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Vida & Arte

ENTREVISTA

O homem que não traiu Saramago

O cineasta George Sluizer fala dos desafios que teve ao adaptar o romance Jangada de Pedra, de José Saramago


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29/09/2007 14:57

Cenas de Jangada de Pedra, adaptação para o cinema feita pelo diretor George Sluizer para a obra de José Saramago (Divulgação)
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Cenas de Jangada de Pedra, adaptação para o cinema feita pelo diretor George Sluizer para a obra de José Saramago (Divulgação)

No início, Saramago disse não. Quando o cineasta francês naturalizado holandês, George Sluizer, enviou o esboço do roteiro inspirado no romance Jangada de Pedra, o escritor português logo argumentou: "Não acho que você tenha entendido muito bem". O autor não queria ceder suas histórias a Hollywood. Mas Sluizer não desistiu. Viajou até Lanzarote, uma pequena ilha na Espanha, para encontrar Saramago e defender seu ponto de vista. A insistência foi tanta que Sluizer conseguiu ser o primeiro cineasta a adaptar um romance de José Saramago para o cinema. O resultado desembocou no longa-metragem Jangada de Pedra (The Stoneraft/ La Balsa de Piedra), que chegou a ser exibido no Brasil no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo de 2002, mas até agora não foi lançado comercialmente em DVD.

A penosa autorização de Saramago não foi o único entrave do filme. Para arrecadar os US$ 4,5 milhões previsto no orçamento, Sluizer passou três anos de negociações com produtoras cinematográficas da Holanda, Espanha e Portugal. Indiferente às pressões dos executivos para que o longa fosse filmado em inglês, o cineasta rodou a película em dois idiomas - português e espanhol - para manter-se fiel à história de Saramago. No set, Sluizer levou nove semanas para filmar os acontecimentos insólitos narrados no livro, tais como a separação da Península Ibérica do continente europeu, rumo a uma colisão com o Arquipélago de Açores.

Da mesma maneira que o livro, o filme apresenta cinco personagens relacionados ao estranho fenômeno. O farmacêutico Pedro Orce (Federico Luppi) sente a terra tremer, enquanto os sismógrafos não detectam nenhum sinal de tremor. O pescador Joaquim (Diogo Infante) consegue lançar ao mar uma pedra de peso monumental, sem conseguir explicar como. A camponesa Maria (Iciar Bollain) desenrola sem cessar o fio de lã azul de sua meia, enquanto o cão Constante vaga pelas estradas com um novelo de lã da mesma cor. O cão traz à casa de Maria o professor José (Gabino Diego), seguido por um bando de pássaros - mais precisamente de estorninhos - e a astrônoma Joana (Ana Padrão), acompanhada de um misterioso cajado.

Naturalizado holandês, George Sluizer é reconhecido pela dupla filmagem de The Vanishing - a primeira versão, holandesa, lançada no Brasil com o nome O Homem Que Queria Saber, em 1988; e a segunda, norte-americana, que estreou aqui como O Silêncio do Lago, de 1992, com Sandra Bullock, Kiefer Sutherland e Jeff Bridges. O cineasta também deixou inacabado seu thriller erótico Dark Blood (1993), quando o ator principal River Phoenix morreu dez dias antes do término das filmagens. Nos anos 70, Sluizer esteve Brasil para filmar A Faca e o Rio, adaptação do livro de Odylo Costa Filho, com o ator Jofre Soares e a escritora Ana Miranda no elenco. Em entrevista ao O POVO por e-mail, Sluizer fala dos desafios que encontrou ao adaptar o romance de Saramago para as telas. (Camila Vieira)


O POVO - Em seu primeiro contato com o livro Jangada de Pedra, o que mais lhe chamou atenção a ponto de adaptá-lo para o cinema?
George Sluizer - Yvette Biro - com quem escrevi o roteiro - me falou sobre o romance de José Saramago em 1996. Eu li e fiquei encantado com o realismo mágico do livro combinado com poesia e impacto socio-político. Eu gosto da ausência da psicologia clássica.

OP - O senhor precisou discutir bastante com os produtores executivos para que o filme fosse falado em espanhol e em português. Em quais outros momentos você precisou contrariar as exigências dos produtores?
Sluizer - Minha empresa produziu o filme junto com a Sogecine, da Espanha, e a Lusomundo, de Portugal. O processo levou três anos para arrecadar dinheiro, principalmente na Holanda. Espanha e Portugal chegaram depois que eu consegui levantar a maior parte do orçamento na Holanda. Quando o Saramago ganhou o Prêmio Nobel, eu perdi o interesse financeiro da Alemanha e da França - que queriam investir 1,5 milhão de euros - porque os agentes das grandes produtoras e distributoras acreditavam que alguém que conseguiu o Prêmio Nobel de Literatura significava que seu livro filmado seria difícil, intelectual, sofisticado e, como você já deve saber, a indústria cinematográfica geralmente não se interessa em qualidade. O Prêmio Nobel tornou-se uma publicidade negativa, exceto em Portugal e na Espanha. A única contrapartida da Espanha foi exigir três conhecidos atores espanhóis em vez de dois como há no romance. Em relação ao resto, a colaboração em nível de produção foi muito eficiente e agradável. A decisão sobre o idioma do filme em espanhol e em português foi minha - feita assim que o orçamento já estava em minhas mãos.

OP - O livro é repleto de elementos que são difíceis de ser transpostos para a linguagem do cinema. Por exemplo, a Península Ibérica se deslocando geograficamente do resto do continente europeu. O romance se inicia com a narração de alguns casos insólitos - Joana Carda e a vara de negrilho, Joaquim Sassa e o arremesso da pedra ao mar, José Anaiço e os estorninhos, Pedro Orce e o tremor da terra, Maria Guavaira e o fio de lã. Quais desses aspectos do livro foram mais complicados de filmar? Você acha que falhou em algum momento?
Sluizer - Nós fizemos o melhor que podíamos com o dinheiro que tínhamos disponível a respeito dos efeitos visuais e especiais. O mais estressante e problemático foi a seqüência do rachar da terra dos Pirineus: a maior parte feita mecanicamente, com adição de efeitos digitais. Os pássaros também deram bastante trabalho: treinamos 300 estorninhos na África e outros 300 na França. Obviamente, eles não queriam voar no estúdio com fundo verde, da maneira como pedia o roteiro!!! Foi preciso cinco meses para criar e adicionar oito camadas de imagens de computador dos estorninhos sobrepostos ao material real. Nós nunca achamos que falhamos, mas nem tudo sai 100% como a gente quer.

OP - Você levou cinco anos para fazer o filme Jangada de Pedra (The Stoneraft). Imagino que tenha sido muito estressante e caro. Você pensou em desistir do processo?
Sluizer - Seis meses mais ou menos para escrever, três anos para arrecadar o orçamento, nove semanas para filmar e cinco meses de pós-produção. Nunca pensei em desistir, também porque minha esposa e parceira me apoiou nos mais duros e sombrios momentos quando já está cheio de perder minha vida com pessoas desonestas do ramo de negócios.

OP - Como você filmou as seqüências com o cachorro?
Sluizer - O cachorro era um cão selecionado de Madri, treinado para não latir, para colocar lã em sua boca e, ainda assim, correr etc. Ele acabou ficando muito próximo e familiar ao Pedro (Federico Lupi). Quando Pedro morre, o cachorro vai até ele e coloca sua cabeça sobre o rosto de Pedro sem qualquer instrução. De fato, eu não queria o cachorro por perto para não atrapalhar a cena da morte. Cães são mais leais e fiéis que seres humanos. Eles podem consolar você, bem mais que os seres humanos conseguem... Saramago, que tem dois cachorros certamente concordaria. Basta observar o cão de Ensaio Sobre a Cegueira.

OP - O que você sentiu em relação ao romance de Saramago mudou, em algum momento, quando você começou a rodar o filme no set?
Sluizer - Eu escolhi quase todas as locações e elas determinaram bastante, por sua "concreta e real" existência, o que acontecem em torno delas. O filme é menos político que o romance e se foca mais em aspectos filosóficos, culturais e poéticos. Meu processo criativo é algo que não consigo descrever ou analisar. Eu trabalho muito e faço o meu melhor. Sou só eu ou o que me tornei ao longo dos anos. Eu senti que nos tornamos amigos, Saramago e eu, no decorrer do processo. Além disso, como ele me disse, eu não o traí e não tornei o filme "hollywoodiano" como ele esperava do povo do cinema.

OP - Há outros romances que você se interessa em adaptar em projetos futuros?
Sluizer - É claro, mas eu nunca falo sobre o futuro ou dos filmes que pretendo fazer. A indústria cinematográfica é muito insegura e muda muito no pouco tempo que você gasta em prever o futuro. Eu prefiro prever o passado! Mais fácil.

OP - A Jangada de Pedra é o terceiro longa-metragem em português de sua filmografia. Em 1971, o senhor chegou inclusive a vir ao Brazil para filmar a A Faca e o Rio, inspirado no livro de Odylo Costa Filho. Em termos de desafio, quais as principais diferenças e similaridades de adaptação entre A Jangada de Pedra e A Faca e o Rio?
Sluizer - Para mim, há uma forte correlação e similaridade entre A Faca e o Rio e A Jangada de Pedra. Eu me senti profundamente apaixonado pelas duas histórias. A minha paixão com A Faca e o Rio talvez seja um pouco mais madura do que com A Jangada de Pedra. A Faca e o Rio foi feito quase sem dinheiro, com uma equipe bem pequena, com bem poucos equipamentos, com todos os problemas do Brasil em 1971, Odylo me auxiliou como um "pai e amigo", eu me doei ao máximo, quase me matando para completar o filme (perdi 24 quilos durante as filmagens).

OP - Você já afirmou que tem muitas afinidades políticas com Saramago, mas a princípio ele não queria ceder os direitos autorais do livro para o seu filme. Como foi seu primeiro encontro com ele e como você o convenceu?
Sluizer - Sim, eu me sinto próximo aos ideais políticos de Saramago. Fiz três documentários sobre famílias palestinas no período de 12 anos. Lutei contra o apartheid etc.. Digamos que sou um pensador de "esquerda". Eu também ajo de acordo com o que acredito. Saramago não acreditava que gente do meio cinematográfico não fosse corrupto por Hollywood e que sempre mudariam a história por razões comerciais. Saramago tinha comentários críticos acerca do roteiro que mandei pra ele, então eu fui imediatamente visitá-lo em Lanzarote. Bebi uma garrafa de vinho com ele, caminhei com ele e o convenci de que os filmes não necessariamente precisam ter a mesma estrutura que um romance e que isso poderia até beneficiar a história. Ele entendeu e nos tornamos amigos.

OP - Como Saramago reagiu ao filme?
Sluizer - Saramago viu o filme em Lisboa. Eu estava no fundo da sala, ansioso pela reação dele. No fim do filme, ele disse: "Onde você está, George?" Andou em minha direção, me abraçou com lágrimas nos olhos e me agradeceu por não tê-lo traído. "Ele é muito tocante", disse.

OP - O cineasta brasileiro Fernando Meirelles já está filmando Ensaio sobre a Cegueira. Você chegou a ler o livro? Que conselhos você daria a Meirelles sobre a adaptação?
Sluizer - Eu li Ensaio sobre a Cegueira e queria conseguir os direitos para filmar, mas poucos meses antes, dois jovens realizadores canadenses conseguiram (Nota da Redação: Na verdade, os direitos foram adquiridos pela produtora canadense Rhombus Media, que convidou Fernando Meirelles para dirigir o filme, que é uma co-produção entre Brasil, Reino Unido e Japão). Como estava demorando muito tempo para o projeto sair do papel, eu tentei novamente conseguir os direitos: coincidentemente naquele dia o agente de Saramago me disse que o Fernando Meirelles iria rodar o filme. Foi doloroso, mas eu desejo a ele o melhor. Brincando, às vezes digo que o filme poderia se tornar preto (apenas com vozes, ao fundo), com exceção das primeiras cenas...

OP - Para finalizar, quais os maiores desafios de uma adaptação cinematográfica de um livro?
Sluizer - Livros podem ser muito inspiradores. Em vários momentos, eu acho que romances são melhores pontos de partida que roteiros, geralmente pouco bem escrito e pouco bem pensado. Para mim, eu só faço aquilo que sinto que é certo para mim. É claro que a visualização da história é uma coisa importante. Filme é para mim uma forma de arte visual, eu quero que os olhos da audiência respondam a que estão vendo (e ouvindo). O cinema é a única forma de arte onde você pode ver todas as expressões humanas em movimento, mudando de segundo a segundo.

Comente esta entrevista: camilavieira@opovo.com.br


SERVIÇO

Jangada de Pedra - Obra do escritor português José Saramago. Edição Companhia das Letras. Preço médio: R$ 46,00

(!) Leia mais
Sobre biografia de George Sluizer, lista de filmes, roteiros e prêmios do diretor no site: www.georgesluizer.com

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O trailer do filme Jangada de Pedra pelo link:
www.georgesluizer.com/02-Films-01stoneraft3.htm

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