Vida & Arte
NA PRAÇA DO FERREIRA
Diálogo sobre uma Fortaleza apartada
O POVO bateu um papo com o arquiteto Fausto Nilo, com a antropóloga Lídia Pimentel e com o geólogo Edmar Jr
08 Set 2007 - 15h42min
Fim de tarde na Praça do Ferreira. Em frente ao Cine São Luiz, sobre o banco de madeira desenhado pelo arquiteto e urbanista Fausto Nilo, o próprio se senta e contempla o movimento - e, de vez em quando, encontra velhos conhecidos que ainda perambulam por ali. Ao seu lado, a antropóloga Lídia Valesca Pimentel - professora da Faculdade Farias Brito e estudiosa de cidade, cultura, rua, exclusão e nomadismo urbano - observa os loucos que percorrem a cidade. Ao lado de Lídia, Edmar Jr. - geólogo e coordenador da Academia de Artes e Ciências do Pirambu, organização não-governamental localizada no corredor cultural do bairro de maior densidade demográfica da cidade - constata: esta cidade é apartada. Sentada ou agachado no chão, repórter e fotógrafo provocam: digam o que vocês sentem nessa cidade, o que vocês pensam sobre essa cidade, o que vocês vêem nessa cidade, como vocês transitam nessa cidade. Um diálogo sobre Fortaleza.
Enquanto a conversa escorre, os sobressaltos de uma cidade que, no Centro, faz sentir seus espamos. Brisa que leva papéis, mudança de luminosidade, pedintes, engraxates, artistas de rua: o tempo é sentido e as pessoas circulam. Enquanto Fausto Nilo discorre sobre violência, isolamento e desigualdade social, um cortejo fúnebre do capitalismo: o grupo político Crítica Radical faz passeata, de pouco mais de dez pessoas; a Morte do Capitalismo é alardeada em autofalantes, ouvida e ignorada por quem percorre o piso de pedra portuguesa da praça. Enquanto Lídia fala sobre a pluralidade da ocupação dos espaços coletivos, um senhor ao lado começa a entoar um canto arrastado. Um transeunte despreocupado senta ao lado de Fausto e começa a escutar a conversa, atento ao assunto: "Você tá gravando muito?", pergunta à repórter.
É, o diálogo proposto não é mais somente sobre Fortaleza. É com Fortaleza - corpo formado por espaços e gentes. Nessa hora, os sinos da Coluna da Hora - marco fortalezense da aceleração do ritmo cotidiano urbano, de 1933 - badalam: 18 horas. "Isso aqui tá morrendo. Daqui a uma hora, é um deserto. Um lugar vivificado, urbanisticamente, é vida de noite e de dia. Isso aqui é um sintoma de doença", diz Fausto. E a conversa acaba. Cada um sai por um lado diferente do axadrezado da praça e o Centro se fecha. Até amanhã!, quando os loucos, os transeuntes e os gritos de "borracha pra panela de pressão" vão ocupar, de novo, o espaço afetivo-mor de Fortaleza. (Natália Paiva)
O POVO - A cidade atravessa o nosso corpo. Impossível conversar sobre Fortaleza sem partir das nossas vivências e experiências com e na cidade. Gostaria de começar essa conversa com uma apresentação: como vocês lidavam com a cidade, em seus espaços coletivos de convivência, na infância e na adolescência? E como lidam hoje?
Edmar Jr. - Eu tenho 44 anos, nasci e me criei no Pirambu, até hoje moro lá. Meu pai é de Quixadá, minha mãe de Aracoiaba. Se encontraram e tiveram cinco filhos. O Pirambu é um bairro constituído de dunas, campo do mar. A minha infância foi soltando arraia, jogando bila, triângulo, bola de meia, correndo descalço nas ruas que eram de areia, tomando banho de praia, brincando de esquibunda. Crescendo, fui conhecendo a cidade através do meu pai, que era funcionário público. Pra ajudar na renda familiar, fui guardador de carros no Centro. Naquele tempo, a prefeitura controlava os guardadores de carro, e a cidade era dividida por quarteirões, onde cada menino tinha seu território. Eu conhecia as praças e os casarões do centro. Fui promovido. Os meninos mais desenvoltos recebiam a premiação: guardar os carros do aeroporto (risos). Conheci e tomei banho na lagoa do Opaia, conheci pessoas diferentes das do Pirambu. Fui crescendo, e a cidade também. Terminei meus estudos e, com muita dificuldade, entrei na universidade, me engajei nos movimentos sociais de bairros. E os espaços foram ficando apertados, se modificando. Existem os espaços dos bairros e os da cidade em geral, que precisam de mais cuidado e controle. Hoje, acho que as pessoas tendem a ver a cidade a partir de seu estado de espírito: quando se está meio deprê, tem-se uma tendência a ver a cidade meio triste; quando se está alegre, a tendência é ver a cidade mais espontânea.
Lídia Pimentel - Eu tenho 35 anos. E a década de 1970 e 1980... Somos uma família grande: sete filhos, depois veio um oitavo. Meu pai tinha uma Belina e, não sei como, cabia todo mundo. E a gente fazia muito passeios típicos de classe média: íamos pros clubes, para a Feira dos Pássaros, aos domingos. E eu via muito a cidade, tudo parecia tão longe. Cresci na Parquelândia, e lá a gente vivia muito a experiência da rua, da calçada. Hoje, a cidade tem muitas possibilidades. Ando muito nos espaços públicos e acho que há muita vida neles ainda. Inclusive, estou lá com as minhas filhas. Freqüentemente, a gente vem pro Centro, pra Beira Mar. Esse movimento de ir pra pracinha preservo até hoje. Essa experiência de vida no espaço público é uma coisa que tenho muito. E penso hoje a questão da diversidade. Acho que há múltiplas ocupações da cidade e, principalmente, não há uma única forma de ocupar a cidade. É claro que há uma cultura de consumo muito forte, apelo pelo shopping center e outros lugares fechados. Antes de a gente começar a conversa, o Edmar estava comentando que parece que a cidade está apartada. Essa sensação existe. Mas acho que a cultura de consumo não é hegemônica. E passar domingo no shopping não é hegemônico. Quer dizer, existem outras formas. Eu me mudei recentemente pro Passaré e tenho visto muita gente ir pro zoológico. Pessoas se deslocam de seus bairros - normalmente periféricos, onde não há um centro comercial, possibilidade de consumo, e vem fazer esse consumo material e cultural na cidade. Isso demonstra que há formas antigas de ocupação da cidade que prevalecem. Eu vejo movimento da ocupação da praça Argentino Castelo Branco aos domingos. Quando morava no Benfica, era usuária da praça. As pessoas caminhavam, mas também passeavam - levavam os cachorros. Então, penso que hoje o lazer não pode ser pensado de uma só forma. A cidade hoje é ocupada de formas muito diversas. É reinventada.
Fausto Nilo - Eu sou do interior. Cheguei aqui em 1955, com 11 anos. A cidade tinha uns 250 mil habitantes. Você tinha esses tentáculos históricos, como Bezerra de Meneses, cheios de chácaras. Os transportes vão apoiar esses primeiros corredores. Quando cheguei, era uma cidade cujos limites eram Otávio Bonfim, Monte Castelo, praia. E havia as areias, os bairros distantes. Caucaia, Parangaba e Messejana. Se vivia em torno desse lugar que a gente está aqui, o foco convergente. Aqui tinham uns 12 cinemas. Vi a fundação da 13 de Maio, a fuga da classe média pra lá, ela virar moda. Eu fazia excursões a pé pelo riacho da Aguanambi. Que tipo de espaço público a cidade ofertava naquela época? Aqui no Ceará, e agora passo a falar como urbanista, há o equívoco de dizer que isso é coisa do passado. O espaço público, que é contíguo ao espaço privado, com uma arrazoável convivência dessa zona de tensão. O que no fundo é o grande desafio urbanístico: resolver de maneira adequada essa permanente tensa zona entre a chamada porta da rua e a rua. Isso eu conheci em Fortaleza de forma equilibrada, em que a cidade, nessa parte central tinha uma dimensão pedestre. A gente nem precisava de automóvel. Nem todo mundo tinha telefone. Sendo pedestres, tínhamos contigüidade entre a porta da casa e as calçadas. Os automóveis e os ônibus eram em quantidade pequena, domesticados. A gente caminhava pelas ruas, saía a pé para quermesses, que variavam de local. E tinha a praia, outro espaço de lazer. Como urbanista, a cidade pode ser explicada primeiro pelos seus moradores que percebem sua cidade. Outra coisa são as soluções técnicas que podem satisfazer os desejos universais. De um modo geral, as pessoas precisam ter seu lugar de privacidade e comunidade. Equilibrar essas tensões é tarefa fundamental do urbanismo. Outra coisa é equilibrar isso com mobilidade, porque temos metrópoles sem dinheiro para ser metrópole. Nossa transição para uma cidade que depende perigosamente de energia para movimentar automóvel é muito ruim, do ponto de vista do convívio. Uma metrópole, ao se dilatar, tem que ter controle desse tamanho e administrar sua densidade de tal maneira que o espaço público seja contíguo à moradia, sem eu ter de usar um carro pra comprar pão ou ter temor do outro.
OP - Então, a desestruturação dos espaços públicos coletivos de lazer advém do mau planejamento urbano, que não soube lidar com o inchaço da cidade?
Fausto - Eu sou muito pessimista em relação a Fortaleza abraçar oportunidades de planejamento com visão urbanística universal. Quando uma cidade vai crescendo, ela precisa criar novos espaços para acomodar mais pessoas. E há inúmeras maneiras de crescer. Uma delas é por dispersão. Hoje, nós temos uma cidade cujo tamanho deve ser cinco vezes maior que o necessário, se a elite não tivesse a visão de que a convivência com os outros não é desejável. E teve como idéia, durante um século aqui, de colocar esses outros muito longe. O preço disso tem sido muito alto. A dispersão urbana é apoiada por interesses de proprietários de terreno etc. E nós vamos seguindo essas pegadas, gastando gasolina. Não é possível, na mobilidade para Fortaleza, levar todas as pessoas a 200m da sua casa. Não há nenhuma empresa de ônibus levando pessoas para esses lugares remotos. Há isolamentos de oportunidades, o que é o mais grave. Porque eu alcancei uma cidade que, ao jogar uma pelada na calçada, com pessoas de outras classes, se houvesse um concurso pro Banco do Brasil todo mundo se informava junto. Hoje, não. A informação é da televisão.
Lídia - E da internet.
Fausto - Cujo maior projeto é vender coisas que a maioria não pode comprar. As outras informações, que algumas pessoas aqui (na Praça do Ferreira) estão compartilhando todo dia, estão se reduzindo. Porque a oferta de espaço público com desenho adequado não existe. É uma cidade que há um século cresce sem pensamento, reflexão ou técnica urbanística. Temos hoje o perigo de acreditar no outro extremo: que coloca pessoas leigas com necessidades enormes sem o padrão técnico para resolver o problema. Sou muito pessimista. Acho que ainda vai demorar um tempo para Fortaleza absorver as contribuições possíveis para melhorar a vida das pessoas.
OP - Então, no contexto da desestruturação dos espaços públicos coletivos, da migração para espaços privados de trânsito público, do aumento dos índices de violência e do advento das novas tecnologias de comunicação, como a cidade está lidando consigo mesma e com o outro em seus espaços de convivência?
Fausto - Não está lidando. Não acho que a cidade está lidando com nada há muito tempo. Tem feito obras pontuais, cujas significações para alterar esse problema é mínimo. É uma cultura. Tem uma coisa planetária e inevitável que são as chamadas comunidades de interesses. Acho que ninguém deseja que as maiorias não tenham acesso amplo a esses meios de comunicação e transferência de informação, tipo internet. Isso é uma tendência inevitável. E essa tendência já tem produzido, em lugares em que o uso disso é mais intenso, novas doenças que vão decorrer disso. Porque as chamadas comunidades de interesses inibem as comunidades de lugar, que é essa que estamos vendo, do convívio. Há uma impressão de que essa aqui não serve mais, e que nós temos agora que viver isolados. Isso não é verdade, há muitos lugares do mundo que estão conseguindo equilibrar. O grande desafio é exatamente descobrir qual é a forma da nova comunidade, que não é nem a forma do cavalo nem a do a pé, nem a do início do automóvel. Nós temos que descobrir qual é a forma que combine privacidade e atividade compartilhada de maneira adequada, que reduza a tensão entre o espaço público e a propriedade privada. E que essas cidades sejam legíveis, que promovam o compartilhamento, a troca. Porque a razão principal da cidade é ser um campo de intercâmbio - de dinheiro, de objetos, de solidariedade, de afetividade, de informação. E eu não posso dizer que a minha querida Fortaleza é uma cidade que favorece o intercâmbio.
OP - Se ela não favorece a troca, o que ocorre?
Fausto - Acontece isso que está acontecendo: violência, isolamento, perda de oportunidade - desigualdade. Isso é uma visão triste desses subúrbios infinitos. Mas as pessoas têm capacidade de reequilibrar isso. Ironicamente, e me deixa satisfeito isso, onde não há a urbanização do padrão Aldeota, que faz torres recuadas, e o planejamento é, entre aspas, o "pior" possível, as pessoas têm vida e compartilham sua vida na rua, que é subúrbio...
(Nesse momento, a conversa é interrompida por manifestação política do grupo Crítica Radical, liderado pela ex-prefeita Maria Luisa Fonetenele)
Lídia - Isso (refere-se ao burburinho causado pela passeata) é o que me faz ainda ter esperança na troca, na cidade. Porque isso ainda é espaço de interação, comunicação. Acho que mesmo, Fausto, sabendo que há esses isolamentos e apartheids sociais muito grandes em Fortaleza, isso acontece pelo medo classista do diferente, mas mesmo assim é interessante saber que há movimentos de convergência. Claro que vai ter uma classe que não vai vir pra cá, não precisa de espaço público - quase não há praça, por exemplo, na Aldeota, no Meireles. E talvez o subúrbio seja o lugar onde o espaço público possa emergir na sua concepção de fato. Mas acho que há vários espaços na cidade de convergência, e o Centro e a Beira Mar ainda são.
Fausto - Mas você entendeu o que eu quis dizer: fazer uma metrópole dessa maneira é um desastre.
Lídia - É um desastre. Mas há movimentos de convergência. Como a Feira da Parangaba, onde há interação de classes. A elite vai comprar o som roubado, se desloca, enfrenta as diferenças e rompe territórios.
Edmar - É engraçado isso, porque me lembrou de uma amiga minha que mora no outro lado da cidade e nunca vem ao Centro. Em função de uma pesquisa de mercado, veio pra cá consertar o celular porque aqui os serviços e os objetos são mais baratos.
Fausto - Mas isso teve um preço para a população. Quando as autoridades promoveram a mudança de equipamentos-chave, é possível reconstituir as responsabilidades sobre essa decadência, que é difícil de ser restaurada. Um dos preços altíssimos que nós pagamos por isso foi a queda do valor dos imóveis, que torna o negócio mais viável para ter lucro. Para que essa senhora tivesse seus serviços mais baratos, toda a cidade teve de perder o seu Centro.
OP - Voltando à questão que o Fausto e a Lídia pontuaram: então, se essa cidade ainda pulsa cotidianamente em seus espaços coletivos de convivência, esse local de pulsação é mesmo na periferia?
Edmar - A minha experiência no Pirambu é muito peculiar. Eu vi aquele bairro crescer, todo aquele campo natural de dunas ser impermeabilizado pelo asfalto, pelas casas. E isso trazendo uma série de complicações para a cidade. Essa dinâmica costeira foi totalmente afetada. Estando lá instalada, a ocupação foi completamente desvinculada de regras e normas urbanas. As ruas são sinuosas, acompanhando o perfil da costa. Você não tem aquele sistema de quadrículas, são becos e vielas, com densidade demográfica muito alta. Famílias geralmente muito numerosas com um espaço muito pequeno dentro de casa. Em função disso, as pessoas procuram a rua como seu espaço de lazer.
Fausto - Extensão da casa.
Edmar - Extensão da casa. Você vai agora no Pirambu (17h30), é como se você estivesse andando na Praça do Ferreira. Os carros têm que ter cuidado para andar lá. Parece uma procissão. Não só lá, você vai em outros bairros da periferia, as pessoas estão todas na calçada, gente jogando dama, fazendo bingo.
Fausto - Uma das metas do urbanismo contemporâneo é domesticar o automóvel, submetê-lo à prioridade do pedestre. E lá vocês têm isso.
Edmar - Lá nós temos um corredor cultural, que é a Av. Nossa Senhora das Graças, e um corredor financeiro, que é a Av. Dr. Themberge. E lá é impressionante como as calçadas são ocupadas inadequadamente, as pessoas andam nas ruas e é difícil ver um acidente. Os carros estão domesticados. Alguns bairros não têm praças. O local privilegiado lá é a praia, embora passemos por processos erosivos em função da dinâmica costeira.
OP - De fato, seria interessante focar cada vez mais as necessidades locais das comunidades do que investir sempre em espaços-chaves centralizados?
Fausto - A combinação dessas duas escalas é o que deve se fazer numa metrópole. Você tem espaços centrais e históricos como este (a Praça do Ferreira). Para ter saúde, a cidade precisa ter um centro não decadente. Com o aparecimento do transporte motorizado, as cidades ficaram muito grandes. Há a necessidade de acompanhar esse crescimento considerando a mobilidade e as necessidades das pessoas para que elas não viagem tanto, para que o tempo de um dia na cidade e o dinheiro não sejam consumidos em grande escala em viajar. E sim conviver com os outros, formar uma comunidade e trabalhar. O correto seria isso, uma coisa que leva 30 anos, nuclearizar uma cidade grande. A cidade tem de ter duas escalas de espaços públicos, sejam naturais ou artificiais. Aqueles de escalas de todos - como o Cocó, que é proteção ambiental e lazer - e conjuntos de comunidades equipadas convenientemente com centros de emprego, educação, compras e áreas de lazer. O que dá alto grau de compartilhamento e intercâmbio. Mas a gente está fazendo uma cidade centralizada onde as pessoas passam o dia queimando petróleo e desagregando vida durante o dia, de noite chegam em casa cansada e vão ver televisão. Viva o Pirambu e outros bairros que ainda têm vida local porque desenvolveram localmente algumas oportunidades de trabalho. Porque este é problema: se não tivesse trabalho ali, a calçada não estava cheia de gente não. As pessoas iam chegar em casa de noite.
Lídia - É uma questão que envolve interesses políticos, que são sempre imediatistas. Em Fortaleza, as coisas nascem, crescem e morrem de maneira muito rápida. Eu comecei a namorar meu marido no Mirante, há 15 anos, um lugar onde as pessoas se viam. E que morreu. A Praia de Iracema também teve seu começo, meio e fim. Será que Fortaleza vive uma espécie de esquizofrenia de moda?
Fausto - Mas não é só Fortaleza, isso existe em várias cidades do mundo e tem uma explicação urbanística. Uma cidade não pode crescer sem necessidade. A energia que faz uma cidade é uma coisa sinergética. Nós estamos aqui porque há uma atração, uma relação de interesses. No momento em que se estica por interesse de alguns, a cidade anda sem parar. Novas estruturas são esticadas e alguns, com seu interesse, puxam a cidade pra lá. Se você chegar aqui em 10 anos, nada vai estar no mesmo lugar, o que não aconteceria em Paris, por exemplo. Uma cidade que cresce por dispersão urbana, uma cidade frouxa, que tem um tamanho que não precisa, como é o nosso caso, ela estimula... É uma cidade que usa elementos de plano diretor dos anos 1920, copiado de outro lugar. Nunca houve nem vai ter agora, esse não vai ter também. É uma coisa de botar as pessoas numa sala pra dizer todas as suas vontades e desejos. Um plano diretor não é assim, o outro time joga também. A cidade anda. E andará ainda muito, vai pra Sabiaguaba. E quem paga a ruína que vai ficando atrás? Nós temos cidade demais em tamanho e vida compartilhada de menos.
Lídia - E o resultado disso é o isolamento.
Edmar - Dentro desse emaranhado de coisas faladas, as populações encontram formas e táticas de se manterem vivas e curtirem seu lazer. Existe um jeito favela de ser feliz. Quando você vê uma comunidade inteira se mobilizando... Passa a semana toda trabalhando - na própria comunidade ou tendo que se deslocar -, no corre-corre do dia a dia, e, no fim de semana, encontra energia para pegar um caminhão e ir pro futebol ou pegar um litro de cachaça e uma lata cheia de farofa, pegar a família e ir para um piquinique numa praia. Milhares de pessoas fazem isso, todo fim de semana o mesmo ritual. Recompõem as energias pra próxima semana.
Lídia - Na lagoa da Maraponga tem muito isso também.
OP - Como a questão da violência, hoje na cidade, dinamiza essas relações de convívio?
Lídia - Há uma faceta disso no espaço público que é o isolamento e o medo do estranho. Mas também há o exacerbamento do consumo, que leva o individuo a desejar coisas que não possui e, aliado a isso, o fosso social existente, os altos índices de desemprego. Sempre teve violência, mas nunca teve tanto consumo.
Edmar - A gente estava pensando em fazer um levantamento dos itinerários do crack em Fortaleza, e a gente teve uma fala com um especialista que falou que 70% dos crimes em Fortaleza são os chamados "crimes aquisistivos": o jovem comete crime para adquirir a droga.
Lídia - O resultado disso para o espaço público é gravíssimo, que é o isolamento. Aqueles que possuem muito bens e provocam desejos nos outros vão se isolar. Eles blindam seus carros, suas casas, cada vez mais.
Edmar - Aí a tendência de se instalar os grande condomínios, onde tem toda a infraestrutura básica para uma família conviver. Tem seu espaço de lazer, seu comércio. Cidadelas protegidas.
Fausto - O condomínio seria um sintoma de desagregação da cidade como tal. Sendo a cidade uma base de intercâmbio, com a destruição das comunidades - espaço padrão que consegue ter um sentimento de pertença. Esses componentes de comunidade permitem identificação e troca na escala de vizinhança, arrazoável não-dependência de energia para se locomover e saúde, porque há caminhada para esse intercâmbio, não precisa de cooper. E, ao mesmo tempo, um dos componentes da violência é físico - se o trabalho, a educação, o lazer e o consumo fossem locais, a própria comunidade teria capacidade de administrar os desvios. Mas o que temos hoje é uma comunidade que não é de verdade porque durante o dia ela está vazia. Só permanecem ali os velhos, as crianças abandonadas e os que se recusam ao trabalho. A agressividade nas cidades sempre houve. Tem uma cota normal. Mas nós, aqui, ultrapassamos. Quando um aterfato é oferecido ao uso publico e nele é legível que houve uma tentativa de brindar o cidadão com o mínimo de conforto, ele depreda menos. Quando ele inclui de maneira aberta faixas etárias e sócio-economicas diferentes, isso vai melhor. Mas quando ele agride essa convivência, ele recebe agressões maiores.
Lídia - Isso acontece porque há usos. E tem praças e lugares da cidade que foram feito não para o uso, mas para serem vitrinizadas. Ou não estabelecem comunicação com o ocupante.
Fausto - Os artefatos urbanos e arquitetônicos têm uma sintaxe. Que é complexa e não é uma coisa métrica, mas de inúmeras camadas funcionais, subjetivas, de memória coletiva.
OP - Durante o processo de feitura da reportagem publicada semana passada, muitos dos entrevistados - na Praça Portugal, no shopping center, no Pirambu - se remeteram ao Centro Dragão do Mar e seu entorno como espaços que costumavam freqüentar. Esta pergunta não é apenas para o Fausto: como o Dragão do Mar se inscreve em Fortaleza? O que ele deixou para a cidade, nos últimos dez anos?
Fausto - O Dragão do Mar, vou até aproveitar pra esclarecer, nunca prometeu que ia revitalizar a cidade de Fortaleza (celular toca e a conversa é interrompida). Foi um concurso público, por meio de carta-convite a cinco escritórios. A demanda dessa convocação era de construir um centro cultural, aproveitar ruínas daquele espaço. Se você quer saber minha autocrítica, todo projeto tem defeitos. Independente de ter sido a gente, acho que tem contribuição. Acho que é incluidor, tem diversidade. Nós tivemos estratégia adequada para a cidade que não tem convívio com arte, com museu. Vamos fazer como uma rua, que ocasionalmente você dá olhadinha no museu? Isso ocorre. Uma estratégias de cruzar programas e atividades de tal maneira que em um passeio lá o sujeito volte pra casa e tenha feito várias coisas. Tem problemas, mas não posso concordar que ele é um tipo de fracasso urbanístico. Eu me autocritico, mas beneficiou a cidade. Me arrependo, por exemplo, de não ter forçado a barra para não ter dois elevadores, a rampa é longa... Se eu for dizer os aperfeiçoamentos, vou ficar aqui até amanhã de manhã.
Lídia - O que é legal do Dragão é que tem um uso diverso. A gente vê diferentes usos que não é o do Centro Cultural. As pessoas ficam no entorno da pracinha.
Fausto - E ele próprio. São programas cruzados, onde há a convivência de coisas que nunca se puseram juntas por uma série de tipologias que eram mantidas isoladas. O Dragão do Mar quebra isso. É uma forma de arquitetura que diz: o que me encomendaram, eu tô criando lugares para acontecer; mas tem coisas que nem eu arquiteto sei, mas que o prédio quer que aconteça. Ele foi feito para ter acontecimentos inusitados, como o hip hop embaixo do planetário, poesia embaixo da passarela. Isso demonstra que o espaço é provocador. Ou não?
Lídia - E acolhe a todos.
ÍNTEGRA DA ENTREVISTA
www.opovo.com.br/conteudoextra
QUEM SÃO OS ENTREVISTADOS
Edmar de Oliveira Júnior - Formado em Geologia pela Universidade de Fortaleza (1988), fotógrafo e diretor da organização não-governamental Associação de Ciências e Artes do Pirambu (Arcates), 44.
Lídia Valesca Pimentel - Antropóloga e professora de Sociologia da Faculdade Farias Brito, 35. Sua tese de doutorado, pela Universidade Federal do Ceará, foi Vidas nas Ruas, Corpos em Percursos no Cotidiano da Cidade. A dissertação de mestrado, pela mesma instituição, foi Praça José de Alencar, Pedaços da Cidade, Palco de Vidas.
Fausto Nilo - Arquiteto, urbanista, poeta e letrista, 63. Ao lado do também arquiteto Delberg Ponce de Leon, desenhou os bancos da Praça do Ferreira e fez o projeto do Centro Cultural Dragão do Mar, dentre outras inscrições na cidade.
Enquanto a conversa escorre, os sobressaltos de uma cidade que, no Centro, faz sentir seus espamos. Brisa que leva papéis, mudança de luminosidade, pedintes, engraxates, artistas de rua: o tempo é sentido e as pessoas circulam. Enquanto Fausto Nilo discorre sobre violência, isolamento e desigualdade social, um cortejo fúnebre do capitalismo: o grupo político Crítica Radical faz passeata, de pouco mais de dez pessoas; a Morte do Capitalismo é alardeada em autofalantes, ouvida e ignorada por quem percorre o piso de pedra portuguesa da praça. Enquanto Lídia fala sobre a pluralidade da ocupação dos espaços coletivos, um senhor ao lado começa a entoar um canto arrastado. Um transeunte despreocupado senta ao lado de Fausto e começa a escutar a conversa, atento ao assunto: "Você tá gravando muito?", pergunta à repórter.
É, o diálogo proposto não é mais somente sobre Fortaleza. É com Fortaleza - corpo formado por espaços e gentes. Nessa hora, os sinos da Coluna da Hora - marco fortalezense da aceleração do ritmo cotidiano urbano, de 1933 - badalam: 18 horas. "Isso aqui tá morrendo. Daqui a uma hora, é um deserto. Um lugar vivificado, urbanisticamente, é vida de noite e de dia. Isso aqui é um sintoma de doença", diz Fausto. E a conversa acaba. Cada um sai por um lado diferente do axadrezado da praça e o Centro se fecha. Até amanhã!, quando os loucos, os transeuntes e os gritos de "borracha pra panela de pressão" vão ocupar, de novo, o espaço afetivo-mor de Fortaleza. (Natália Paiva)
O POVO - A cidade atravessa o nosso corpo. Impossível conversar sobre Fortaleza sem partir das nossas vivências e experiências com e na cidade. Gostaria de começar essa conversa com uma apresentação: como vocês lidavam com a cidade, em seus espaços coletivos de convivência, na infância e na adolescência? E como lidam hoje?
Edmar Jr. - Eu tenho 44 anos, nasci e me criei no Pirambu, até hoje moro lá. Meu pai é de Quixadá, minha mãe de Aracoiaba. Se encontraram e tiveram cinco filhos. O Pirambu é um bairro constituído de dunas, campo do mar. A minha infância foi soltando arraia, jogando bila, triângulo, bola de meia, correndo descalço nas ruas que eram de areia, tomando banho de praia, brincando de esquibunda. Crescendo, fui conhecendo a cidade através do meu pai, que era funcionário público. Pra ajudar na renda familiar, fui guardador de carros no Centro. Naquele tempo, a prefeitura controlava os guardadores de carro, e a cidade era dividida por quarteirões, onde cada menino tinha seu território. Eu conhecia as praças e os casarões do centro. Fui promovido. Os meninos mais desenvoltos recebiam a premiação: guardar os carros do aeroporto (risos). Conheci e tomei banho na lagoa do Opaia, conheci pessoas diferentes das do Pirambu. Fui crescendo, e a cidade também. Terminei meus estudos e, com muita dificuldade, entrei na universidade, me engajei nos movimentos sociais de bairros. E os espaços foram ficando apertados, se modificando. Existem os espaços dos bairros e os da cidade em geral, que precisam de mais cuidado e controle. Hoje, acho que as pessoas tendem a ver a cidade a partir de seu estado de espírito: quando se está meio deprê, tem-se uma tendência a ver a cidade meio triste; quando se está alegre, a tendência é ver a cidade mais espontânea.
Lídia Pimentel - Eu tenho 35 anos. E a década de 1970 e 1980... Somos uma família grande: sete filhos, depois veio um oitavo. Meu pai tinha uma Belina e, não sei como, cabia todo mundo. E a gente fazia muito passeios típicos de classe média: íamos pros clubes, para a Feira dos Pássaros, aos domingos. E eu via muito a cidade, tudo parecia tão longe. Cresci na Parquelândia, e lá a gente vivia muito a experiência da rua, da calçada. Hoje, a cidade tem muitas possibilidades. Ando muito nos espaços públicos e acho que há muita vida neles ainda. Inclusive, estou lá com as minhas filhas. Freqüentemente, a gente vem pro Centro, pra Beira Mar. Esse movimento de ir pra pracinha preservo até hoje. Essa experiência de vida no espaço público é uma coisa que tenho muito. E penso hoje a questão da diversidade. Acho que há múltiplas ocupações da cidade e, principalmente, não há uma única forma de ocupar a cidade. É claro que há uma cultura de consumo muito forte, apelo pelo shopping center e outros lugares fechados. Antes de a gente começar a conversa, o Edmar estava comentando que parece que a cidade está apartada. Essa sensação existe. Mas acho que a cultura de consumo não é hegemônica. E passar domingo no shopping não é hegemônico. Quer dizer, existem outras formas. Eu me mudei recentemente pro Passaré e tenho visto muita gente ir pro zoológico. Pessoas se deslocam de seus bairros - normalmente periféricos, onde não há um centro comercial, possibilidade de consumo, e vem fazer esse consumo material e cultural na cidade. Isso demonstra que há formas antigas de ocupação da cidade que prevalecem. Eu vejo movimento da ocupação da praça Argentino Castelo Branco aos domingos. Quando morava no Benfica, era usuária da praça. As pessoas caminhavam, mas também passeavam - levavam os cachorros. Então, penso que hoje o lazer não pode ser pensado de uma só forma. A cidade hoje é ocupada de formas muito diversas. É reinventada.
Fausto Nilo - Eu sou do interior. Cheguei aqui em 1955, com 11 anos. A cidade tinha uns 250 mil habitantes. Você tinha esses tentáculos históricos, como Bezerra de Meneses, cheios de chácaras. Os transportes vão apoiar esses primeiros corredores. Quando cheguei, era uma cidade cujos limites eram Otávio Bonfim, Monte Castelo, praia. E havia as areias, os bairros distantes. Caucaia, Parangaba e Messejana. Se vivia em torno desse lugar que a gente está aqui, o foco convergente. Aqui tinham uns 12 cinemas. Vi a fundação da 13 de Maio, a fuga da classe média pra lá, ela virar moda. Eu fazia excursões a pé pelo riacho da Aguanambi. Que tipo de espaço público a cidade ofertava naquela época? Aqui no Ceará, e agora passo a falar como urbanista, há o equívoco de dizer que isso é coisa do passado. O espaço público, que é contíguo ao espaço privado, com uma arrazoável convivência dessa zona de tensão. O que no fundo é o grande desafio urbanístico: resolver de maneira adequada essa permanente tensa zona entre a chamada porta da rua e a rua. Isso eu conheci em Fortaleza de forma equilibrada, em que a cidade, nessa parte central tinha uma dimensão pedestre. A gente nem precisava de automóvel. Nem todo mundo tinha telefone. Sendo pedestres, tínhamos contigüidade entre a porta da casa e as calçadas. Os automóveis e os ônibus eram em quantidade pequena, domesticados. A gente caminhava pelas ruas, saía a pé para quermesses, que variavam de local. E tinha a praia, outro espaço de lazer. Como urbanista, a cidade pode ser explicada primeiro pelos seus moradores que percebem sua cidade. Outra coisa são as soluções técnicas que podem satisfazer os desejos universais. De um modo geral, as pessoas precisam ter seu lugar de privacidade e comunidade. Equilibrar essas tensões é tarefa fundamental do urbanismo. Outra coisa é equilibrar isso com mobilidade, porque temos metrópoles sem dinheiro para ser metrópole. Nossa transição para uma cidade que depende perigosamente de energia para movimentar automóvel é muito ruim, do ponto de vista do convívio. Uma metrópole, ao se dilatar, tem que ter controle desse tamanho e administrar sua densidade de tal maneira que o espaço público seja contíguo à moradia, sem eu ter de usar um carro pra comprar pão ou ter temor do outro.
OP - Então, a desestruturação dos espaços públicos coletivos de lazer advém do mau planejamento urbano, que não soube lidar com o inchaço da cidade?
Fausto - Eu sou muito pessimista em relação a Fortaleza abraçar oportunidades de planejamento com visão urbanística universal. Quando uma cidade vai crescendo, ela precisa criar novos espaços para acomodar mais pessoas. E há inúmeras maneiras de crescer. Uma delas é por dispersão. Hoje, nós temos uma cidade cujo tamanho deve ser cinco vezes maior que o necessário, se a elite não tivesse a visão de que a convivência com os outros não é desejável. E teve como idéia, durante um século aqui, de colocar esses outros muito longe. O preço disso tem sido muito alto. A dispersão urbana é apoiada por interesses de proprietários de terreno etc. E nós vamos seguindo essas pegadas, gastando gasolina. Não é possível, na mobilidade para Fortaleza, levar todas as pessoas a 200m da sua casa. Não há nenhuma empresa de ônibus levando pessoas para esses lugares remotos. Há isolamentos de oportunidades, o que é o mais grave. Porque eu alcancei uma cidade que, ao jogar uma pelada na calçada, com pessoas de outras classes, se houvesse um concurso pro Banco do Brasil todo mundo se informava junto. Hoje, não. A informação é da televisão.
Lídia - E da internet.
Fausto - Cujo maior projeto é vender coisas que a maioria não pode comprar. As outras informações, que algumas pessoas aqui (na Praça do Ferreira) estão compartilhando todo dia, estão se reduzindo. Porque a oferta de espaço público com desenho adequado não existe. É uma cidade que há um século cresce sem pensamento, reflexão ou técnica urbanística. Temos hoje o perigo de acreditar no outro extremo: que coloca pessoas leigas com necessidades enormes sem o padrão técnico para resolver o problema. Sou muito pessimista. Acho que ainda vai demorar um tempo para Fortaleza absorver as contribuições possíveis para melhorar a vida das pessoas.
OP - Então, no contexto da desestruturação dos espaços públicos coletivos, da migração para espaços privados de trânsito público, do aumento dos índices de violência e do advento das novas tecnologias de comunicação, como a cidade está lidando consigo mesma e com o outro em seus espaços de convivência?
Fausto - Não está lidando. Não acho que a cidade está lidando com nada há muito tempo. Tem feito obras pontuais, cujas significações para alterar esse problema é mínimo. É uma cultura. Tem uma coisa planetária e inevitável que são as chamadas comunidades de interesses. Acho que ninguém deseja que as maiorias não tenham acesso amplo a esses meios de comunicação e transferência de informação, tipo internet. Isso é uma tendência inevitável. E essa tendência já tem produzido, em lugares em que o uso disso é mais intenso, novas doenças que vão decorrer disso. Porque as chamadas comunidades de interesses inibem as comunidades de lugar, que é essa que estamos vendo, do convívio. Há uma impressão de que essa aqui não serve mais, e que nós temos agora que viver isolados. Isso não é verdade, há muitos lugares do mundo que estão conseguindo equilibrar. O grande desafio é exatamente descobrir qual é a forma da nova comunidade, que não é nem a forma do cavalo nem a do a pé, nem a do início do automóvel. Nós temos que descobrir qual é a forma que combine privacidade e atividade compartilhada de maneira adequada, que reduza a tensão entre o espaço público e a propriedade privada. E que essas cidades sejam legíveis, que promovam o compartilhamento, a troca. Porque a razão principal da cidade é ser um campo de intercâmbio - de dinheiro, de objetos, de solidariedade, de afetividade, de informação. E eu não posso dizer que a minha querida Fortaleza é uma cidade que favorece o intercâmbio.
OP - Se ela não favorece a troca, o que ocorre?
Fausto - Acontece isso que está acontecendo: violência, isolamento, perda de oportunidade - desigualdade. Isso é uma visão triste desses subúrbios infinitos. Mas as pessoas têm capacidade de reequilibrar isso. Ironicamente, e me deixa satisfeito isso, onde não há a urbanização do padrão Aldeota, que faz torres recuadas, e o planejamento é, entre aspas, o "pior" possível, as pessoas têm vida e compartilham sua vida na rua, que é subúrbio...
(Nesse momento, a conversa é interrompida por manifestação política do grupo Crítica Radical, liderado pela ex-prefeita Maria Luisa Fonetenele)
Lídia - Isso (refere-se ao burburinho causado pela passeata) é o que me faz ainda ter esperança na troca, na cidade. Porque isso ainda é espaço de interação, comunicação. Acho que mesmo, Fausto, sabendo que há esses isolamentos e apartheids sociais muito grandes em Fortaleza, isso acontece pelo medo classista do diferente, mas mesmo assim é interessante saber que há movimentos de convergência. Claro que vai ter uma classe que não vai vir pra cá, não precisa de espaço público - quase não há praça, por exemplo, na Aldeota, no Meireles. E talvez o subúrbio seja o lugar onde o espaço público possa emergir na sua concepção de fato. Mas acho que há vários espaços na cidade de convergência, e o Centro e a Beira Mar ainda são.
Fausto - Mas você entendeu o que eu quis dizer: fazer uma metrópole dessa maneira é um desastre.
Lídia - É um desastre. Mas há movimentos de convergência. Como a Feira da Parangaba, onde há interação de classes. A elite vai comprar o som roubado, se desloca, enfrenta as diferenças e rompe territórios.
Edmar - É engraçado isso, porque me lembrou de uma amiga minha que mora no outro lado da cidade e nunca vem ao Centro. Em função de uma pesquisa de mercado, veio pra cá consertar o celular porque aqui os serviços e os objetos são mais baratos.
Fausto - Mas isso teve um preço para a população. Quando as autoridades promoveram a mudança de equipamentos-chave, é possível reconstituir as responsabilidades sobre essa decadência, que é difícil de ser restaurada. Um dos preços altíssimos que nós pagamos por isso foi a queda do valor dos imóveis, que torna o negócio mais viável para ter lucro. Para que essa senhora tivesse seus serviços mais baratos, toda a cidade teve de perder o seu Centro.
OP - Voltando à questão que o Fausto e a Lídia pontuaram: então, se essa cidade ainda pulsa cotidianamente em seus espaços coletivos de convivência, esse local de pulsação é mesmo na periferia?
Edmar - A minha experiência no Pirambu é muito peculiar. Eu vi aquele bairro crescer, todo aquele campo natural de dunas ser impermeabilizado pelo asfalto, pelas casas. E isso trazendo uma série de complicações para a cidade. Essa dinâmica costeira foi totalmente afetada. Estando lá instalada, a ocupação foi completamente desvinculada de regras e normas urbanas. As ruas são sinuosas, acompanhando o perfil da costa. Você não tem aquele sistema de quadrículas, são becos e vielas, com densidade demográfica muito alta. Famílias geralmente muito numerosas com um espaço muito pequeno dentro de casa. Em função disso, as pessoas procuram a rua como seu espaço de lazer.
Fausto - Extensão da casa.
Edmar - Extensão da casa. Você vai agora no Pirambu (17h30), é como se você estivesse andando na Praça do Ferreira. Os carros têm que ter cuidado para andar lá. Parece uma procissão. Não só lá, você vai em outros bairros da periferia, as pessoas estão todas na calçada, gente jogando dama, fazendo bingo.
Fausto - Uma das metas do urbanismo contemporâneo é domesticar o automóvel, submetê-lo à prioridade do pedestre. E lá vocês têm isso.
Edmar - Lá nós temos um corredor cultural, que é a Av. Nossa Senhora das Graças, e um corredor financeiro, que é a Av. Dr. Themberge. E lá é impressionante como as calçadas são ocupadas inadequadamente, as pessoas andam nas ruas e é difícil ver um acidente. Os carros estão domesticados. Alguns bairros não têm praças. O local privilegiado lá é a praia, embora passemos por processos erosivos em função da dinâmica costeira.
OP - De fato, seria interessante focar cada vez mais as necessidades locais das comunidades do que investir sempre em espaços-chaves centralizados?
Fausto - A combinação dessas duas escalas é o que deve se fazer numa metrópole. Você tem espaços centrais e históricos como este (a Praça do Ferreira). Para ter saúde, a cidade precisa ter um centro não decadente. Com o aparecimento do transporte motorizado, as cidades ficaram muito grandes. Há a necessidade de acompanhar esse crescimento considerando a mobilidade e as necessidades das pessoas para que elas não viagem tanto, para que o tempo de um dia na cidade e o dinheiro não sejam consumidos em grande escala em viajar. E sim conviver com os outros, formar uma comunidade e trabalhar. O correto seria isso, uma coisa que leva 30 anos, nuclearizar uma cidade grande. A cidade tem de ter duas escalas de espaços públicos, sejam naturais ou artificiais. Aqueles de escalas de todos - como o Cocó, que é proteção ambiental e lazer - e conjuntos de comunidades equipadas convenientemente com centros de emprego, educação, compras e áreas de lazer. O que dá alto grau de compartilhamento e intercâmbio. Mas a gente está fazendo uma cidade centralizada onde as pessoas passam o dia queimando petróleo e desagregando vida durante o dia, de noite chegam em casa cansada e vão ver televisão. Viva o Pirambu e outros bairros que ainda têm vida local porque desenvolveram localmente algumas oportunidades de trabalho. Porque este é problema: se não tivesse trabalho ali, a calçada não estava cheia de gente não. As pessoas iam chegar em casa de noite.
Lídia - É uma questão que envolve interesses políticos, que são sempre imediatistas. Em Fortaleza, as coisas nascem, crescem e morrem de maneira muito rápida. Eu comecei a namorar meu marido no Mirante, há 15 anos, um lugar onde as pessoas se viam. E que morreu. A Praia de Iracema também teve seu começo, meio e fim. Será que Fortaleza vive uma espécie de esquizofrenia de moda?
Fausto - Mas não é só Fortaleza, isso existe em várias cidades do mundo e tem uma explicação urbanística. Uma cidade não pode crescer sem necessidade. A energia que faz uma cidade é uma coisa sinergética. Nós estamos aqui porque há uma atração, uma relação de interesses. No momento em que se estica por interesse de alguns, a cidade anda sem parar. Novas estruturas são esticadas e alguns, com seu interesse, puxam a cidade pra lá. Se você chegar aqui em 10 anos, nada vai estar no mesmo lugar, o que não aconteceria em Paris, por exemplo. Uma cidade que cresce por dispersão urbana, uma cidade frouxa, que tem um tamanho que não precisa, como é o nosso caso, ela estimula... É uma cidade que usa elementos de plano diretor dos anos 1920, copiado de outro lugar. Nunca houve nem vai ter agora, esse não vai ter também. É uma coisa de botar as pessoas numa sala pra dizer todas as suas vontades e desejos. Um plano diretor não é assim, o outro time joga também. A cidade anda. E andará ainda muito, vai pra Sabiaguaba. E quem paga a ruína que vai ficando atrás? Nós temos cidade demais em tamanho e vida compartilhada de menos.
Lídia - E o resultado disso é o isolamento.
Edmar - Dentro desse emaranhado de coisas faladas, as populações encontram formas e táticas de se manterem vivas e curtirem seu lazer. Existe um jeito favela de ser feliz. Quando você vê uma comunidade inteira se mobilizando... Passa a semana toda trabalhando - na própria comunidade ou tendo que se deslocar -, no corre-corre do dia a dia, e, no fim de semana, encontra energia para pegar um caminhão e ir pro futebol ou pegar um litro de cachaça e uma lata cheia de farofa, pegar a família e ir para um piquinique numa praia. Milhares de pessoas fazem isso, todo fim de semana o mesmo ritual. Recompõem as energias pra próxima semana.
Lídia - Na lagoa da Maraponga tem muito isso também.
OP - Como a questão da violência, hoje na cidade, dinamiza essas relações de convívio?
Lídia - Há uma faceta disso no espaço público que é o isolamento e o medo do estranho. Mas também há o exacerbamento do consumo, que leva o individuo a desejar coisas que não possui e, aliado a isso, o fosso social existente, os altos índices de desemprego. Sempre teve violência, mas nunca teve tanto consumo.
Edmar - A gente estava pensando em fazer um levantamento dos itinerários do crack em Fortaleza, e a gente teve uma fala com um especialista que falou que 70% dos crimes em Fortaleza são os chamados "crimes aquisistivos": o jovem comete crime para adquirir a droga.
Lídia - O resultado disso para o espaço público é gravíssimo, que é o isolamento. Aqueles que possuem muito bens e provocam desejos nos outros vão se isolar. Eles blindam seus carros, suas casas, cada vez mais.
Edmar - Aí a tendência de se instalar os grande condomínios, onde tem toda a infraestrutura básica para uma família conviver. Tem seu espaço de lazer, seu comércio. Cidadelas protegidas.
Fausto - O condomínio seria um sintoma de desagregação da cidade como tal. Sendo a cidade uma base de intercâmbio, com a destruição das comunidades - espaço padrão que consegue ter um sentimento de pertença. Esses componentes de comunidade permitem identificação e troca na escala de vizinhança, arrazoável não-dependência de energia para se locomover e saúde, porque há caminhada para esse intercâmbio, não precisa de cooper. E, ao mesmo tempo, um dos componentes da violência é físico - se o trabalho, a educação, o lazer e o consumo fossem locais, a própria comunidade teria capacidade de administrar os desvios. Mas o que temos hoje é uma comunidade que não é de verdade porque durante o dia ela está vazia. Só permanecem ali os velhos, as crianças abandonadas e os que se recusam ao trabalho. A agressividade nas cidades sempre houve. Tem uma cota normal. Mas nós, aqui, ultrapassamos. Quando um aterfato é oferecido ao uso publico e nele é legível que houve uma tentativa de brindar o cidadão com o mínimo de conforto, ele depreda menos. Quando ele inclui de maneira aberta faixas etárias e sócio-economicas diferentes, isso vai melhor. Mas quando ele agride essa convivência, ele recebe agressões maiores.
Lídia - Isso acontece porque há usos. E tem praças e lugares da cidade que foram feito não para o uso, mas para serem vitrinizadas. Ou não estabelecem comunicação com o ocupante.
Fausto - Os artefatos urbanos e arquitetônicos têm uma sintaxe. Que é complexa e não é uma coisa métrica, mas de inúmeras camadas funcionais, subjetivas, de memória coletiva.
OP - Durante o processo de feitura da reportagem publicada semana passada, muitos dos entrevistados - na Praça Portugal, no shopping center, no Pirambu - se remeteram ao Centro Dragão do Mar e seu entorno como espaços que costumavam freqüentar. Esta pergunta não é apenas para o Fausto: como o Dragão do Mar se inscreve em Fortaleza? O que ele deixou para a cidade, nos últimos dez anos?
Fausto - O Dragão do Mar, vou até aproveitar pra esclarecer, nunca prometeu que ia revitalizar a cidade de Fortaleza (celular toca e a conversa é interrompida). Foi um concurso público, por meio de carta-convite a cinco escritórios. A demanda dessa convocação era de construir um centro cultural, aproveitar ruínas daquele espaço. Se você quer saber minha autocrítica, todo projeto tem defeitos. Independente de ter sido a gente, acho que tem contribuição. Acho que é incluidor, tem diversidade. Nós tivemos estratégia adequada para a cidade que não tem convívio com arte, com museu. Vamos fazer como uma rua, que ocasionalmente você dá olhadinha no museu? Isso ocorre. Uma estratégias de cruzar programas e atividades de tal maneira que em um passeio lá o sujeito volte pra casa e tenha feito várias coisas. Tem problemas, mas não posso concordar que ele é um tipo de fracasso urbanístico. Eu me autocritico, mas beneficiou a cidade. Me arrependo, por exemplo, de não ter forçado a barra para não ter dois elevadores, a rampa é longa... Se eu for dizer os aperfeiçoamentos, vou ficar aqui até amanhã de manhã.
Lídia - O que é legal do Dragão é que tem um uso diverso. A gente vê diferentes usos que não é o do Centro Cultural. As pessoas ficam no entorno da pracinha.
Fausto - E ele próprio. São programas cruzados, onde há a convivência de coisas que nunca se puseram juntas por uma série de tipologias que eram mantidas isoladas. O Dragão do Mar quebra isso. É uma forma de arquitetura que diz: o que me encomendaram, eu tô criando lugares para acontecer; mas tem coisas que nem eu arquiteto sei, mas que o prédio quer que aconteça. Ele foi feito para ter acontecimentos inusitados, como o hip hop embaixo do planetário, poesia embaixo da passarela. Isso demonstra que o espaço é provocador. Ou não?
Lídia - E acolhe a todos.
ÍNTEGRA DA ENTREVISTA
www.opovo.com.br/conteudoextra
QUEM SÃO OS ENTREVISTADOS
Edmar de Oliveira Júnior - Formado em Geologia pela Universidade de Fortaleza (1988), fotógrafo e diretor da organização não-governamental Associação de Ciências e Artes do Pirambu (Arcates), 44.
Lídia Valesca Pimentel - Antropóloga e professora de Sociologia da Faculdade Farias Brito, 35. Sua tese de doutorado, pela Universidade Federal do Ceará, foi Vidas nas Ruas, Corpos em Percursos no Cotidiano da Cidade. A dissertação de mestrado, pela mesma instituição, foi Praça José de Alencar, Pedaços da Cidade, Palco de Vidas.
Fausto Nilo - Arquiteto, urbanista, poeta e letrista, 63. Ao lado do também arquiteto Delberg Ponce de Leon, desenhou os bancos da Praça do Ferreira e fez o projeto do Centro Cultural Dragão do Mar, dentre outras inscrições na cidade.
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