Camila Vieira
da Redação
Filho do cantor e compositor João Bosco, o poeta, escritor e letrista Francisco Bosco acaba de lançar seu novo livro de ensaios. Banalogias se compromete em refletir sobre o cotidiano sem o rigor da filosofia acadêmica
06/09/2007 02:05

No meio acadêmico, ele se chama Francisco de Castro Mucci, doutorando em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador de filosofia, pós-modernidade e música popular brasileira. Na mídia, ele é conhecido como Francisco Bosco, 30 anos, filho do cantor e compositor João Bosco, mas também poeta, escritor e letrista. Algumas de suas composições já foram inclusive interpretadas por Maria Rita, Simone e Arnaldo Antunes. Mas o gosto de Francisco Bosco pela teoria nunca esteve completamente separado do seu próprio cotidiano. Insatisfeito com o rigor exigido na faculdade, começou a escrever textos que misturavam poesia, prosa e fragmentos filosóficos. "Queria que o prosseguimento do meu projeto de escrita mais pessoal, da minha produção fora da universidade, fosse de algum modo uma continuação do que conseguira ali. Ao mesmo tempo, sentia que a escrita poética, como tal, se esgotara em mim", revela, em entrevista ao O POVO.
Nessa época, Bosco se viu na missão de aproximar o ensaio da poesia. "Um ensaísmo que, de alguma forma, pudesse sintetizar tanto a minha experiência como poeta quanto aquela como teórico", explica. Assim surgiu o projeto do livro Banalogias, que acaba de ser lançado pela editora Objetiva. Uma coletânea de 26 ensaios com reflexões sobre o dia-a-dia, ou seja, uma espécie de filosofia do banal. Alguns ensaios são dignos de uma ironia próxima a da série de comédia norte-americana Seinfeld, uma das principais influências do autor. É o caso de Psicologia da Acne: "Tudo o que se precisa sobre as espinhas é como fazê-las desaparecer. Espinhas são carentes. Elas se alimentam da atenção angustiosa, nervosa ou desesperada que lhes é dispensada. Experimente, entretanto, ignorá-las. É fatal, não resistem". Outros textos são mais sérios e tratam de temas tão distintos quanto morte e paixão.
Inspirado na mesma idéia do livro, Bosco já prepara a criação de um programa de rádio, que deve ir ao ar em outubro na MPB FM (90,3 FM), do Rio de Janeiro. "Vou entrevistar e conversar com filósofos, artistas, pensadores da cultura, em suma, os mais distintos desclassificados, gente que tem algo interessante a dizer".
O POVO - Em entrevista recente, você afirmou que o primeiro texto de Banalogias, Dialética dos Playboys, é bastante autobiográfico. O texto se reporta a dois tipos de playboys: os nostálgicos (que se entregaram ao mundo do trabalho) e os tristes (que não puderam se livrar da condição de playboys). Você se considera que tipo?
Francisco Bosco - Eu me considero um ex-falso playboy. Nunca consegui ser um playboy, embora tentasse me adequar àquele modo de vida. Na adolescência, como se sabe, procuramos as identidades grupais. Mas nunca pude me identificar plenamente com nenhuma dessas identidades prÕt-à-porter que se ofereciam então. Meu lugar era uma espécie de não-lugar, uma atopia, como digo no livro. Essa atopia, por sinal, considero a experiência fundante de uma vida artística ou filosófica, ou das grandes mudanças de vida, de um modo geral.
OP - É doloroso ter que assumir - ainda que implicitamente - essa condição pessoal em texto que já está sendo lido por várias pessoas?
Bosco - Essa é uma questão interessante, que envolve ética e epistemologia. Expor-se é algo delicado, e expor pessoas próximas instaura a questão ética. Deve-se sempre analisar caso a caso, com cuidado. A diferença fundamental - essa é a dimensão epistemológica - é que, em ficção ou mesmo poesia, há um pacto de distinção entre o narrador ou o sujeito lírico e aquilo que ele revela, ao passo que, nos gêneros argumentativos, como a filosofia e o ensaísmo, o autor está colado a suas idéias, exposto por elas, portanto mais vulnerável.
OP - Isso quer dizer que, com Banalogias, você se sentiu mais vulnerável como autor?
Bosco - O que eu procurei dizer é que os gêneros não-ficcionais não contam com essa espécie de proteção que é a diferença entre o autor e o que ele diz. Nesse sentido, todos os filósofos, ensaístas, estão mais expostos que os ficcionistas.
OP - O bom-humor de parte dos textos se assemelha muito ao non-sense típico de Seinfeld e seu discurso sobre o nada. Até que ponto a série serviu de referência para a realização de Banalogias?
Bosco - Referência talvez seja uma palavra forte demais, mas há certamente uma semelhança, principalmente naquela espécie de epílogo dos programas, em que Seinfeld anuncia o tema do dia em cima do palco, fazendo stand up comedy (show de humor em que o comediante apresenta piadas sozinho no palco). Nesse momento, ele costuma iniciar sua fala com a seguinte frase: "Have you noticed that..." ("Vocês já notaram que..."). Ou seja, Seinfeld vai falar de uma banalidade, de algo que está ao redor de todos em seus cotidianos, mas que esconde dimensões ou estranhezas que provavelmente ninguém percebeu. A operação de Seinfeld é, portanto, aquela de uma "banalidade estranhada", o mesmo que transformar o banal em acontecimento, porque uma banalidade só é banal na medida em que é naturalizada. Banalogias começa nesse estranhamento da banalidade, a que se segue um movimento de investigação dos fenômenos banais e de suas lógicas constitutivas: daí "banalogias", a revelação das lógicas secretas do mundo banal.
OP - Seus textos também denotam preocupação com a ética, que se apresenta como conceito explícito. É a "estranha ética" dos playboys, o "gesto ético" da tatuagem, a "moralidade" da magreza. O que te interessa na conduta humana em relação ao outro, que te fez definir a essência de Banalogias?
Bosco - Muito bem observado. Há uma prática teórica que sempre me incomoda muito, que é a dos comentários filosóficos minuciosos sobre nonadas (ninharias) conceituais completamente distantes do exercício cotidiano de nossas vidas. Ou seja, essa tradição exegética da teoria, que o gênio da língua oral sabiamente chama de "punheta intelectual". Ok, "punheta intelectual" pode ser interessante, tudo pode ser interessante, mas eu admiro e considero mais importante o gesto do pensamento ao rés-da-vida, que intervém mesmo na vida, que pode nos ajudar a conduzi-la, que pode provocar modos de viver, que tenha a vida como horizonte e destino. Esse gesto é aquele que reencontra o sentido etimológico da própria palavra "interessante": estar no meio do ser, participar. E é o gesto que está nas origens da filosofia: os gregos antigos não concebiam a filosofia a não ser como investigação ética; o que eles discutem é primordialmente as formas de vida, qual é a melhor maneira de viver.
OP - Além de escritor, você é poeta, letrista e agora filósofo do cotidiano. De que forma essas linguagens se cruzam ou dialogam no seu pensamento sobre o mundo?
Bosco - Antes de tudo, é preciso dirimir eventuais mal-entendidos. Banalogias não é um livro de filosofia, se considerarmos a filosofia como um campo de saber que tem seu desenvolvimento próprio, sua história, seus conceitos. Banalogias não se insere na tradição da história da filosofia, não dialoga diretamente com essa tradição, embora ocasionalmente refira-se a ela, evoque alguns de seus conceitos ou filósofos. Ao mesmo tempo, eu diria que Banalogias é um livro de espírito filosófico. O que chamo de "espírito filosófico" é uma paixão pela transfiguração do mundo, pela instauração de perplexidades, de surpresas. Nada diz melhor sobre esse espírito do que a frase de um dissidente soviético, contando por que resolveu estudar filosofia: "É que os filósofos mostram que coisas que julgamos iguais são completamente diferentes, e coisas que julgamos completamente diferentes são iguais".
OP - O que te atrai na filosofia e o que te afasta dela?
Bosco - O que me atrai na filosofia é a possibilidade que ela oferece de ver o mundo com olhos de admiração, olhos espantados; e o que me afasta (acho que afasta muita gente) são as exegeses minuciosas e estéreis dos comentadores.
OP - Filosofia pop parece ser o lugar-comum de boa parte dos pensadores, que procuram aproximar a filosofia da vida cotidiana. A filosofia pula os muros da academia e se populariza na mídia, em cafés filosóficos, em livros de bolso, pequenos manuais de "leitura fácil". Em uma sociedade onde qualquer coisa vira produto de consumo, que lugar ocupa a filosofia? O que ela pode fazer para não cair no didatismo anestesiante?
Bosco - Sua observação é muito pertinente. Lévi-Strauss (antropólogo e filósofo belga) conta uma história interessante. Quando ele estava entre os Nambiquara, na década de 30, durante uma negociação tensa entre dois chefes de clãs diferentes, um dos chefes fingiu que sabia escrever para obter vantagem na disputa. Esse chefe, que nunca dera a menor bola para a escrita enquanto Lévi-Strauss convivera com sua tribo, agora dava-se conta de que ela poderia ser um instrumento de poder. O notável dessa anedota é que ela mostra que o poder talvez seja indissociável do conhecimento. Com efeito, muitas pessoas hoje procuram cursos de filosofia ou freqüentam cafés filosóficos para adquirir certo verniz intelectual que possam ostentar em suas rodas sociais. Mas isso não é uma questão para a filosofia, e sim para aqueles que a estão aproveitando segundo esse interesse. A filosofia pode - e a meu ver deve - procurar se aproximar de um público mais amplo despindo-se um pouco desse arsenal erudito, dessa proliferação de pré-requisitos que fazem com que para se ler um livro seja preciso ser doutor. Pode e deve tornar seu texto ou sua fala mais atraente, mais prazerosa, mais instigante. Isso é tudo. O resto cabe às pessoas que a procuram. Se a procurarem com disponibilidade existencial, aí o mundo se erotiza.
SERVIÇO
Banalogias - Livro de ensaios do poeta, escritor e letrista Francisco Bosco, dentro da Coleção Filosófica, que também inclui os volumes Enigmas da Culpa, de Moacyr Scliar, e Arqueologia dos Prazeres, de Fernando Santoro. Editora Objetiva. 208 pág. Preço médio: R$ 32,90.
TRECHOS DO LIVRO
Tatoo You
"Essa escolha dos espaços do corpo a serem tatuados resultará num poderoso erotismo, pois a tatuagem torna-se, dessa forma, uma inscrição que produz uma segunda nudez: a tatuagem é uma intimidade mais íntima que a pele, e que só se revela depois da revelação da pele. É o nu do nu. Esconder a tatuagem, escolher um espaço discreto do corpo, assume o sentido de uma economia da intimidade. Revelar a tatuagem é revelar o que, no corpo, esconde-se mais que o próprio corpo, com o propósito, entretanto, de se revelar"
Dialética dos Playboys
"Pois como se reconhece um playboy decadente? Simples: ele é igualzinho ao que era há dez anos. Tudo mudou à sua volta; ele, não. A melancolia dos playboys decaídos decorre desse auto-aprisionamento, dessa impossibilidade de reinventar-se. Vestem-se do mesmo jeito, fazem as mesmas coisas, falam a mesma linguagem. Mas aquilo que era liberdade é agora um gritante beco sem saída existencial. Sem ter pra onde ir, eles se repetem. Mas se repetem sem graça, sem beleza, sem vigor. Os playboys estão velhos aos 30 anos".
Moralidade da Magreza
"A magreza é para o roqueiro como a pobreza para os estóicos ou a cicuta para Sócrates: o signo que inscreve, no corpo e no ato, em sua irrefutabilidade, uma evidência, uma prova. A magreza é a prova da urgência. De Jimi Hendrix a Mick Jagger, de Sid Vicious a Iggy Pop o relevo das costelas e a linha do abdome encerra toda uma moralidade. O rock e o romantismo não podem suportar a gordura, nem mesmo a robustez, sem algum incômodo".