Vida & Arte
PATRIMÔNIO HISTÓRICO
De porta abertas
Apesar das condições físicas inadequadas e da falta de investimentos, a diretora Ângela Gutiérrez pretende transformar a casa de José de Alencar em Centro de Referência Nacional. No próximo dia 2, a instituição recebe acervos de Moreira Campos e Natércia Campos
Juliana Girão
Especial para O POVO
12 Set 2007 - 01h46min
Num caminhada pelos espaços do sítio - que conta com a Pinacoteca Floriano Martins, o Museu Arthur Ramos, a Biblioteca Braga Montenegro, a 'casinha' onde nasceu Alencar e as ruínas do primeiro engenho a vapor do Ceará - as portas ainda encontravam-se trancadas. Os antigos problemas podiam ser (re)vistos: cupins, infiltrações, condições climáticas inadequadas para conservação do acervo, edificações sem adaptação para pessoas com deficiência, falta de computadores em rede. O restaurante, mesmo com uma reforma geral, mantinha-se fechado, por falta de interesse de comerciantes, segundo a diretora. Mas uma nova licitação para ocupação da cantina está disponível e acontecerá no próximo dia 8 de outubro. Apesar dos pesares, era bonito se ver, naquela véspera de feriado, dezenas de crianças da escola ABC Infantil ocupando os espaços verdes do sítio para uma caminhada em referência ao grito do Ipiranga. São os alunos da rede municipal e estadual os principais responsáveis pela freqüência do lugar, cerca de oito mil pessoas por ano, de acordo com a direção.
Para a diretora, a casa "não está em condições ótimas, mas está em condições dignas". Segundo Ângela Gutiérrez, a proposta é transformar o espaço - tombado Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1964 - em centro de estudos e pesquisas de referência nacional em José de Alencar e em escritores cearenses. "Não é só meramente limpar e deixar bonitinho para o visitante chegar. Queremos que a casa tenha um peso cultural, de pesquisa, de estudos", diz. O desejo vem desde 2003, quando Angela Gutiérrez assumiu a presidência do ICA e passou a capitanear o estímulo às pesquisas em torno dos temas alencarianos.
De lá para cá, a diretora acredita que o complexo sofreu grandes modificações (não só físicas) e viveu um período de renovação, incluindo a realização de dois simpósios nacionais e de publicações como Iracema - Lenda do Ceará 140 anos (Editora UFC). "Nós já fizemos muito, mas ainda há muito por fazer", acredita. De acordo com a diretora, a casa passará a contar com o Núcleo de Estudos Alencarianos, o Arquivo do Escritor Cearense, um programa editorial e outro de bolsas. Atualmente oito bolsistas realizam o levantamento de obras de José de Alencar em bibliotecas públicas e particulares (para futuras aquisições), e o Arquivo do Escritor Cearense, organizado pela professora Neuma Cavalcante, dá o primeiro passo ao receber oficialmente, no próximo dia 2 de outubro, em cerimônia na reitoria, acervos de Moreira Campos e Natércia Campos. Uma sala deve ser preparada no sítio para receber o material permanentemente.
Entusiasmada, Angela Gutiérrez conta que o momento frente ao equipamento é de "work in progress". "É uma casa que está trabalhando", garante, ao lado da diretora cultural Vera Moraes, que acompanhou a visita do O POVO. Gutiérrez explica que, mesmo no período de greve, esteve trabalhando em cima de um levantamento das condições físicas do edifício-sede - enviado recentemente ao reitor Ícaro Moreira - e, especialmente, em projetos para a casa. Agora, segundo ela, é hora de encaminhá-los e procurar financiamentos. Para driblar a falta de dinheiro, diz estar buscando editais (segundo a diretora, já estão inscritos projetos de recuperação dos álbuns de renda da Coleção Luiza Ramos e de digitalização das obras de José de Alencar), além de parceria com a Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura para abertura de uma conta para doações. "É um trabalho hercúleo", define. Questionada sobre a prometida quantia de R$1,2 milhão do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que viria do orçamento do Ministério da Cultura de 2002, a diretora garante que o montante nunca chegou. Agora a diretora aguarda a aprovação de recursos do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur Nordeste II). Citando o pensador Paulo Freire, a professora diz fazer "o historicamente possível". Se vier algo a mais, "maravilha".
E-MAIS
Em busca de recursos
- A Casa de José de Alencar reúne cinco mil peças em torno de sete coleções, entre elas a Coleção de Rendas Luiza Ramos e o Museu Arthur Ramos, aberto em 1981. No ano passado, um edital do Ministério da Justiça - em torno de R$120 mil - garantiu a aquisição de dois arquivos de aço deslizantes instalados da biblioteca e no museu.
- Em 2005, com recursos vindos de emenda parlamentar do deputado federal João Alfredo, a Casa de José de Alencar passou por reforma estrutural, com revisão e mudança do telhado, saneamento das infiltrações, pintura geral, descupinização, revisão do madeiramento das portas e janelas, reparos nos banheiros, limpeza do terreno e compra de material. Somando recursos de que dispunha a universidade, estima-se que a reforma custou entre R$120 mil e R$160 mil.
- Em 2001, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) prometeu uma verba de R$1,2 milhão para implantação do Projeto Paisagístico Alagadiço Novo, elaborado por estudantes do Curso de Arquitetura da UFC, em 1998. O dinheiro até hoje não chegou.
- Em 2006, o Iphan, em parceria com a UFC e o ICA, foram os responsáveis pela recuperação da "casinha", remanescente arquitetônico da residência do romancista. Elaborado pelo Iphan, sob a responsabilidade do arquiteto Romeu Duarte, o projeto custou R$ 37.957,33, valor financiado pelo próprio órgão, e contou com pintura geral, coberta, alvenaria e piso recuperados, além de inédita iluminação interna e externa.
- A Casa José de Alencar está incluída no Prodetur Nordeste II, convênio assinado pelo Governo do Estado do Ceará e BID, para recuperação de bens históricos e artísticos tombados. A proposta da UFC de inclusão desse bem histórico prevê recuperação dos acervos e dos museus e implementação de novos acervos. Por enquanto, o investimento é só promessa.
SERVIÇO:
A casa histórica e os acervos do edifício - sede da Casa de José de Alencar, constituído pela Pinacoteca Floriano Teixeira (que abriga 32 telas baseadas nas obras de Alencar), Museu Arthur Ramos e Coleção de Rendas Maria Luiza Ramos, estão abertos para visitação pública no horário das 8 às 17 horas de segunda a sexta de das 8 às 12 horas aos sábados. Informações: 3229.1898.
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