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Vida & Arte

MEMÓRIA

O senhor do palcos

Morre em São Paulo, aos 85 anos, o ator carioca Paulo Autran. Com 90 peças teatrais e 60 anos de carreira, ele consagrou-se como o mais prestigiado ator de teatro do país. Fez também cinema e televisão


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13/10/2007 00:24

Paulo Autran nunca quis se aposentar. Estava em cartaz com O Avarendo, de Molière(Foto: JOÃO BATISTA 14/7/1999)
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Paulo Autran nunca quis se aposentar. Estava em cartaz com O Avarendo, de Molière(Foto: JOÃO BATISTA 14/7/1999)

Nos palcos, foi rei e miserável, burguês e aristocrata, canalha e herói. Na vida, o ator de teatro de maior prestígio no Brasil. Superlativo que Paulo Autran não dispensava, embora desconversasse. "Sou um ator que tinha vontade de, ao fim do espetáculo, ficar na porta do teatro e perguntar a cada espectador o que achou, por que você gostou, por que não gostou", disse em entrevista à reportagemde O POVO, em 1997, à época com 75 anos. Aos 85, com 90 peças teatrais e 60 anos de carreira, Paulo Autran seguia o mesmo ritmo: ativíssimo. "Quando a natureza me tirar a voz, ou eu não puder andar, eu vou continuar. Tenho uma pena de quem se aposenta. O aposentado pensa que vai descansar, mas vai chatear a mulher e vai caminhar mais rápido para a morte. Eu recomendo, quanto mais velho estiver, mais trabalhe, até não poder mais", disse. Desta vez, Paulo Autran não pôde mais. E o palco ficou vazio... imensamente vazio!

Tanto talento foi lapidado ao longo do tempo. O primeiro papel, dizia ele, foi aos sete anos de idade, em uma peça de teatro que durava dez minutos. "Fiz o diabo, com chifres de papelão, calção vermelho e tudo. Entrei mudo e saí calado". Nascido no Rio de Janeiro e formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (Universidade de São Paulo) em 1945, Paulo Paquet Autran chegou a abrir um escritório antes de assumir a carreira artística. Ele estreou em um palco, ainda amador, em 1947. Apenas em 1949 resolveu largar a advocacia e aceitar o convite da amiga Tonia Carrero, para atuar em Um Deus dormiu lá em casa, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). "Foi a decisão mais certa da minha vida". Depois vieram, em extenso currículo, as atuações em Otelo, Antígona, My Fair Lady, Liberdade, Liberdade, A Morte do Caixeiro Viajante, Visitando o Sr. Green e Adivinhe quem Vem para Rezar. O Avarento, montagem de 2006, foi a 90º da carreira. A peça foi traduzida e adaptada por Felipe Hirsch.

Na TV, seu último trabalho foi na minissérie Hilda Furacão (1998), da Globo. Entre seus trabalhos na emissora se destacam Pai Herói (1979), Guerra dos Sexos (1983), Sassaricando (1987) e Brasileiras e Brasileiros (1990). No folhetim de Silvio Abreu, Guerra dos Sexos, o ator protagonizou, ao lado da atriz Fernanda Abreu, uma das mais célebres cenas da televisão brasileira. A dupla de primos protagonistas Charlô (Fernanda) e Otávio (Autran) entra em pé de guerra na mesa de café da manhã, entre "golpes" de sucos e pães. Já no cinema Autran esteve recentemente em A Máquina (2005) e em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006) - filme indicado pelo Brasil para a peneira do Oscar 2008 na categoria Melhor filme estrangeiro. Foi em 1967 que fez seu trabalho mais substancial para o cinema, Terra em Transe, de Glauber Rocha, no qual interpretava o sórdido político Porfírio Diaz.

Ao longo da trajetória, Autran colecionou histórias memoráveis. Vaidoso e intrigante, especialmente quando jovem, certa vez, tentou - sem sucesso - dar um soco num crítico que escreveu um comentário a respeito da sua atuação em As Sabichonas, de Molière. "Nunca havia dado um soco em ninguém. É difícil, sabe? O corpo se contrai, o braço fica sem força", revelou, bem-humorado. Outra vez, em uma peça, foi até a platéia e deu uma cusparada no crítico e jornalista Paulo Francis (1930-1997) em defesa da amiga e atriz Tônia Carrero. "Juntei bastante cuspe e cuspi com prazer", recordou ele, numa entrevista à Folha de São Paulo, em 2005. Com o tempo, a arrogância juvenil cedeu espaço para a sabedoria. Mas não menos à sagacidade. (das Agências)

ÚLTIMOS ATOS

Internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, desde quinta-feira (11), devido a "um processo infeccioso", segundo informou nota assinada pelos médicos Maurício Ceschin, superintendente corporativo, e Manoel Peres, diretor técnico hospitalar, o ator Paulo Autran morreu ontem, por volta das 16 horas. O ator tinha câncer de pulmão e enfisema pulmonar há cerca de um ano e passava por um tratamento de rádio e quimioterapia. "Fumo desde os 23 anos, não faço exercício, como de tudo e não tenho horário para nada. Não quero ser um exemplo", dizia o ator. Paulo Autran era casado com a atriz Karin Rodrigues


E-mais

CRONOLOGIA

7/9/1922
Paulo Paquet Autran nasce no bairro de São Cristovão, no Rio de Janeiro. Aos seis anos, em 1928, passa a viver em São Paulo.

1933
Aos 11 anos, escreve a peça As Onças da Jamaica, sob influência do livros do poeta inglês Rudyard Kipling, autor de O Livro da Selva

1945
Forma-se em direito na Faculdade de Direito do largo de São Francisco (USP) e monta um escritório na rua 15 de Novembro, no centro de São Paulo

1947
Integra o grupo de teatro Os Artistas Amadores, estreando com a peça Esquina Perigosa, de J. B. Priestley

1949
É convidado pelo diretor Abílio Pereira de Almeida a participar da reinauguração do teatro Copacabana. Em 13 de dezembro, sobe ao palco com Tônia Carrero em Um Deus Dormiu Lá em Casa, e ganha seu primeiro prêmio de melhor ator

1950
Retorna a São Paulo para integrar o TBC, no qual permanece por cinco anos, durante os quais participa de espetáculos como Seis Personagens à Procura de um Autor, de Pirandello, e Antígona, de Sófocles

1952
Estréia no cinema com o filme Veneno, de Gianni Pons. No ano seguinte, recebe o Prêmio Governador do Estado de melhor ator do ano

1954
Participa da peça Mortos sem Sepultura, de Jean-Paul Sartre e direção de Flaminio Bollini Cerri, recebe o Prêmio Leopoldo Fróes, de melhor ator do ano da Casa dos Artistas, e participa de Destino em Apuros, primeiro longa-metragem colorido brasileiro

1956
Monta, com Tônia Carrero e o diretor italiano Adolfo Celi, a Companhia Tônia-Celi-Autran, que teve vida curta devido ao fim do casamento de Tônia com Celi (1961). Encena o papel-título da peça Otelo, de William Shakespeare, com direção de Adolfo Celi

1962
Encena My Fair Lady, peça de Frederick Loewe e Alan Jay Lerner dirigida por Harry Woolever, ao lado de Bibi Ferreira. Durante a temporada, que dura dois anos, sofre um acidente de carro e fica sete meses longe dos palcos

1964
Sob a direção de Flávio Rangel, encena Depois da Queda, de Arthur Miller, contracenando com Maria Della Costa

1965
Atua na peça de protesto Liberdade, Liberdade, de Flávio Rangel e Millôr Fernandes, dirigida por Rangel e censurada em 1967

1967
Trabalha no filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, marco do cinema novo, e encena Édipo Rei, de Sófocles, sob direção de Flávio Rangel

1969
Atua na peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto e direção de Silnei Siqueira. No ano seguinte, sua peça Brasil & Cia é suspensa pelo Serviço de Ordem Política e Social (Sops) e Autran é chamado a depor no Departamento de Censura Federal

1972
Participa do sucesso O Homem de la Mancha, de Dale Wassermann e direção de Flávio Rangel, com versões musicais por Chico Buarque e Ruy Guerra. No elenco estavam Bibi Ferreira e Grande Otelo

1977
Atua na peça A Morte de um Caixeiro-Viajante, de Arthur Miller

1979
Faz sua primeira novela, Pai Herói, de Janete Clair, na Rede Globo

1981
Dirige e protagoniza a peça O Homem-Elefante, de Bernard Pommerance, e faz uma rápida participação na novela Os Imigrantes (TV Bandeirantes)

1983
A partir de junho (até janeiro de 1984), interpreta Bimbo, na novela Guerra dos Sexos (Globo), ao lado de Fernanda Montenegro. Em setembro, é submetido a uma cirurgia cardíaca para implantação de cinco pontes de safena. Em outubro, recebe o prêmio MoliÕre de melhor ator

1984
Em janeiro, recusa a insígnia da Ordem do Ipiranga, oferecida pelo governador Paulo Maluf, e critica a ação da Secretaria de Cultura do Estado de SP. Dirige e atua na peça A Amante Inglesa

1985
Encena Tartufo, de MoliÕre, sob direção de José Possi Neto

1987
Interpreta o personagem Aparício Varela, na novela Sassaricando (Globo)

1989
Encena A Vida de Galileu, de Bertolt Brecht, com direção de Celso Nunes

1994
Volta à televisão e vive o personagem Álvaro na novela 74.5 - Uma Onda no Ar (Manchete)

1996
Com direção de Ulysses Cruz, produz e atua em Rei Lear, de William Shakespeare

1998
Participa da minissérie Hilda Furacão, na Rede Globo. No ano seguinte, atua em O Crime do Dr. Alvarenga, peça de Mauro Rasi, e participa do filme Oriundi, ao lado de Anthony Quinn

2002
Recebe o Prêmio Shell de Teatro de melhor ator, por sua atuação na peça Visitando o Sr. Green

2003
Dirige a peça Vestir o Pai, de Mário Viana, e encena e dirige Quadrante, monólogo de sua autoria. Em novembro, é internado na UTI do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, em razão de uma pneumonia, e é liberado após dez dias

2005
Encena a peça Adivinhe Quem Vem para Rezar, de Dib Carneiro Neto e lança o livro fotobiográfico Paulo Autran: Sem Comentários (Ed. Cosac Naify). Seu programa de rádio Quadrante (Bandnews FM), em que interpreta textos literários, é considerado o melhor do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte)

ago.2006
Estréia a peça O Avarento, de Molière, com direção de Felipe Hirsch. Participa do filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer

2007
Em janeiro, traduz a peça Pequenos Crimes Conjugais, do dramaturgo Eric-Emmanuel Schmitt, que estréia em São Paulo. Em abril, é internado no Hospital Sírio-Libanês devido a um processo infeccioso. Volta a ser internado dois meses depois, com dores no peito
Prêmio Shell de Teatro de melhor ator, por sua atuação na peça "Visitando o Sr.

E-mais

REPERCUSSÃO
"Eu fiz duas peças com ele. Eu trouxe Visitando o Sr. Green, no TJA (Theatro José de Alencar), com ele e o Cássio Scapin. E fui o produtor do espetáculo em Fortaleza e em outras cidades do Nordeste de um solo que o Paulo fez. Ele é um papa do teatro do brasileiro. É um ator que sabia de tudo e acima de tudo era muito generoso com todos. Paulo tinha muita generosidade de ensinar e de mostrar. A gente vai naquele jargão, mas ele era memso um dos maiores atores brasileiros. O nome de Paulo é sinônimo de teatro, é historia, faz parte da história da cultura brasileira. Eu estou muito emocionado porque trabalhei com ele, viajei o Nordeste com ele, sempre muito atencioso com a imprensa, com a platéia dele. Paulo nunca disse 'não, não vou atender', poderia ser jornalista x, y, z. Ele falava com todos"
Caio Quinderé, diretor, autor e produtor de teatro

"Ele era um grande exemplo de paixão incondicional ao palco. Ele poderia ter feito uma carreira solo na televisão, mas negou isso e seguiu nos palcos com esse amor incondicional. É uma pena termos perdido um símbolo do teatro brasileiro. Nunca tive a oportunidade de vê-lo em cena, mas essa negação que ele tinha pela TV e essa dedicação total para o seu ofício, que era o teatro, é um exemplo para todo artista. E a divulgação do fazer teatral também. Por que ele foi um dos primeiros que mostrou que o teatro não é brincadeira, é coisa séria. Fico muito triste mesmo"
Rogério Mesquita, ator integrante o Grupo Bagaceira de Teatro

"O Paulo nasceu clássico como ator. É um ator clássico do Brasil. Mesmo quando estreou, numa vocação mais tardia, quase com 30 anos, estreou já formado, com uma base sólida de cultura, ligado a cultura universal. Ele traduziu em expressão brasileira grandes autores, como Shakespeare, MoliÕre, Sófocles. Ele é um homem que traz uma espécie de filtro da cultura teatral clássica européia para a cultura brasileira. Teve um papel importante quando montou Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel (em 1965), quando essa palavra não podia ser dita nenhuma vez. O que mais me encanta nos últimos momentos é que ele era um falava o tempo todo de futuro e acompanhando o teatro brasileiro contemporâneo. Ele ia muito ao teatro, conversando com jovens. Eu, pessoalmemte, dirigi uma ópera em 2001, Bis, em São Paulo e o produtor do Paulo era o mesmo produtor da peça, que levou o meu texto para ele ler. Um dia encontrei com o Paulo e ele tinha lido com absoluta atenção e com memória exata o que eu tinha escrito, me sugeriu coisas. Você vê como ele era dedicado, ele era um homem do teatro"
Ricardo Guilherme, ator e criador do Teatro Radical

"Minha última visita ao Paulo foi há cerca de um mês e meio. Ele já tinha tido o enfarte, mas, ainda pensava em voltar ao palco para seguir com a temporada do Avarento. Quando me despedi, o beijei e tive a sensação de que aquela poderia ser a última vez que o via. A minha história com o Paulo começou quando eu era muito novinha. Aos 18 anos, fui bailarina no musical My Fair Lady, com o Paulo e a Bibi Ferreira. Ele sempre gostou muito de mim. Eu prestigiava as estréias dele e o Paulo as minhas. Estou muito triste"
Marília Pêra, atriz

"Nunca mais o teatro brasileiro será o mesmo. Um artista como o Paulo é único e insubstituível. Era um ótimo sujeito. Não tive o prazer de trabalhar com ele, mas é como se tivesse trabalhado porque queria muito bem a ele. Era uma pessoa transparente, honesta. Pessoas como ele deveriam ser imortais"
Domingos Oliveira, dramaturgo

"A última vez que eu vi Paulo foi no início do ano. Ele parecia estar sofrendo. Quando o sofrimento é maior do que a vida, é hora de deixar o corpo descansar. Paulo tinha um grande amor pelo teatro. Tanto que fazia O Avarento, aos 85 anos. Quem tem amor ao teatro tem amor à vida. Esse drama que eu senti nos olhos dele foi a luta entre a vontade de viver e a luta
contra o câncer. Adorava vê-lo no palco fazendo comédia. Lembro dele numa cena de Uma certa cabana. Ele sentado de cuecas, mas 'elegantérrimo', com uma taça de bebida na mão. Ele era um ator tão fantástico que não se fixava em nenhum gênero. Estava maravilhoso em Terra em Transe, em Rei Lear, na novela Guerra dos Sexos (da Rede Globo de Televisão)"
Sérgio Brito, ator

"Nunca tive a felicidade de trabalhar com o Paulo. Fiz aula de canto e impostação de voz com ele e éramos amigos. Lamento muito esta perda, é uma perda muito grande para o Brasil"
Bete Mendes, atriz

"É uma tragédia para o teatro, no sentido de ter perdido o maior de nossos atores. Paulo é o norte de todos nós, um homem que transmitia em suas interpretações a paixão que temos de ter pelo teatro. Era um homem estudioso até o último minuto, que, aos 85 anos, sentia frio na barriga antes de entrar em cena. Ele tinha uma galeria de personagens invejável, passou por todos os gêneros, não permitindo que sua personalidade se sobrepusesse ao personagem. O personagem estava em primeiro lugar"
Marcus Caruso, ator

"Recebemos com imensa tristeza a perda do nosso grande ator Paulo Autran. Ele nos deu o privilégio de apreciar o seu talento em momentos inesquecíveis do teatro, do cinema e da televisão. Paulo Autran engrandeceu a dramaturgia e o Brasil com suas interpretações, que fizeram rir, chorar e refletir. Atuou até seus últimos dias e deixará um vazio que muito sentiremos na cena brasileira. Temos certeza que, de alguma forma, ele estará presente como exemplo de talento da arte dramática para os atores mais jovens"
Nota oficial assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva


Leia mais sobre trajetória, repercussão e obra de Paulo Autran no www.opovo.com.br/conteudoextra/


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