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Vida & Arte

MEMÓRIA

Essência de uma época

Samanta Petersen
Enviada a São Paulo

Edições do jornal Última Hora serão digitalizados e colocados na internet para pesquisa gratuita. Última Hora foi fundado em em 1951, no Rio de Janeiro, pelo jornalista Samuel Wainer e circulou até 1971


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01/10/2007 05:32

Notícias como a morte do então presidente Getúlio Vargas, disponíveis, agora, em versão digital(Foto: divulgação)
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Notícias como a morte do então presidente Getúlio Vargas, disponíveis, agora, em versão digital(Foto: divulgação)

Os jornais são considerados documentos, fonte de pesquisa primária para historiadores e estudiosos, que trazem em suas páginas a essência de uma época. Entretanto para se pesquisar em jornais antigos é preciso recorrer aos arquivos públicos e bibliotecas que nem sempre possuem os periódicos que se procura. A boa notícia é que um projeto do Arquivo Público de São Paulo e a AMD, fabricante de microprocessadores, vai disponibilizar na Internet, gratuitamente, a versão carioca do jornal Última Hora, publicado entre 1951 e 1971.

No site www.arquivoestado.sp.gov.br/uhdigital já é possível encontrar uma mostra do projeto. São 500 páginas digitalizadas, o que equivale a cerca de 20 edições, publicadas entre os anos de 1955 e 1970. Outras mil páginas serão colocadas no ar nos próximos dias. As páginas estão disponibilizadas em formato Gif e poderão ser impressas. A procura das edições será feita por data.

A primeira parte do projeto prevê a digitalização de 36 mil páginas, o que equivale a 60 meses de jornal e deverá estar concluída em março de 2008. E até o final do ano, todas as 108 mil páginas do Última Hora deverão estar disponível para pesquisa.

A origem
Todas as edições que estão sendo digitalizadas fazem parte do Fundo Samuel Wainer, fundador do jornal, adquirido pelo Arquivo Público de São Paulo da filha de Samuel, Pinky Wainer, em 1990. São 246 volumes encadernados da edição carioca do jornal, oito mil negativos, 160 mil cópias fotográficas e 2.162 ilustrações. Além de microfilmes originais dos jornais.

O projeto vai digitalizar apenas as páginas dos jornais. Segundo o coordenador geral do Arquivo Público de São Paulo, Carlos Barcellar, o motivo seriam os direitos autorais que envolvem as fotos, as gravuras e caricaturas, que assim não podem ser digitalizadas de forma separada. As cópias fotográficas e as ilustrações podem ser consultadas na sede do Arquivo Público de São Paulo. Os negativos fotográficos encontram-se indisponíveis à consulta.

Apesar de ser bastante completo, o fundo Samuel Wainer não possui todas as edições do jornal. "Existem algumas lacunas, por exemplo, não temos quase nada dos anos de 1951 e 1952. E para digitalizarmos todas as edições do Última Hora entre os anos de 1951 e 1971 teremos que ir atrás destas edições", destaca Carlos Barcellar.

Antes do projeto de digitalização, as edições cariocas do Última Hora só estavam disponíveis para pesquisa na sede do Arquivo Público de São Paulo. "Uma das linhas de atuação do Arquivo Público é o 'Ensino e a Memória' e com a digitalização do Última Hora estaremos facilitando o trabalho de pesquisa de todas as pessoas em qualquer lugar do mundo ou do Brasil", explica Carlos Barcellar.

Ao Fundo Samuel Wainer foram reunidas as edições paulistas do Última Hora que já pertenciam ao Arquivo Público e que também deverão ser digitalizadas. Com isso serão resgatados a repercussão de fatos históricos como a morte de Getúlio Vargas, o fim dos Beatles, o Golpe de 1964, a inauguração de Brasília, o bicampeonato mundial de futebol e muitos outros que marcaram a história do Brasil e do mundo entre as décadas de 50 e 70.

O Arquivo Público de São Paulo possui ainda boa parte das edições e das fotos do jornal Diário Associados, que inclui o Diário da Noite e o Estado de São Paulo, mas ainda não existe nenhum projeto de digitalização. "Temos vários acervos que merecem tratamentos, mas para isso precisamos fechar parceiras para continuarmos este tipo de trabalho, finaliza Carlos Barcellar.

A jornalista viajou a convite do Arquivo Público de São Paulo e a AMD

LEIA MAIS
Acesse o www.arquivoestado.sp.gov.br/uhdigital e confira o jornal Última Hora digitalizado.


E- Mais

Curiosidades

Fundado em em 1951, no Rio de Janeiro, pelo jornalista Samuel Wainer, o Última Hora circulou até 1971. O Última Hora foi o único jornal brasileiro a ser publicado simultaneamente em sete cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Niterói, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife.

Dentre seus colunistas nomes como Chacrinha, Nelson Rodrigues, Stanilaw Ponte Preta, Agnaldo Silva, Nelson Mota, Inácio Loyola Brandão, Jô Soares, Rubens Braga, dentre outros.
Em 1971, Wainer vendeu a edição carioca para a Arca Editorial e a paulista para a Folha de São Paulo.

De acordo com o artigo 70, da Lei de Imprensa (Lei Nº. 5.250, de 9 de fevereiro de 1967), todos os periódicos nacionais são obrigados a enviar, no prazo de cinco dias, exemplares de suas edições à Biblioteca Nacional e à oficial dos Estados, Territórios e Distrito Federal. E as bibliotecas ficam obrigadas a conservar os exemplares que receberem.

De acordo com o coordenador geral do Arquivo Público de São Paulo, Carlos Barcellar, muitos jornais e revistas brasileiras não cumprem a lei, o que faz com que os arquivos e bibliotecas não resguardem boa parte da história do País e precisem recorrer a arquivos pessoais para recuperá-los.

Sanuel Wainer foi o único jornalista sul-americano presente no julgamento dos generais de Hitler, em Nuremberg, Alemanha, em 1945, e tornou-se uma lenda viva na história e nos rumos da imprensa nacional.

Wainer não escondia que era jornalista e também empresário preocupado com a sobrevivência de seu jornal: deixou claro que sua motivação estava atrelada a um pedido do governo Vargas.

Em 2005, foi relançada sua autobiografia, Minha Razão de Viver: Memórias de Um Repórter, que já havia sido publicada parcialmente em 1987. Desta vez, o livro revelou sua verdadeira nacionalidade: Samuel nasceu na Bessarábia, que foi parte do Império russo e depois uma das repúblicas da ex-União Soviética, situada na Europa Oriental. E as perseguições aos judeus fizeram sua família emigrar para o Brasil, quando ele tinha seis anos de idade.

O jornalista não escreveu suas memórias. Ditou-as em forma de entrevista a dois colegas - Sérgio de Souza e Marta Góes. As fitas gravadas foram transcritas duas décadas mais tarde, pela filha de Samuel com a colunista Danuza Leão, Pinky Wainer, e o texto foi organizado por Augusto Nunes, ex-redator chefe da revista Veja.

Quando Wainer morreu, era colunista da Folha de S.Paulo e membro de seu conselho editorial. Em suas palavras: "Vivi uma experiência humana completa ao cumprir uma trajetória que me permitiu conhecer a ascensão, a glória e a queda".


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