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Vida & Arte

EXPOSIÇÃO

Reco-Reco, Bolão e Azeitona

Eleuda de Carvalho
da Redação

O CCBNB apresenta, a partir de hoje, a mostra Luiz Sá - 100 Anos, em homenagem ao artista cearense que revolucionou os quadrinhos brasileiros. Desenhos, filmes, revistas e muito mais, na exposição aberta ao público até novembro


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18/09/2007 01:21


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Olhando a fotografia, é mesminho que estar vendo a caricatura assinada pelo Mendez. O cabelo gomalinado, partido meio de banda, o bigodinho bem penteado, o alinhado paletó, um olhar de galã das novelas de rádio, então no auge. No retrato em preto-e-branco, Luiz Sá degusta os primeiros bons-bocados do sucesso, na flor dos 27 anos de idade. O cearense de Fortaleza, nascido em 1907, é o criador de Reco-Reco, Bolão e Azeitona, três amigos do barulho que animaram a infância de muita gente boa, entre as décadas de 30 e 50, na publicação semanal O Tico-Tico. Além do trio famoso, Luiz Sá deixou sua marca registrada - o seu traço redondinho - em uma centena de personagens, que escapuliram das revistas em quadrinhos para outros meios, como o áudio-visual. Para celebrar o centenário de nascimento do artista, o Centro Cultural Banco do Nordeste do Brasil - CCBNB promove a exposição Luiz Sá 100 Anos, que tem curadoria do artista plástico Weaver Lima. A abertura será logo mais, às sete da noite.

No diversificado material que Weaver Lima pesquisou e trouxe para a exposição, está inclusive o documentário feito 40 anos depois daquele retrato do artista quando jovem. O estreante Roberto Machado Jr. encontra o esquecido Luiz Sá em 1975, o peito magro de tísico sob o pijama azul do hospital onde está internado. No ano seguinte, já recuperado, Luiz Sá volta à cidade natal, para rever o mano, Francisco das Chagas. É nessa ocasião que ele grava depoimento ao pesquisador Nirez e ao jornalista Eliézer Rodrigues. A visita inspirou ao artista o desenho Recordação de um Cabeça-Chata, que pode ser visto na exposição. A legenda que ele escreveu diz: "Fortaleza como te vi em 1929 e a vejo agora, 1978". No balão da lembrança, um pedaço de rua, calçada de pedra, com casas vizinhas, de porta e janela. Em contraste, a onda de arranha-céus que começava a mudar a feição da cidade. Luiz Sá morreu no Rio de Janeiro, em 1979, sobre a prancheta em que desenhava um casal de seus bonequinhos arredondados.

NETO DE PEIXE...
Luiz Sá herdou o nome e o talento do avô, Luiz Félix Sá (1845-1898), o Corregio del Sarto da famosa Padaria Espiritual. O neto nasceu em Fortaleza no dia 28 de setembro de 1907, 11 anos depois da morte do avô. Aos 20, começaria a divulgar seus desenhos em anúncios e clichês de jornais. Sua maestria para a caricatura fica patente na exposição que fez, em 1929, com personalidades do Ceará. No mesmo ano, vai morar no Rio de Janeiro. Para ganhar a vida, foi pedreiro, encerador de chão e até vigia do Hospital da Gamboa. Durante o trabalho noturno, lia e desenhava. Logo estaria estampando seu talento nas páginas de revistas e jornais cariocas.

Inspirado em amigos da infância, Luiz Sá criou o trio Reco-Reco, Bolão e Azeitona, que logo seria publicado em tirinhas na mais famosa revista de quadrinhos brasileiros (e a pioneira), O Tico-Tico, criada em 1905. Além dos três amigos encrenqueiros, Luiz Sá criou também os personagens Louro, Totó e Catita (um papagaio, um cachorro e um cassaco), o Pinga-Fogo (uma espécie de Sherlock Holmes), o Peteleco, a Maria Fumaça - uma pretinha com laço vermelho no pixaim e dente de ouro. E ainda tem outro papagaio, o Faísca (bem anterior ao Zé Carioca de Walt Disney, vale ressaltar), e a Formiguinha Inteligente. No final dos anos 30, Luiz Sá desenvolve o desenho animado Aventuras de Virgulino. Foram as décadas de ouro do artista, as de 30 e 40. Seus desenhos, cartuns e charges ilustravam jornais, revistas e almanaques, e contavam, de modo divertido, as histórias do Brasil. Além dos fatos históricos, a Bíblia, os ditados populares e os tipos nordestinos serviram à inspiração do artista, especialmente nas séries temáticas publicadas nas revistas semanais Eu Vi e O Malho.

O BONEQUINHO
Mesmo que os contemporâneos desconheçam, Luiz Sá está presente todo dia no jornal O Globo. Foi ele quem, em 1938, criou o bonequinho em negrito que bate palmas ou dorme de apatia nas críticas de cinema do jornal (traço depois reformulado pelo desenhista Marcelo Monteiro). A ligação do artista com o cinema não se restringe ao bonequinho crítico nem parou naquele pioneiro e inédito desenho sobre Lampião. Em 1939, Luiz Sá começou a fazer cartuns para ilustrar matérias esportivas veiculadas nos cinejornais que antecediam as sessões de cinema. Além disso, Luiz Sá chegou a fazer pontas em algumas chanchadas da Atlântida. Mas incrível mesmo é um artista do desenho ter trabalhado com um meio que dispensa a imagem: o rádio.

Cartões postais, figurinhas de chiclete, cenário para teatro de revista. De tudo um pouco Luiz Sá fez. Porém, a partir da década de 50, não apenas o seu trabalho autoral mas o de outros cartunistas e quadrinistas brasileiros foi para escanteio, com a entrada triunfal dos super-heróis norte-americanos e, especialmente, do universo disneyano. Só bem mais tarde, na década de 70, o quadrinho nacional tomaria fôlego outra vez. Mas, para Luiz Sá, o homem, já era tarde. O artista não, que é imortal.


SERVIÇO

Luiz Sá, 100 Anos - Exposição temática sobre o artista cearense, com curadoria de Weaver Lima. De 18 de setembro a 4 de novembro, no Centro Cultural Banco do Nordeste - CCBNB (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro). A exposição pode ser vista de terça a sábado, de 10h às 20h, e aos domingos, de 10h às 18h. A abertura será nesta terça, 18, às 19h. Grátis. Inf.: 3464.3108 ou no endereço www.bnb.gov.br/cultura


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