazer cantar belas canções. Como estava há cinco anos sem gravar um disco solo e não sei quando estarei inspirada para outro, faço desse momento o grande encontro com os que me são fiéis há tantos anos.
OP - E com qual músico foi mais interessante gravar?
Elba - Acho que rever Pedro Osmar depois de tantos anos na faixa O Boi me trouxe boas recordações do passado. A mais difícil foi Tempos Quase Modernos (Qual o assunto que mais lhe interessa?), que dá nome ao disco, pois demoramos a encontrar o fio da meada e também pelas participações de Gabriel e Frejat. As minhas preferidas são Conceição dos Coqueiros e Noite Severina, de Lula Queiroga e Novena de Geraldo, uma memória afetiva.
OP - Seu novo álbum é repleto de influências e têm muitas referências, a exemplo de Tempos Quase Modernos. Você mesma o descreveu como um álbum universal. Qual foi a sua intenção, seu objetivo com Qual assunto que mais lhe interessa?
Elba - Fazer de forma que possa ser ouvido em qualquer lugar do mundo, torná-lo uníssono com o som que se faz na Ucrânia ou no Ceará. A intenção desde o início com Lenine era trazer meus parceiros em alto estilo tanto na sonoridade quanto no canto.
OP - Qual das músicas gravadas é a mais importante para você. Por quê?
Elba - Já citei algumas, mas todas têm seu espaço no contexto da atualidade. Dois pra sempre, por exemplo, está dedicada a Dominguinhos, pois poderia ter sido feita por ele. A música do Ben Jor é mais em forma de oração, bem no estilo Ben Jor, que pontua rítmo e letra interessantes. Gosto muito da finalização do arranjo, com a Trombonada de Recife ao fundo.
OP - Em breve, você também estará lançando um DVD com misto de show e documentário, que leva o mesmo nome da sua nova turnê, Raízes e Antenas. Aparentemente, o CD não tem uma relação muito direta com o DVD, mas fica claro que seu show reúne os dois produtos. Mas como você relaciona, enquanto artista, os três produtos (o show, o CD e o DVD)?
Elba - Um vai puxando o outro. Primeiro o CD, depois o DVD e, por fim, o show, para estar mais próximo do público. Essa é uma rotina na vida dos artistas que nunca se contentam em descansar por longos períodos, que preferem a loucura da estrada, da mídia, dos holofotes. O mais difícil é a relação trabalho/família, quase inconciliável e uma das partes sempre fica só. Nesse instante, mesmo trabalhando muito, concilio melhor as coisas abrindo mão do social. Este me interessa pouco.
OP - O seu DVD apresenta muito da sua vida. Em alguns momentos, ele fala da sua intimidade, das suas raízes, e tenta reconstruir sua trajetória, o seu passo a passo até o sucesso. Como foi que surgiu a idéia da parte documental do DVD?
Elba - A idéia de ser também documentário foi de Gaetano, meu marido e produtor do trabalho. Às vezes, deixo que decidam por mim e sigo a trilha determinada. É evidente que, se concordo, ratifico e vou à luta. Se não, não dou um passo a favor. No caso, gostei e realizei!
OP - Elba, você considera que está na sua fase mais autoral, mais própria, mais "Elba Ramalho"?
Elba - Sim, mais plena de maturidade e consciência. Não há espaço para enrolação ou frustação. Sou o que sou e todos já me reconhecem. Não há nada a esconder e muito ainda por se revelar. A arte é algo que transcende e nos leva a um êxtase de bem estar e prazer. O resto é complementado com os encontros inusitados com meus colegas e o público.
OP - Que grau de importância você atribui a este momento?
Elba - Esse é um trabalho que me recoloca na música de uma maneira, se não nova, mais peculiar. É arrojado e tem vigor, tem cheiro de novo e de novidade. Não me acomodei na cama da fama e nem nas fórmulas que já comprovadamente deram certo. Busquei caminhos novos na fonte que está mais que explorada por mim e por outros. O mérito desse trabalho é a idéia geral de abordar temas do dia a dia, sentimentos diversos da alma humana, revestido de sonoridade orgânica e futurista.
SERVIÇO
Show Raízes e Antenas, da cantora Elba Ramalho. Amanhã, sábado, às 22h, no Centro Cultural SESC Luiz Severiano Ribeiro (Praça do Ferreira, s/n - Antigo Cine São Luiz). Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Outras informações: 3253-3233
PROMOÇÃO
O POVO levará um leitor com acompanhante para curtir o show de Elba Ramalho. Para concorrer, acesse a área de promoções do portal O POVO no endereço eletrônico
www.opovo.com.br/promocoes até as 14 horas de hoje. Participe!
CONTEÚDO EXTRA
Leia a íntegra da entrevista, uma resenha do CD e confira trechos das músicas em www.opovo.com.br/conteudoextra
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