01/09/2007 14:26
Nos shoppings, recupera-se, de alguma forma, o tipo de passeio muito praticado no Centro da cidade dos anos 1940, 1950 e 1960: o footing. "Ou seja, bater perna, percorrer a pé o perímetro mais movimentado da cidade nos fins de tarde.
Olhar as vitrines. A sedução mercantil se transmigra de um espaço aberto e vai para um local com ambiente climatizado, onde as pessoas se sentem seguras. Tem uma diversidade de serviços todos à mão, em um ambiente limpo", pontua o historiador Antônio Luiz Macêdo e Silva Filho. Mas, claro, há modulações: o ambiente muito planejado comercialmente tira todas as marcas de desconforto que o dia a dia de um centro de cidade traz, como pedintes, gritos, esbarrões.
Sob o olhar mais atento, percebe-se que, em um movimento duplo, o shopping acaba trazendo muitos elementos da rua, como pontua o pesquisador Gilmar de Carvalho em Tramas da Cultura: Comunicação e Tradição (Museu do Ceará, 2005). Como é o caso dos carrinhos de pipocas, dos balcões de café e de tapioca, das rotatórias, dos jardins e, no caso do Iguatemi, até do transporte coletivo alternativo: as topics estendem suas linhas pelas ruas internas do centro comercial.
Para Silvana Pintaudi, professora do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a sociabilidade que se estabelece no shopping center ocorre entre iguais. "Não existe o diferente, eles estão excluídos. O diferente pertence à rua, que é pública, não ao espaço que parece público, mas na verdade é privado. Ele pretende ser uma cópia da rua, mas não é porque não chove, a luminosidade não se altera, ninguém pede esmola, o tempo parece não existir, não tem passeata, muito menos sobressaltos".
Para a professora Valquíria Padilha, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na USP, o shopping center é um espaço privado que se traveste de público, mas que seleciona a entrada de seus "cidadãos". "Não acredito que o shopping seja uma cidade que desenvolva a política na sua dimensão de polis, de discussão e reflexão coletiva. O shopping é um espaço de consumo que agregou lazer, serviços, alimentos, cultura - por isso eu o chamo de 'shopping center híbrido' - para tentar substituir os espaços públicos da cidade. Ao freqüentarmos esse espaço de compras como se fosse um espaço público, estamos deixando de cobrar dos governos a sua parte na construção de espaços realmente públicos de cultura e de lazer".
O primeiro shopping de Fortaleza foi o Shopping Center Um, erguido em 1974. Para Antônio Luiz, foi um marco não apenas pelo pioneirismo, mas por já trazer a diversidade de serviços de lazer. "Basta lembrar que nós tínhamos salas de cinema já no primeiro shopping. Em relação à instituição do Center Um, você pode pensar uma cidade que está cada vez mais se projetando para o Leste, não só no sentido da elevação do preço do solo urbano ou da dignificação para as altas funções residenciais, mas de ali agregar serviços que passam a ser relativamente independentes do Centro da cidade". A criação do shopping incidiu sobre o tecido urbano. Essa, aliás, de acordo com Silvana Pintaudi, é uma das grandes características do shopping center, o que apenas ressalta seu poder de aderência. Ao se implantar, causa nova centralidade. Toda uma órbita de movimentação se forma ao redor dele. Basta citar como exemplos o entorno de ambulantes próximo aos pontos de ônibus que dão acesso ao Iguatemi e, em menor escala, o entorno do Shopping Benfica e a "praça do North Shopping". (NP)
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