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A viagem de volta

O memorial da cultura cearense recebe, a partir do próximo dia 20, a exposição Os Primeiros Brasileiros. Por meio de objetos, fotos, vídeos e instalações, o curador João Pacheco de Oliveira pretende contar uma outra história indígena


14 Set 2007 - 01h46min

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João Pacheco de Oliveira, antropólogo, é curador da exposição Os Primeiros Brasileiros que está em fase de montagem no Dragão do Mar (Foto: Edimar Soares)
No início, eles eram tantos que até hoje a conta é incerta. No século XIX eles foram declarados tão poucos que oficialmente desapareceram do território brasileiro. Mas, como a história se faz é do confronto, a literatura brasileira deu o troco. E pela mão de um cearense, José de Alencar, Iracema surge no romance que calcou a formação de uma identidade nacional a partir da junção de povos, incluindo o indígena. Mas o feito é pouco. Até este exato momento em que você lê esse texto, no entanto, o índio brasileiro parece encoberto quando o assunto é a participação ativa desse povo na cultura e sociedade brasileiras. O que o antropólogo e professor do Museu Nacional do Rio de Janeiro João Pacheco de Oliveira se propõe a contar é uma história do índio que derrube a oca construída à base de um discurso que primitiviza, infantiliza e joga no pretérito a cultura indígena. Depois de Recife, essa narrativa será contada em Fortaleza a partir do dia 20 quando será aberta a exposição Os Primeiros Brasileiros, no Memorial da Cultura Cearense, no Centro Dragão do Mar.

"Digo que é uma antiexposição", inicia a conversa o antropólogo, professor visitante da Fundação Joaquim Nabuco e curador do material que levou um ano de pesquisa, viagens e coleta de objetos. No início desta semana ele desembarcou na Capital com os caixotes lotados de um conteúdo que conta a contra-história dos primeiros ocupantes do Brasil. Indumentárias, armas, objetos do cotidiano, registros fotográficos, vídeos, músicas, documentários e instalações formam o acervo que será disposto em quatro salas do Memorial e ficará aberto à visitação até 30 de dezembro. "O que pretendemos é mostrar que a cultura indígena tem um significado muito diferente do que historicamente foi concebido pelos livros a partir dos olhos e relatos de uma elite estrangeira que via nos povos indígenas do Brasil uma cultura primitiva e incivilizada", explica o Pacheco, que já viveu como pesquisador entre os índios no Amazonas em períodos alternados por mais de 20 anos.

Para abalar os pilares simbólicos que foram sendo bordados nos últimos 507 anos sobre os povos indígenas, Pacheco foi ler e reler os próprios documentos oficiais. "A participação do índio na vida e na cultura nacional está muito presente no processo de formação do povo brasileiro. A gente pensa que os documentos negam isso, mas não. Os índios não desapareceram. Eles continuam lá. Os viajantes falam dos índios e muitos documentos oficiais trazem relatos que envolvem os índios como personagens atuantes nas relações com os demais povos", afirma. E lembra: "Vários viajantes fizeram relatos sobre os índios com um certo caráter de deslumbramento, se referem a eles como uma civilização apreciável que, em alguns momentos, chega a rivalizar com a européia. Veja o caso das armas, por exemplo, quando eles constroem equipamentos de defesa considerados modernos para a época".

João Pacheco considera que o terreno está fértil para recontar essa história. O movimento mundial que está se fortalecendo em todo o Ocidental em torno das identidades é favorável a um novo pensar sobre os índios brasileiros. "Existe uma organização em vários segmentos de valorização das culturas identitárias, como a que acontece com os povos negros, por exemplo, que mostram muito claramente que as tradições cultural apontam para o futuro e não o passado. Entre os índios esse movimento é claro. Os mais jovens estão percebendo e tendo orgulho das suas diferenças e sentem que isso é valorizado no mundo contemporâneo".


SERVIÇO

Os Primeiros Brasileiros - Exposição com a curadoria de João Pacheco de Oliveira será aberta dia 20 no Memorial da Cultura Cearense, no Centro Dragão do Mar.

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