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Um passeio de volta


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19/10/2007 01:39

Aos poucos o Passeio Público  volta a ser ocupado pela população, abaixo, o comércio que circula a praça(Foto: Dário Gabriel)
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Aos poucos o Passeio Público volta a ser ocupado pela população, abaixo, o comércio que circula a praça(Foto: Dário Gabriel)

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Sentada numa cadeira de plástico, do lado de dentro do Passeio Público, próximo à entrada, Vera Luci amarga os novos tempos. Depois de 15 anos trabalhando na praça, analisa um mercado em crise naquela área do Centro. As duas garrafas térmicas com chá e café não rendem mais que R$ 5,00 por dia. Tempos ruins depois de ser proibida de vender quentinhas dentro do Passeio e de não ter mais a clientela das profissionais do sexo. "Não sei dizer por que, só sei que elas não querem entrar, só isso que eu sei. Passaram três meses no meio da rua, nos bares, se acostumaram a andar nos bares e fica cabreiro de entrar aqui. Deve ser isso, né?", tenta entender os movimentos do mercado.

Na esquina da Dr. João Moreira com Major Facundo, Tatiane fala alto em tom de discurso impaciente: "A gente não é patrimônio público", diz reivindicando o direito de vender o corpo. Tatiane conta que os guardas municipais não impedem a entrada das prostitutas, mas não as deixam à vontade. "Ficam direto vigiando quando os homens sentam com a gente, eles botam os homens pra fora", fala inquieta, avistando um possível cliente caminhando pela calçada e anunciando: "Ei cidadão, vamos fazer sexo!". Antes, tinha ameaçado: "A gente vai fazer uma baderna se não abrir o Passeio Público como antigamente".

Encostadas na parede, na mesma esquina, as Marias de Fátima e Liberato, cada uma com cerca de 20 anos vendendo comida e café no Passeio Público, conformam-se lacônicas com o declínio das vendas e dizem que o mercado já estava em baixa antes mesmo da reforma. "A questão é que a gente ficava mais acomodada", relembra sem saudosismo Maria Liberato. Ao lado dela, uma prostituta que não quis se identificar, morde um pão com manteiga e contrapõe Tatiane. "Não me faz falta lá dentro não. Eu não os guardas mandando gente sair. Eu arrumo os homens na esquina". Partidária da reforma, ela diz esperar que a praça continue como está. "Eu adorei a praça tá assim, porque não tem aquelas bagunça de antes", fala e desconversa quando pergunto que tipo de bagunça.

Rondando pelos corredores do Passeio Público, Rúbia Albuquerque traja farda azul e um fala policiada. Ela, junto com mais dois guardas, faz o patrulhamento da praça nessa tarde e já conhece há algum tempo as "bagunças" do Passeio. O grupo entrou às 13h, sucedendo os guardas do período da manhã e hoje vai ficar até às 21h, quando dois vigilantes particulares armados assumirão o posto até o amanhecer do outro dia. A vigilância se estenderá excepcionalmente às 21h até o término da Casa Cor, evento que anda trazendo gente dos bairros ricos da cidade à rua Dr. João Moreira nas noites quase sempre desérticas do Centro. Depois do evento, no dia 11 de novembro, a vigilância dos guardas municipais se encerrará às 19h.

Rúbia diz que a orientação é deixar todos o mais confortável possível e que não se pode inibir o trânsito das prostitutas pelo Passeio. As principais preocupações da guarda são os roubos e tráfico de drogas que eram constantes antes da reforma. José Sérgio, companheiro de guarda, diz que até "o próprio ato sexual era consumado aqui mesmo". Os dois já faziam parte, antes mesmo da reforma, do Ciclo de Patrulhamento, responsável por percorrer as principais praças do Centro. "Não existia uma cena como essa das crianças brincando. O passeio tá tentando sobreviver dentro de um passeio tão abandonado", fala Rúbia.

A presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras do Sexo, Rosarina Sampaio, diz que a saída das prostitutas do Passeio é um movimento de antes da própria reforma e que as próprias prostitutas eram vítimas da marginalidade na praça. "Faz tempo que o Passeio Público ficou tão sem segurança que as trabalhadoras pararam de freqüentar. As prostitutas tinham muito problema com marginais. Elas se afastaram. Agora, pra elas voltarem pra lá vai ser muito complicado", diz. Das cerca de 70 mulheres que trabalharam na área há dois anos, restam no máximo 20 segundo Rosarina que todas as semanas visita e conversa com as meninas do Passeio.

Quando do planejamento da reforma, as entidades representativas das profissionais do sexo foram convidadas para discussão pela Prefeitura. A única condição posta foi: "a gente só aceitaria se não mexesse com as meninas". Até agora, Rosarina não recebeu nenhuma reclamação. "Se tivesse elas tinham ligado pra gente", fala com a certeza de quem as conhece. (Pedro Rocha, Especial para O POVO)

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