Lygia Fagundes Telles acaba de lançar novo livro. Em Conspiração de Nuvens (Rocco), a escritora paulista oferece ao leitor mais um bom bocado de seus contos - feitos de memória, invenção e arte
13/09/2007 02:25

Ela mesma atende a ligação. Reconheço o timbre - cálido e firme - da escritora Lygia Fagundes Telles. Uma conversa sobre Conspiração de Nuvens (Rocco), lançado no último dia primeiro. Recordo o primeiro encontro. Uma tarde fria, na Bienal do Livro de São Paulo. Lygia, elegante e bela, os olhos negros, o cigarro. Falava de sua arte, de sua peleja, terçando palavras: justiça e liberdade. Não se lembrou de mim (por que deveria?), mas quando falo: sou de Fortaleza, ah, senti um sorriso do lado de lá! E quando, metida, digo que sou amiga da escritora Ana Miranda (que era sua vizinha, antes de voltar ao Ceará), pronto. É como se eu estivesse em sua porta e ela dissesse, pode entrar, fique à vontade. "Eu gosto muito da Ana, uma amiga exemplar. Além de bonita, escreve muito bem".
"Já dobrei o Cabo da Boa Esperança, como dizia minha mãe", emenda, quase uma queixa?, em contraste à voz, sem cansaço. (Mas foi depois do Cabo da Boa Esperança que o navegante achou o caminho do Oriente. O único jeito de chegar lá é viver bastante). Lygia Fagundes Telles, signo de áries, completou 84 anos. O livro novo, mescla de contos, lembranças. Aonde apartar uma coisa de outra? "É difícil separar a ficção da invenção, a fantasia da memória. Não há uma linha separando o que você viu do que você sonhou. A imaginação ocupa o espaço da memória. Este livro é justamente essa mistura".
E exemplifica logo com o conto que dá título ao livro, Conspiração de Nuvens. "É completamente real. Fomos ao Ministério da Justiça, em Brasília, entregar o abaixo-assinado dos mil intelectuais contra a censura. Foi em 1976". Lygia estava de férias, com o segundo marido, o cineasta Paulo Emílio Salles Gomes, que fundou a Cinemateca Brasileira, quando o telefone toca. Era Rubem Fonseca, convocando a escritora para ir a Brasília, com um grupo de intelectuais, entregar o Manifesto dos Mil (encabeçando a lista, Antonio Cândido e Sérgio Buarque de Hollanda). O ministro não os recebeu. Eram tempos tão duros. E a tortura brutal.
Voltamos ao ponto inicial, a questão entre realidade e ficção, tema presente em alguns dos seus livros, desde Antes do baile verde, de 1970. "Tem uma frase de Aristóteles de que gosto muito. É assim: - a História, com agá maiúsculo, conta o que aconteceu. A poesia, o que deveria ou poderia ter acontecido". O conto Era uma noite fria, por exemplo, do livro novo. "Realmente, um dia, encontrei um cachorro que me seguiu. Este cachorro talvez fosse eu mesma, me procurando". O primeiro conto, Elzira, ela própria confessa, nas linhas iniciais: é "uma história verdadeira, contada por minha mãe". Em Bolas de Sabão, ela reflete, nesta conversa íntima com o leitor. "É complicado lidar com a memória enleada na invenção", escreve. E complementa, adiante - "a lenda é sedutora". (Neste texto, Lygia volta à infância, quando fazia bolas de sabão, soprando em talos de mamoeiro...).
O conto-memorial Álvares de Azevedo, sobre uma palestra que ela fez na Casa do Estudante, no Rio, lembrando três ex-alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, onde Lygia também se formou: Álvares de Azevedo, Castro Alves e Fagundes Varela. "Os três poetas da minha juventude. Os poetas da minha maturidade são Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. E, também, Cecília Meireles. Repare que estou citando mortos... Fui pra China, certa vez, eu viajava muito. Depois, fui a Lisboa. Chegando lá, um jornalista me perguntou os meus autores portugueses prediletos. Na afobação, citei três ou quatro e esqueci daquele que estava me esperando, no aeroporto. Os mortos não cobram...", diz Lygia, com malícia e graça.
Em Fim de Primavera, lembrança da livraria Jaraguá, e sua experiência como atriz, no Grupo de Teatro Experimental, criado por Alfredo Mesquita e Décio de Almeida Prado. Da infância, tão presente neste Conspiração de Nuvens, os contos A Quermesse, O Trem (no qual há um pequeno conto meio de suspense, meio policial, delicioso). Em A farda, ela e o pai (Durval de Azevedo Fagundes), entre o vinho e o pão. E a história da farda de Henrique Benevenuto de Azevedo Fagundes, Coronel da Guarda Nacional do Imperador, avô da escritora. Entre tantos mortos queridos, ressalta a figura do seu grande amor. "Lembrando Paulo Emílio Salles Gomes, uma frase dele que acho muito importante. Diz muito sobre o Brasil, tão miserável e tão maravilhoso, ele dizia. Paulo Emílio repetia muito esta frase, falando em relação ao cinema: 'O Brasil se interessa pouco pelo próprio passado. Esta atitude saudável exprime a vontade de escapar à maldição do atraso e da miséria'. Não é interessante?".
E, "combinando com o que o Paulo disse, a frase de Antonio Cândido, meu amigo: - Comparada às mais importantes literaturas, a nossa é pobre e fraca. Mas é ela e não outra que nos exprime. Se não for amada, não revelará sua mensagem. E se não a amarmos, ninguém o fará por nós". Então, lembro uma frase dela, que ouvi, de viva voz, naquela Bienal. Ela me corrige a memória tosca, faz questão de dizer, ela mesma, a frase que, "desde a minha juventude, está intacta, uma pedra que não desgastou: o dia em que o Brasil tiver mais creches e mais escolas, o Brasil terá menos hospitais e menos cadeias". E conclui: "Minha missão era esta, ficar repetindo esta frase. Espero ter ajudado. Fiz o que pude. Vou citar Camões: - Estou em paz com a minha guerra. Este esforço que fazemos, lendo e tentando ajudar nosso País, não tem pagamento. O pagamento é nossa alegria".
Para arrematar com poesia, Lygia recorda o poema do poeta português Sebastião da Gama, "que morreu jovem, como nossos poetas românticos. Olha que versos lindos. Escrevi no meu discurso na entrega do Prêmio Camões (em 2005)". E dita, pausadamente, com a sua bela voz: "É pelo Sonho que vamos/ comovidos e mudos./ Chegamos? Não chegamos?/ Haja ou não frutos/ é pelo Sonho que vamos". E dedica os versos "a Fortaleza, que amo tanto". O dia ficou mais lindamente azul.
SERVIÇO
Conspiração de nuvens - Lygia Fagundes Telles. Lançamento da editora Rocco. R$ 22.
Saiba mais
- No site Portal Literal (curadoria de Heloísa Buarque de Holanda), o leitor encontra-se com Lygia Fagundes Telles: em textos, imagens, cartas, "lado B", Sampa... O site Releituras também tem uma página sobre a escritora. Confira os endereços:
www.portalliteral.terra.com.br/ligia_fagundes_telles
www.releituras.com/lftelles
E-MAIS
OBRAS DE LFT
- Porão e sobrado (primeiro livro publicado pela autora, em 1938)
- Praia viva (contos, 1944)
- O cacto vermelho (1949. Prêmio Afonso Arinos)
- Ciranda de pedra (1953, romance)
- Histórias do desencontro (contos, 1958)
- Verão no aquário (1962, romance)
- O jardim selvagem (1965, contos)
- Antes do baile verde (1970, Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros- França)
- As meninas (1973. Prêmios ABL, Jabuti e APCA)
- Seminário de ratos (1977, contos)
- Filhos pródigos/A estrutura da bolha de sabão (1978)
- A disciplina do amor (1980)
- As horas nuas (1989, romance)
- A noite escura e mais eu (1995. Prêmios: Biblioteca Nacional, Jabuti e APLUB)
- Invenção e Memória (2001, Prêmio Jabuti)