Pedro Rocha
especial paraO POVO
Duas semanas após a reinauguração o passeio público começa a ser reconsquistado pela cidade. O Vida & Arte, por dois dias, fica à espreita observando e ouvindo traseuntes, antigos e novos ocupantes do lugar que é um marco na história da cidade
19/10/2007 01:39

A rua Doutor João Moreira não tem o perfil temático de algumas vizinhas suas do Centro, mas quem lhe atravessa de ponta a ponta sente os tremores de um terremoto que parece varrer diariamente o bairro mais movimentado de Fortaleza, causando uma balbúrdia de sons, cores e pés alvoroçados. Do começo, ali perto do Mercado Central, ela segue rumo à Praça da Estação. No caminho um saco de gato urbano que emparelha lojas de artesanatos com cipós, uma loja de conserto de discos de freio, casarões como a Associação Comercial do Ceará e o Sobrado José Lourenço, pontos de venda de confecções, bares, motéis, prostitutas e vendedoras ambulantes nas calçadas, além de sombra e uma vista do mar: o Passeio Público.
Quem passar de ônibus pela João Moreira nestes dias de outubro, vai estranhar os guardas municipais, garis e jardineiros em serviço pela praça. Se a viagem for depois do sol posto, o espanto será ainda maior pelos postes, à moda antiga, iluminados. A praça, ambígua, afamada por ser um dos principais pontos de prostituição da cidade e marco de importantes eventos históricos de Fortaleza, ganhou reforma da Prefeitura.
Os quase um milhão gastos na reforma, grande parte investida na iluminação, está fazendo alguns moradores de Fortaleza voltarem à praça depois de décadas, como dona Edine Gomes, 76 anos, que vinha na infância passear com seu pai. "Aqui tinha quadrilha, pastorinha, tinha retretas. A alta sociedade vinha aqui", recorda. Antes de entrar, perguntou ainda receosa para três pessoas se realmente estava tranqüilo o Passeio. Já dentro, ainda certificou-se com o Sérgio Freitas, jardineiro a serviço da Empresa de Limpeza Urbana (Emlurb), das novidades. "Eu disse para ela que agora vai ser diferente". Dona Edine veio ao Passeio até o ano de 1982, depois, nunca mais. "Eu era pequena, mas lembro como se fosse hoje. Os blocos de carnaval se reuniam aqui também".
O som bucólico das folhas secas tangidas pelo vento e do canto dos pássaros mistura-se com o rangido motorizado dos ônibus e o forró dos bares do outro lado da rua. "Quem vai querer a minha periquita, a minha perequita?". Um dos garis acompanha a música dedilhando a vassoura imaginada baixo. Daqui a pouco uma pausa na varredura, quentinha na mão esquerda e colher na direita num almoço vem o almoço à sombra árvores.
É meio-dia. O sol que esquenta a chapa de asfalto do Centro e traz trabalhadores para uma cesta nos banco da praça com vista para o mar. Robson Mota, desdobra cadeiras de descanso. Integrante da Ong Mediação de Saberes, Robson é um dos responsáveis pelo projeto Gestos pela Cidade que tem agora, após a reforma, um de seus braços no Passeio Público. Junto com as cadeiras, vem xadrez, revistas e uma programação cultural que vai de uma tecladista nos fins de tarde a oficina de Ioga. Falta ainda um carrinho biblioteca que vai ficar a disposição dos usuários da praça e os passeios guiados, um com temática história e outro, botânica. Os passeios serão guiados pela Liliana Uchoa, estudante de arquitetura, e Nadia Brito, estudante de história.
A cesta vai espreguiçando o passeio. O forró descansa lá fora. A comida não parece pesar na barriga de dona Francisca Bezerra de Oliveira. O andar compassado não pára contemplativo. O olhar não se desvia. Sobe o coreto, encosta a sacola e põe-se a pregar.Alterna sermões com o canto de hinos evangélicos. O mesmo gari que tocava um forró com a vassoura a pouco tempo, acompanha baixinho o hino da pregadora da Assembléia de Deus, enquanto põe as botas pretas de lado e descansa depois do almoço. "Pode me chamar de velha abestada, não tem problema", responde diante da completa ausência de público. Há 12 anos prega no Passeio Público para as meninas e acredita que a transformação da praça é obra de Deus. "
Depois do almoço, o Passeio começa a esvaziar novamente. A forró do outro lado aumenta o volume. O sol vai aos poucos caindo. No final da tarde, alguns vão chegar para assistir o céu mudando de cor. O crepúsculo vai ser acompanhando por um teclado. A música talvez traga algumas pessoas que vão passar pela calçada.
E-mais
As obras de restauro do Passeio Público incluíram a recuperação dos monumentos, do gradil, dos bancos, das fontes, um novo projeto de iluminação e a recuperação do jardim. Após a reforma, a Prefeitura de Fortaleza planeja uma programação de espetáculos culturais no local para movimentar o centro histórico da capital. O quiosque da praça também foi recuperado e hoje abriga um Café que está aberto de segunda a sábado, das 15:30h às 22h, vendendo, entre outras coisas, salgado, bolo, café e tapioca.
O espaço foi construído em 1890 em estilo neoclássico e tem o nome de Praça dos Mártires em homenagem aos líderes da Confederação do Equador, como Pessoa Anta e Padre Mororó, que foram executados no local em 1830. A estatuária da praça tem inspiração greco-romana.
O Passeio abriga dez das 45 árvores declaradas pela Prefeitura imunes ao corte e que estão identificadas com placas que informam o nome popular e o científico e a origem de cada uma. São elas: o Baobá, que tem mais de 200 anos de vida, uma Oiticica, duas Mungubeiras, um Ficus Benjamin, um Oitizeiro, um Jucazeiro, uma Timbaúba, um Pau D´arco Roxo e uma Macaúba.
O projeto da Ong Mediação de Saberes no Passeio Público põe a disposição dos usuários da praça jogos de xadrez, cadeiras de descanso e revistas como Piauí, Caros Amigos e Entre Livros. Além disso, toda segunda-feira uma banda se apresenta às 17h; oficinas de ioga acontecem todas as terças e quintas às 15hs; e às quartas e sextas uma tecladista cubana se apresenta nos fins de tarde. Os passeios guiados começarão nas próximas semanas com alunos de escolas públicas inicialmente.
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Ótima matéria. Uma bela crônica do cotidiano de um lugar simbólico da cidade. No entanto, faltou uma revisão ortográfica criteriosa que desvalorizou um pouco o texto. Jornalismo requer observar também os pequenos detalhes da matéria.
José Augusto do Nascimento Filho