Amanda Queirós
da Redação
O C&A Fashion Music Hall esquenta logo mais à noite sob o som da carioca Fernanda Abreu. O show da cantora encerra o festival que une música e moda
20/10/2007 01:03

Olha o jeitinho dela andar. Um passo após o outro, vão-se as modelos e fica a personalidade forte da cantora Fernanda Abreu. Na passarela do C&A Fashion Music Hall, ela comanda o pancadão que encerra o festival de moda botando todo mundo pra dançar ao som dos principais hits de sua trajetória. O set list é baseado no repertório do álbum MTV ao Vivo, lançado ano passado com uma releitura dos 15 anos de carreira-solo da carioca, que despontou na cena pop brasileira na década de 80 nos vocais da irreverente (e finada) banda Blitz.
Fernanda é uma das pioneiras no uso de samplers no País. Com isso, ela se firmou no mercado fonográfico. A missão dela era fazer uma "música brasileira dançante", como a própria define. E conseguiu. Basta ouvir Kátia Flávia ou Rio 40 Graus para querer mexer os quadris. Passado o tempo, ela encontrou mais uma lacuna inexplorada pelo som que toca nas rádios. Foi aí que a cantora subiu no morro e se transformou em embaixatriz maior do funk carioca. Incorporando referências do estilo, além do samba, soul e black music, Fernanda faz um pop bem trabalhado, cheio de energia e de uma carioquisse sem fim.
Em entrevista por telefone ao O POVO, ela comenta o trabalho do MTV ao Vivo, adianta novidades sobre o próximo disco, fala sobre as possibilidades do funk finalmente "pegar" para a classe média e dá pitacos sobre a violência do Rio de Janeiro a partir da repercussão do filme Tropa de Elite. Fernanda Abreu toca hoje durante o desfile da C&A, que conta ainda com a participação de Daniella Sarahyba e Sebastian. Após os 40 minutos de desfile, vale curtir o resto do show. As modelos que se cuidem para não perderem o passo.
O POVO - Quando aceitou gravar o MTV ao Vivo, você mesma achava que já era tempo de revisitar a carreira. Após todo o processo de produção e de turnê desse disco, que reflexão você faz da própria evolução do seu trabalho ao longo de todos esses anos?
Fernanda Abreu - Quando a MTV me convidou, achei que seria bom porque ainda não tinha gravado nenhum DVD. Naquele momento, eu não tinha essa idéia de revisitar a carreira. Estava com a turnê do Na Paz, a idéia era fazer um outro disco inédito, mas achei que não podia deixar escapar essa oportunidade de gravar um DVD. E aí sim, quando pensei no projeto, achei que era importante vir desde o primeiro disco de 1990. Coloquei no site uma votação das dez músicas que não podiam ficar de fora. As outras dez escolhi com a banda. Aí entramos no estúdio, fizemos as modificações que achamos interessantes: uma atualização do Bloco Rap, a criação do Bloco Funk, duas inéditas, uma nova versão pra A Noite... A repercussão foi fantástica. A idéia foi fazer um show super dançante, mostrar um pouco a evolução do meu som dentro da minha proposta inicial de fazer uma música brasileira dançante. Daí que deu muito certo, os arranjos ficaram super bacanas. As pessoas sempre ouviram essas músicas através do estúdio. Então também era importante para eles verem como elas ficam boas com a banda tocando ao vivo.
OP - Você parece ser bastante metódica. Não tem pressa para gravar disco, pensa bastante. E parece ter feito o mesmo com o DVD...
Fernanda - É. Quando acho que tá na hora de fazer um disco, penso primeiro na concepção geral. Vamos começar do começo, das composições, dos arranjos, dos timbres, das sonoridades. Depois é que vem o desafio disso ir pro palco. Queria mostrar desde o que era o funk dos anos 70, passando pelo samba-rock. Foi um projeto bem pensado "Ah, já tão aí, as músicas, então vamos lá". Não, demorou. Foi um processo um pouco mais artesanal.
OP - Numa entrevista anterior, você afirmou que o funk vive renascendo para a classe média, mas que ele ainda não conseguiu emplacar de vez apesar de ser considerado um fenômeno de massa. A duras penas, o samba conseguiu extrapolar essa fronteira. O que falta para o funk seguir no mesmo rumo é mesmo só preconceito?
Fernanda - Não, acho que falta tempo. Acho que ainda temos pouco tempo de funk nacional. A gente começou basicamente por volta de 1989 a fazer um funk carioca cantado em português. Antes a gente só tinha o importado. Os bailes ainda eram com músicas americanas e o DJ Marlboro e outros DJs começaram a sentir que o baile inteiro precisava cantar. As pessoas tinham essa necessidade. Daí naturalmente se começou a fazer versões - melô disso, melô daquilo - e, aos poucos, começaram a aparecer MCs e também foram surgindo os próprios estilos e gêneros dentro do funk. Teve o funk raiz, depois teve uma época de funk de corredor - de briga -, depois teve um mais sensual, depois o melody, depois o proibidão. Hoje em dia já tem uma mistura nova que é um funk muito mais ligado à eletrônica. Então acho que ainda tem um caminho grande pro funk percorrer, porque ele ainda é muito gueto, feito na favela, que é lugar de preto e pobre. O brasileiro ainda tem dificuldade de se espelhar nisso e ver que ali também tem um brasileiro. Acho que, como o samba, o funk não pode perder tradições e raízes, mas é importante também a gente meter a mão nele. Gente branca de classe média, letrada, fazer algo como o Chico Buarque fez com o samba. Acho que o funk tem uma grande evolução para a frente.
OP - Existiria então um funk "de periferia" e outro "de classe média"?
Fernanda - Acho que não. Por enquanto, o que a gente tem é o funk melody, que faz o papel de crossover. É dificil você ver tocar um proibidão numa festinha da Zona Sul do Rio de Janeiro. O que é mais fácil é você ver o funk melody, como o MC Leozinho, que começou ali com Claudinho e Buchecha. São funks mais digeríveis para a classe média, com letras mais amorosas, mais ingênuas. Acho que é muito fácil esse tipo de funk pegar pra classe média. Mas tem pra tudo que é gosto, como o próprio samba, que tem samba-enredo, pagode romântico... O problema é que o funk ainda é muito associado ao crime. E, na verdade, isso faz sentido, porque no começo dos anos 90 a gente ia pra baile, pra clube do asfalto, onde tocava funk... Depois ele foi muito massacrado. Teve aquele arrastão em Ipanema, em 1992, e daí ficou aquela coisa "os funkeiros são os criminosos". Aí neguinho começou a oprimir geral, fecharam os bailes de clube e o funk foi empurrado pra dentro da favela. Quando isso acontece, ele vira uma música que está representando aquela comunidade e que se afasta um pouco da nossa vivência aqui do asfalto. Aposto que a mesma mãe de classe média dos anos 30 não gostaria que a filha subisse o morro pra entrar numa roda de samba. Acho que é um preconceito social e racial do Brasil que fica resvalando na coisa artística, de dizer que funk não é música.
OP - O assunto do momento no Rio de Janeiro é o filme Tropa de Elite, de José Padilha. E mais uma vez o tema violência volta à tona. Você é talvez uma das pessoas que mais canta essa cidade e que não restringe os passeios à Zona Sul. Você já assistiu ao filme? De que forma você percebe que a cidade se afetou com ele?
Fernanda - Não, eu assisti a trechos do filme, mas ele parece falar da violência do ponto de vista da polícia, o que é uma novidade para as pessoas daqui. Não sei exatamente qual o ponto de vista do José Padilha, mas pelo que tenho observado, existem duas questões aí. Uma delas é a de retratar bandido como bandido e mocinho como mocinho, mas isso eu não sei. A outra é a de que a classe média estaria financiando o crime no Rio de Janeiro e que, de alguma forma, ela seria responsável nessa novela toda, com os estudantes vendendo maconha e financiando o tráfico, que financia as armas, que financia a violência e aginda de maneira um pouco hipócrita realizando passeata da paz. Eu acho isso uma besteira. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer época da humanidade as drogas existem e sempre pessoas venderam e compraram drogas. Isso não justifica o crime organizado no Rio de Janeiro. Você vai a Paris, a Londres, qualquer grande cidade do mundo e encontra pessoas de classe média também consumindo drogas, mas não existem as facções criminosas que existem no Rio. Uma coisa é a discussão sobre drogas, sociedade e indivíduo, e outra coisa é o crime organizado, que podia ser por causa das drogas, mas é também pelas máquinas caça-níqueis, pelo bingo... Essa vocação para contravenção do Rio de Janeiro é antiga. Pra violência, acho que o mais urgente é lutar contra a corrupção. Acho que tudo isso de mensalão, de ganhar dinheiro em cima de cargo, é muito mais grave que o menino de 19 anos vendendo maconha na PUC ou o garotinho que funciona como soldado do tráfico. A questão é onde estão realmente os grandes caras, as facções que estão viabilizando a entrada de drogas e de armas. Acho que é um pouco enviesada essa discussão. A elite intelectual, política, econômica do País tem que dar o exemplo. Político, empresário não podem roubar. Não adianta vir depois esse pessoal chorar porque a mulher morreu no sinal. Cada um que faça a sua parte na sociedade. O maior problema da cidade do Rio de Janeiro não são as drogas ou a favela. São as armas. A cidade se armou e cada vez mais o Brasil também. O Rio sempre vai ser uma cidade super carismática e sedutora e vai ser sempre o centro das atenções do Brasil. Isso é bom, mas não podemos nos iludir que isso só vai acontecer aqui.
OP - Thomas Edison afirmou que "talento é 1% inspiração e 99% transpiração". Quantos por cento de sua música são inspiração e quantos outros por cento são da energia que você põe nela e que partilha com o público nos shows?
Fernanda - Acho que 50%. Acho que inspiração, talento, subjetividade é o começo de tudo. Se você não tem isso, não tem porque ser artista. Você precisa pesquisar, ralar, trabalhar muito em cima de idéias, ouvindo coisas novas, outras antigas, conhecer novas possibilidades sonoras. Depois você tem outro desafio que é pegar isso tudo que você fez no estúdio e botar ao vivo, que é sempre uma energia importante. A pessoa que sai de casa e compra o ingresso para ver o seu show merece ver um puta show. É cada vez mais difícil alguém sair de casa. A pessoa pode comprar um DVD, ligar a televisão, ficar conversando sem se preocupar com a violência... Cada vez mais a pessoa pode ficar dentro de casa. Para ela sair, aquele é um momento especial tanto para você quanto para quem está vendo. Continuo fazendo o que faço porque tenho muito amor, gosto muito. Não queria fazer outra coisa na minha vida.
SERVIÇO
C&A fASHION MUSIC HALL COM FERNANDA ABREU - A cantora se apresenta hoje, a partir das 20h, no encerramento do C&A Fashion Music Hall, no Siará Hall (Av. Washington Soares, 3199 - Edson Queiroz). Os convites podem ser retirados nas lojas C&A. Informações: 3278.4888
CONTEÚDO EXTRA
Leia a íntegra da entrevista em www.opovo.com.br/conteudoextra