Vida & Arte
ENTREVISTA
O homem que não traiu Saramago
O cineasta George Sluizer fala dos desafios que teve ao adaptar o romance Jangada de Pedra, de José Saramago
29 Set 2007 - 14h57min
No início, Saramago disse não. Quando o cineasta francês naturalizado holandês, George Sluizer, enviou o esboço do roteiro inspirado no romance Jangada de Pedra, o escritor português logo argumentou: "Não acho que você tenha entendido muito bem". O autor não queria ceder suas histórias a Hollywood. Mas Sluizer não desistiu. Viajou até Lanzarote, uma pequena ilha na Espanha, para encontrar Saramago e defender seu ponto de vista. A insistência foi tanta que Sluizer conseguiu ser o primeiro cineasta a adaptar um romance de José Saramago para o cinema. O resultado desembocou no longa-metragem Jangada de Pedra (The Stoneraft/ La Balsa de Piedra), que chegou a ser exibido no Brasil no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo de 2002, mas até agora não foi lançado comercialmente em DVD.
A penosa autorização de Saramago não foi o único entrave do filme. Para arrecadar os US$ 4,5 milhões previsto no orçamento, Sluizer passou três anos de negociações com produtoras cinematográficas da Holanda, Espanha e Portugal. Indiferente às pressões dos executivos para que o longa fosse filmado em inglês, o cineasta rodou a película em dois idiomas - português e espanhol - para manter-se fiel à história de Saramago. No set, Sluizer levou nove semanas para filmar os acontecimentos insólitos narrados no livro, tais como a separação da Península Ibérica do continente europeu, rumo a uma colisão com o Arquipélago de Açores.
Da mesma maneira que o livro, o filme apresenta cinco personagens relacionados ao estranho fenômeno. O farmacêutico Pedro Orce (Federico Luppi) sente a terra tremer, enquanto os sismógrafos não detectam nenhum sinal de tremor. O pescador Joaquim (Diogo Infante) consegue lançar ao mar uma pedra de peso monumental, sem conseguir explicar como. A camponesa Maria (Iciar Bollain) desenrola sem cessar o fio de lã azul de sua meia, enquanto o cão Constante vaga pelas estradas com um novelo de lã da mesma cor. O cão traz à casa de Maria o professor José (Gabino Diego), seguido por um bando de pássaros - mais precisamente de estorninhos - e a astrônoma Joana (Ana Padrão), acompanhada de um misterioso cajado.
Naturalizado holandês, George Sluizer é reconhecido pela dupla filmagem de The Vanishing - a primeira versão, holandesa, lançada no Brasil com o nome O Homem Que Queria Saber, em 1988; e a segunda, norte-americana, que estreou aqui como O Silêncio do Lago, de 1992, com Sandra Bullock, Kiefer Sutherland e Jeff Bridges. O cineasta também deixou inacabado seu thriller erótico Dark Blood (1993), quando o ator principal River Phoenix morreu dez dias antes do término das filmagens. Nos anos 70, Sluizer esteve Brasil para filmar A Faca e o Rio, adaptação do livro de Odylo Costa Filho, com o ator Jofre Soares e a escritora Ana Miranda no elenco. Em entrevista ao O POVO por e-mail, Sluizer fala dos desafios que encontrou ao adaptar o romance de Saramago para as telas. (Camila Vieira)
O POVO - Em seu primeiro contato com o livro Jangada de Pedra, o que mais lhe chamou atenção a ponto de adaptá-lo para o cinema?
George Sluizer - Yvette Biro - com quem escrevi o roteiro - me falou sobre o romance de José Saramago em 1996. Eu li e fiquei encantado com o realismo mágico do livro combinado com poesia e impacto socio-político. Eu gosto da ausência da psicologia clássica.
OP - O senhor precisou discutir bastante com os produtores executivos para que o filme fosse falado em espanhol e em português. Em quais outros momentos você precisou contrariar as exigências dos produtores?
Sluizer - Minha empresa produziu o filme junto com a Sogecine, da Espanha, e a Lusomundo, de Portugal. O processo levou três anos para arrecadar dinheiro, principalmente na Holanda. Espanha e Portugal chegaram depois que eu consegui levantar a maior parte do orçamento na Holanda. Quando o Saramago ganhou o Prêmio Nobel, eu perdi o interesse financeiro da Alemanha e da França - que queriam investir 1,5 milhão de euros - porque os agentes das grandes produtoras e distributoras acreditavam que alguém que conseguiu o Prêmio Nobel de Literatura significava que seu livro filmado seria difícil, intelectual, sofisticado e, como você já deve saber, a indústria cinematográfica geralmente não se interessa em qualidade. O Prêmio Nobel tornou-se uma publicidade negativa, exceto em Portugal e na Espanha. A única contrapartida da Espanha foi exigir três conhecidos atores espanhóis em vez de dois como há no romance. Em relação ao resto, a colaboração em nível de produção foi muito eficiente e agradável. A decisão sobre o idioma do filme em espanhol e em português foi minha - feita assim que o orçamento já estava em minhas mãos.
OP - O livro é repleto de elementos que são difíceis de ser transpostos para a linguagem do cinema. Por exemplo, a Península Ibérica se deslocando geograficamente do resto do continente europeu. O romance se inicia com a narração de alguns casos insólitos - Joana Carda e a vara de negrilho, Joaquim Sassa e o arremesso da pedra ao mar, José Anaiço e os estorninhos, Pedro Orce e o tremor da terra, Maria Guavaira e o fio de lã. Quais desses aspectos do livro foram mais complicados de filmar? Você acha que falhou em algum momento?
Sluizer - Nós fizemos o melhor que podíamos com o dinheiro que tínhamos disponível a respeito dos efeitos visuais e especiais. O mais estressante e problemático foi a seqüência do rachar da terra dos Pirineus: a maior parte feita mecanicamente, com adição de efeitos digitais. Os pássaros também deram bastante trabalho: treinamos 300 estorninhos na África e outros 300 na França. Obviamente, eles não queriam voar no estúdio com fundo verde, da maneira como pedia o roteiro!!! Foi preciso cinco meses para criar e adicionar oito camadas de imagens de computador dos estorninhos sobrepostos ao material real. Nós nunca achamos que falhamos, mas nem tudo sai 100% como a gente quer.
OP - Você levou cinco anos para fazer o filme Jangada de Pedra (The Stoneraft). Imagino que tenha sido muito estressante e caro. Você pensou em desistir do processo?
Sluizer - Seis meses mais ou menos para escrever, três anos para arrecadar o orçamento, nove semanas para filmar e cinco meses de pós-produção. Nunca pensei em desistir, também porque minha esposa e parceira me apoiou nos mais duros e sombrios momentos quando já está cheio de perder minha vida com pessoas desonestas do ramo de negócios.
OP - Como você filmou as seqüências com o cachorro?
Sluizer - O cachorro era um cão selecionado de Madri, treinado para não latir, para colocar lã em sua boca e, ainda assim, correr etc. Ele acabou ficando muito próximo e familiar ao Pedro (Federico Lupi). Quando Pedro morre, o cachorro vai até ele e coloca sua cabeça sobre o rosto de Pedro sem qualquer instrução. De fato, eu não queria o cachorro por perto para não atrapalhar a cena da morte. Cães são mais leais e fiéis que seres humanos. Eles podem consolar você, bem mais que os seres humanos conseguem... Saramago, que tem dois cachorros certamente concordaria. Basta observar o cão de Ensaio Sobre a Cegueira.
OP - O que você sentiu em relação ao romance de Saramago mudou, em algum momento, quando você começou a rodar o filme no set?
Sluizer - Eu escolhi quase todas as locações e elas determinaram bastante, por sua "concreta e real" existência, o que acontecem em torno delas. O filme é menos político que o romance e se foca mais em aspectos filosóficos, culturais e poéticos. Meu processo criativo é algo que não consigo descrever ou analisar. Eu trabalho muito e faço o meu melhor. Sou só eu ou o que me tornei ao longo dos anos. Eu senti que nos tornamos amigos, Saramago e eu, no decorrer do processo. Além disso, como ele me disse, eu não o traí e não tornei o filme "hollywoodiano" como ele esperava do povo do cinema.
OP - Há outros romances que você se interessa em adaptar em projetos futuros?
Sluizer - É claro, mas eu nunca falo sobre o futuro ou dos filmes que pretendo fazer. A indústria cinematográfica é muito insegura e muda muito no pouco tempo que você gasta em prever o futuro. Eu prefiro prever o passado! Mais fácil.
OP - A Jangada de Pedra é o terceiro longa-metragem em português de sua filmografia. Em 1971, o senhor chegou inclusive a vir ao Brazil para filmar a A Faca e o Rio, inspirado no livro de Odylo Costa Filho. Em termos de desafio, quais as principais diferenças e similaridades de adaptação entre A Jangada de Pedra e A Faca e o Rio?
Sluizer - Para mim, há uma forte correlação e similaridade entre A Faca e o Rio e A Jangada de Pedra. Eu me senti profundamente apaixonado pelas duas histórias. A minha paixão com A Faca e o Rio talvez seja um pouco mais madura do que com A Jangada de Pedra. A Faca e o Rio foi feito quase sem dinheiro, com uma equipe bem pequena, com bem poucos equipamentos, com todos os problemas do Brasil em 1971, Odylo me auxiliou como um "pai e amigo", eu me doei ao máximo, quase me matando para completar o filme (perdi 24 quilos durante as filmagens).
OP - Você já afirmou que tem muitas afinidades políticas com Saramago, mas a princípio ele não queria ceder os direitos autorais do livro para o seu filme. Como foi seu primeiro encontro com ele e como você o convenceu?
Sluizer - Sim, eu me sinto próximo aos ideais políticos de Saramago. Fiz três documentários sobre famílias palestinas no período de 12 anos. Lutei contra o apartheid etc.. Digamos que sou um pensador de "esquerda". Eu também ajo de acordo com o que acredito. Saramago não acreditava que gente do meio cinematográfico não fosse corrupto por Hollywood e que sempre mudariam a história por razões comerciais. Saramago tinha comentários críticos acerca do roteiro que mandei pra ele, então eu fui imediatamente visitá-lo em Lanzarote. Bebi uma garrafa de vinho com ele, caminhei com ele e o convenci de que os filmes não necessariamente precisam ter a mesma estrutura que um romance e que isso poderia até beneficiar a história. Ele entendeu e nos tornamos amigos.
OP - Como Saramago reagiu ao filme?
Sluizer - Saramago viu o filme em Lisboa. Eu estava no fundo da sala, ansioso pela reação dele. No fim do filme, ele disse: "Onde você está, George?" Andou em minha direção, me abraçou com lágrimas nos olhos e me agradeceu por não tê-lo traído. "Ele é muito tocante", disse.
OP - O cineasta brasileiro Fernando Meirelles já está filmando Ensaio sobre a Cegueira. Você chegou a ler o livro? Que conselhos você daria a Meirelles sobre a adaptação?
Sluizer - Eu li Ensaio sobre a Cegueira e queria conseguir os direitos para filmar, mas poucos meses antes, dois jovens realizadores canadenses conseguiram (Nota da Redação: Na verdade, os direitos foram adquiridos pela produtora canadense Rhombus Media, que convidou Fernando Meirelles para dirigir o filme, que é uma co-produção entre Brasil, Reino Unido e Japão). Como estava demorando muito tempo para o projeto sair do papel, eu tentei novamente conseguir os direitos: coincidentemente naquele dia o agente de Saramago me disse que o Fernando Meirelles iria rodar o filme. Foi doloroso, mas eu desejo a ele o melhor. Brincando, às vezes digo que o filme poderia se tornar preto (apenas com vozes, ao fundo), com exceção das primeiras cenas...
OP - Para finalizar, quais os maiores desafios de uma adaptação cinematográfica de um livro?
Sluizer - Livros podem ser muito inspiradores. Em vários momentos, eu acho que romances são melhores pontos de partida que roteiros, geralmente pouco bem escrito e pouco bem pensado. Para mim, eu só faço aquilo que sinto que é certo para mim. É claro que a visualização da história é uma coisa importante. Filme é para mim uma forma de arte visual, eu quero que os olhos da audiência respondam a que estão vendo (e ouvindo). O cinema é a única forma de arte onde você pode ver todas as expressões humanas em movimento, mudando de segundo a segundo.
Comente esta entrevista: camilavieira@opovo.com.br
SERVIÇO
Jangada de Pedra - Obra do escritor português José Saramago. Edição Companhia das Letras. Preço médio: R$ 46,00
(!) Leia mais
Sobre biografia de George Sluizer, lista de filmes, roteiros e prêmios do diretor no site: www.georgesluizer.com
(!) Veja também
O trailer do filme Jangada de Pedra pelo link:
www.georgesluizer.com/02-Films-01stoneraft3.htm
A penosa autorização de Saramago não foi o único entrave do filme. Para arrecadar os US$ 4,5 milhões previsto no orçamento, Sluizer passou três anos de negociações com produtoras cinematográficas da Holanda, Espanha e Portugal. Indiferente às pressões dos executivos para que o longa fosse filmado em inglês, o cineasta rodou a película em dois idiomas - português e espanhol - para manter-se fiel à história de Saramago. No set, Sluizer levou nove semanas para filmar os acontecimentos insólitos narrados no livro, tais como a separação da Península Ibérica do continente europeu, rumo a uma colisão com o Arquipélago de Açores.
Da mesma maneira que o livro, o filme apresenta cinco personagens relacionados ao estranho fenômeno. O farmacêutico Pedro Orce (Federico Luppi) sente a terra tremer, enquanto os sismógrafos não detectam nenhum sinal de tremor. O pescador Joaquim (Diogo Infante) consegue lançar ao mar uma pedra de peso monumental, sem conseguir explicar como. A camponesa Maria (Iciar Bollain) desenrola sem cessar o fio de lã azul de sua meia, enquanto o cão Constante vaga pelas estradas com um novelo de lã da mesma cor. O cão traz à casa de Maria o professor José (Gabino Diego), seguido por um bando de pássaros - mais precisamente de estorninhos - e a astrônoma Joana (Ana Padrão), acompanhada de um misterioso cajado.
Naturalizado holandês, George Sluizer é reconhecido pela dupla filmagem de The Vanishing - a primeira versão, holandesa, lançada no Brasil com o nome O Homem Que Queria Saber, em 1988; e a segunda, norte-americana, que estreou aqui como O Silêncio do Lago, de 1992, com Sandra Bullock, Kiefer Sutherland e Jeff Bridges. O cineasta também deixou inacabado seu thriller erótico Dark Blood (1993), quando o ator principal River Phoenix morreu dez dias antes do término das filmagens. Nos anos 70, Sluizer esteve Brasil para filmar A Faca e o Rio, adaptação do livro de Odylo Costa Filho, com o ator Jofre Soares e a escritora Ana Miranda no elenco. Em entrevista ao O POVO por e-mail, Sluizer fala dos desafios que encontrou ao adaptar o romance de Saramago para as telas. (Camila Vieira)
O POVO - Em seu primeiro contato com o livro Jangada de Pedra, o que mais lhe chamou atenção a ponto de adaptá-lo para o cinema?
George Sluizer - Yvette Biro - com quem escrevi o roteiro - me falou sobre o romance de José Saramago em 1996. Eu li e fiquei encantado com o realismo mágico do livro combinado com poesia e impacto socio-político. Eu gosto da ausência da psicologia clássica.
OP - O senhor precisou discutir bastante com os produtores executivos para que o filme fosse falado em espanhol e em português. Em quais outros momentos você precisou contrariar as exigências dos produtores?
Sluizer - Minha empresa produziu o filme junto com a Sogecine, da Espanha, e a Lusomundo, de Portugal. O processo levou três anos para arrecadar dinheiro, principalmente na Holanda. Espanha e Portugal chegaram depois que eu consegui levantar a maior parte do orçamento na Holanda. Quando o Saramago ganhou o Prêmio Nobel, eu perdi o interesse financeiro da Alemanha e da França - que queriam investir 1,5 milhão de euros - porque os agentes das grandes produtoras e distributoras acreditavam que alguém que conseguiu o Prêmio Nobel de Literatura significava que seu livro filmado seria difícil, intelectual, sofisticado e, como você já deve saber, a indústria cinematográfica geralmente não se interessa em qualidade. O Prêmio Nobel tornou-se uma publicidade negativa, exceto em Portugal e na Espanha. A única contrapartida da Espanha foi exigir três conhecidos atores espanhóis em vez de dois como há no romance. Em relação ao resto, a colaboração em nível de produção foi muito eficiente e agradável. A decisão sobre o idioma do filme em espanhol e em português foi minha - feita assim que o orçamento já estava em minhas mãos.
OP - O livro é repleto de elementos que são difíceis de ser transpostos para a linguagem do cinema. Por exemplo, a Península Ibérica se deslocando geograficamente do resto do continente europeu. O romance se inicia com a narração de alguns casos insólitos - Joana Carda e a vara de negrilho, Joaquim Sassa e o arremesso da pedra ao mar, José Anaiço e os estorninhos, Pedro Orce e o tremor da terra, Maria Guavaira e o fio de lã. Quais desses aspectos do livro foram mais complicados de filmar? Você acha que falhou em algum momento?
Sluizer - Nós fizemos o melhor que podíamos com o dinheiro que tínhamos disponível a respeito dos efeitos visuais e especiais. O mais estressante e problemático foi a seqüência do rachar da terra dos Pirineus: a maior parte feita mecanicamente, com adição de efeitos digitais. Os pássaros também deram bastante trabalho: treinamos 300 estorninhos na África e outros 300 na França. Obviamente, eles não queriam voar no estúdio com fundo verde, da maneira como pedia o roteiro!!! Foi preciso cinco meses para criar e adicionar oito camadas de imagens de computador dos estorninhos sobrepostos ao material real. Nós nunca achamos que falhamos, mas nem tudo sai 100% como a gente quer.
OP - Você levou cinco anos para fazer o filme Jangada de Pedra (The Stoneraft). Imagino que tenha sido muito estressante e caro. Você pensou em desistir do processo?
Sluizer - Seis meses mais ou menos para escrever, três anos para arrecadar o orçamento, nove semanas para filmar e cinco meses de pós-produção. Nunca pensei em desistir, também porque minha esposa e parceira me apoiou nos mais duros e sombrios momentos quando já está cheio de perder minha vida com pessoas desonestas do ramo de negócios.
OP - Como você filmou as seqüências com o cachorro?
Sluizer - O cachorro era um cão selecionado de Madri, treinado para não latir, para colocar lã em sua boca e, ainda assim, correr etc. Ele acabou ficando muito próximo e familiar ao Pedro (Federico Lupi). Quando Pedro morre, o cachorro vai até ele e coloca sua cabeça sobre o rosto de Pedro sem qualquer instrução. De fato, eu não queria o cachorro por perto para não atrapalhar a cena da morte. Cães são mais leais e fiéis que seres humanos. Eles podem consolar você, bem mais que os seres humanos conseguem... Saramago, que tem dois cachorros certamente concordaria. Basta observar o cão de Ensaio Sobre a Cegueira.
OP - O que você sentiu em relação ao romance de Saramago mudou, em algum momento, quando você começou a rodar o filme no set?
Sluizer - Eu escolhi quase todas as locações e elas determinaram bastante, por sua "concreta e real" existência, o que acontecem em torno delas. O filme é menos político que o romance e se foca mais em aspectos filosóficos, culturais e poéticos. Meu processo criativo é algo que não consigo descrever ou analisar. Eu trabalho muito e faço o meu melhor. Sou só eu ou o que me tornei ao longo dos anos. Eu senti que nos tornamos amigos, Saramago e eu, no decorrer do processo. Além disso, como ele me disse, eu não o traí e não tornei o filme "hollywoodiano" como ele esperava do povo do cinema.
OP - Há outros romances que você se interessa em adaptar em projetos futuros?
Sluizer - É claro, mas eu nunca falo sobre o futuro ou dos filmes que pretendo fazer. A indústria cinematográfica é muito insegura e muda muito no pouco tempo que você gasta em prever o futuro. Eu prefiro prever o passado! Mais fácil.
OP - A Jangada de Pedra é o terceiro longa-metragem em português de sua filmografia. Em 1971, o senhor chegou inclusive a vir ao Brazil para filmar a A Faca e o Rio, inspirado no livro de Odylo Costa Filho. Em termos de desafio, quais as principais diferenças e similaridades de adaptação entre A Jangada de Pedra e A Faca e o Rio?
Sluizer - Para mim, há uma forte correlação e similaridade entre A Faca e o Rio e A Jangada de Pedra. Eu me senti profundamente apaixonado pelas duas histórias. A minha paixão com A Faca e o Rio talvez seja um pouco mais madura do que com A Jangada de Pedra. A Faca e o Rio foi feito quase sem dinheiro, com uma equipe bem pequena, com bem poucos equipamentos, com todos os problemas do Brasil em 1971, Odylo me auxiliou como um "pai e amigo", eu me doei ao máximo, quase me matando para completar o filme (perdi 24 quilos durante as filmagens).
OP - Você já afirmou que tem muitas afinidades políticas com Saramago, mas a princípio ele não queria ceder os direitos autorais do livro para o seu filme. Como foi seu primeiro encontro com ele e como você o convenceu?
Sluizer - Sim, eu me sinto próximo aos ideais políticos de Saramago. Fiz três documentários sobre famílias palestinas no período de 12 anos. Lutei contra o apartheid etc.. Digamos que sou um pensador de "esquerda". Eu também ajo de acordo com o que acredito. Saramago não acreditava que gente do meio cinematográfico não fosse corrupto por Hollywood e que sempre mudariam a história por razões comerciais. Saramago tinha comentários críticos acerca do roteiro que mandei pra ele, então eu fui imediatamente visitá-lo em Lanzarote. Bebi uma garrafa de vinho com ele, caminhei com ele e o convenci de que os filmes não necessariamente precisam ter a mesma estrutura que um romance e que isso poderia até beneficiar a história. Ele entendeu e nos tornamos amigos.
OP - Como Saramago reagiu ao filme?
Sluizer - Saramago viu o filme em Lisboa. Eu estava no fundo da sala, ansioso pela reação dele. No fim do filme, ele disse: "Onde você está, George?" Andou em minha direção, me abraçou com lágrimas nos olhos e me agradeceu por não tê-lo traído. "Ele é muito tocante", disse.
OP - O cineasta brasileiro Fernando Meirelles já está filmando Ensaio sobre a Cegueira. Você chegou a ler o livro? Que conselhos você daria a Meirelles sobre a adaptação?
Sluizer - Eu li Ensaio sobre a Cegueira e queria conseguir os direitos para filmar, mas poucos meses antes, dois jovens realizadores canadenses conseguiram (Nota da Redação: Na verdade, os direitos foram adquiridos pela produtora canadense Rhombus Media, que convidou Fernando Meirelles para dirigir o filme, que é uma co-produção entre Brasil, Reino Unido e Japão). Como estava demorando muito tempo para o projeto sair do papel, eu tentei novamente conseguir os direitos: coincidentemente naquele dia o agente de Saramago me disse que o Fernando Meirelles iria rodar o filme. Foi doloroso, mas eu desejo a ele o melhor. Brincando, às vezes digo que o filme poderia se tornar preto (apenas com vozes, ao fundo), com exceção das primeiras cenas...
OP - Para finalizar, quais os maiores desafios de uma adaptação cinematográfica de um livro?
Sluizer - Livros podem ser muito inspiradores. Em vários momentos, eu acho que romances são melhores pontos de partida que roteiros, geralmente pouco bem escrito e pouco bem pensado. Para mim, eu só faço aquilo que sinto que é certo para mim. É claro que a visualização da história é uma coisa importante. Filme é para mim uma forma de arte visual, eu quero que os olhos da audiência respondam a que estão vendo (e ouvindo). O cinema é a única forma de arte onde você pode ver todas as expressões humanas em movimento, mudando de segundo a segundo.
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Jangada de Pedra - Obra do escritor português José Saramago. Edição Companhia das Letras. Preço médio: R$ 46,00
(!) Leia mais
Sobre biografia de George Sluizer, lista de filmes, roteiros e prêmios do diretor no site: www.georgesluizer.com
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O trailer do filme Jangada de Pedra pelo link:
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- Os Sertões em meu estômago
- Estrela da noite
- Holofote no underground
- Males que vêm para bem
- Fim de namoro
- Na levada do timbal
- I love Timbalada
- Quem é Fatboy Slim
- Bate-pronto
- Brasil em transe
- Esses caras prometem
- Produtores na rede
- Brechando o Saci
- Entra o Saci, saem as Bruxas
- Novembro dos editais
- Tire dúvidas
- De olho nas novidades
- Montage no Tim
- A dor pelo avesso
- Dança da Maré
- Um passeio de volta
- Um passeio de volta
- Brincadeira de roda
- Cores e latas da diversidade
- Ao cineasta o que é do cineasta, ao escritor o que é do escritor
- Entre a palavra e a imagem
- Os melhores e os piores
- "Até um dia" a Eduardo Campos
- Bibliografia
- Lembranças de chuva
- Para rememorar a história do Ceará
- Um gigante de voz retumbante
- Um homem em três dimensões
- Um trem em movimento
- Viagem definitiva
- Coleção disponível para pesquisadores
- Padre Cícero na Flórida
- Dom Casmurro inspira espetáculo
- Teatro pela arte
- Cadeiras na calçada
- Cidade mutante
- Da Venezuela ao piscinão da Maraponga
- Diversão na rua
- Diálogo sobre uma Fortaleza apartada
- Espaços para a política
- Memória virtual
- "Racionais do século XXI"
- A Viúva Alegre
- Emais
- Meio século no palco
- Música e mercado
- Na vida e no palco
- Quando a música quer sair do gueto
- Lua, estrela e cinema
- Quem é o pai da criança
- Febre de internet
- Negócio certo
- Sociedade de rede
- Brasileiro está lendo mais
- Para incentivar a leitura
- E afinal, a Vila das Artes é para quando?
- Palco improvisado
- Aquela canção do exílio
- Aquela canção do exílio
- As rosas
- Até mais
- Momentos de um Rei leve e solto
- Saudade
- Depoimentos
- Eterno sedutor
- Feira de shows, debates, oficinas e intercâmbios
- Lua cheia de revelações
- A filosofia Simpson
- Springfield é aqui
- IBode: música digital para todos
- Música maid in Ceará
- Escolas de cinema
- Escolas de cinema
- E vai rolar o rock
- Os redutos do som alternativo
- Outro gênio se despede
- Quem foi o cineasta
- Emais
- Face a face
- Filmografia
- O adeus ao mestre
- Pinceladas da memória
- Sobrado sedia exposição
- "Chicleteiros" dominam
- Na cabeça do Fortal
- Para além dos blocos
- A outra praia mansa
- Praia Mansa
- Minha pátria é minha língua
- Programação
- Amigo dos atores
- Romeu do morro, Julieta do asfalto
- A magia do faz de conta
- Cidade das flores amarelas
- Conto de fadas
- Histórias e contos mágicos
- Os velhos contos de fadas cada vez mais novos
- Poética infantil
- Prêmio do Iphan para o Ceará
- À flor da terra
- Companheiros de Potter
- Insatisfação
- Emais
- Poderia ser melhor
- Que a magia esteja com você
- "Menos é mais"
- Bate-pronto
- Faca de dois gumes
- Festa de formatura
- Inversão da lógica
- Melhores momentos
- No agarradiinho
- No camarim com os fãs
- Troca de valores
- Vai ficar na saudade
- Violão e sanfona
- Fendafor dá um passo bem atrás
- Sapatilhas em ação
- De Fortaleza para o mundo
- Site holandês retransmite TVs de 140 países
- Animação
- Forró o ano inteiro
- Forró pé-de-serra e arraiá à beira-mar
- No passo e no rebolado
- Volta às festas jninas
- Festança em dose dupla
- Por que ir para o Arraiá do Comodoro
- Filmografia
- O anjo caído
- A bestialidade humana vista sem "punhos de renda"
- Cadê a manteiga?
- Brasileiro abre mostra competitiva
- Mais longas do festival
- Cearense em Pernambuco
- Um sonho possível
- A conta gotas
- Acervo em Formação
- Santiago na Berlinda
- Sobre o filme
- De corpo (e alma)
- Quem é Clarice
- Adeus à competição
- Em ótima companhia
- Repercussão
- Trio (quase) nordestino
- Os curtas de 2007
- Vencedores ganharão novo troféu
- Ponto de partida
- Retorno do curso está indefinido
- Clássico em destaque
- Na ponta dos pés
- Rebelde numa Fortaleza acanhada
- Saiba mais
- Para mudar o mundo
- Samba e alegoria
- Aranha de preto
- Crise existencial do Homem-Aranha
- Maria cheia de prêmios
- Sonho de cearucho
- Documentário ou não?
- Estranho Sábado
- Um filme quase perdido?
- Uma nova proposta
- Caetano cor de prata
- Cocó lotado para o baiano
- Com toda a mordomia
- Momento de glória e o futuro
- Momento de glória e o futuro
- Momento de glória e o futuro
- Música e encantamento
- Paranóia do futuro
- Quem é Philip K. Dick?
- Até maquiagem
- Banquinho na mão
- Chico de sons e cores
- Crisis no show
- De última hora
- Quero bis
- Vou te dizer: foi lindo
- CÊ vai embalar o sábado
- Semana de Chico & Caetano
- A sedução dos reality shows
- Na era da Super Nanny
- Show da vida
- Vídeos itinerantes
- Do vinil ao mp3
- Nas ondas da memória
- Cem anos depois
- O pecado e a remissão
- O pessoal do Ceará
- Varando cancelas, abrindo porteiras
- O olhar de depois
- Real e virtual
- De sangue e chumbo
- Fé e ideologia
- O cinema e os arquivos da ditadura
- "Judeus novos"
- A união da comunidade
- Diáspora nordestina
- Fascínio e conversão
- O salto de todos nós
- Os filhos de Abraão
- Os judeus do Ceará
- Pequeno dicionário
- No ateliê do Eloy
- O mestre da gravura
- Finalmente!
- Sobre as pendências
- Marca do ferro e do couro
- Pra ver a corte passar
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- Polêmica no Irã
- Chama da infância
- Memória de criança
- Filme autoral tem olhar feminino
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- Dança é reflexão
- Itaú lança novos editais
- Kelméricas
- Melhor que cavalo
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- Quem é Ricardo Kelmer
- Conversas de camarim
- Mês do teatro e do circo
- Aos artistas, as migalhas
- Salão de Maio?
- A explosão psy
- A origem do som
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- No melhor estilo
- Tem dj que é de família
- Filme brasileiro conquista Berlim
- Um milhão de espectadores já viram A Grande Família
- Editais sem recursos
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- Transe e ritmo
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- Para além da difusão
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- Sucesso nos anos 80
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- A pluralidade que vai além da gestão municipal
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- Auto promete gestão bolivariana da cultura
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- Funcet tem nova presidente interina
- Jorge Caldeira redescobre padre que virou banqueiro
- Uma história dos costumes
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- As transformações do lendário de terror
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