os "templos do consumo", se apresentam como principal espaço de cultura e lazer
01/09/2007 14:26

Pelo menos duas vezes ao mês, a família de seu João Elton Gomes Ferreira, 34, sai do distante Jardim Guanabara e chega ao iluminado North Shopping, no domingo em fim de tarde. Pai, mãe, cunhada, sogra, filhos, sobrinho. A família do gesseiro mora quase em frente a uma pracinha. "Mas lá não é muito bom de se passear devido ao perigo constante. E aqui a gente se sente mais seguro, de certa forma", pontua dona Sulivane Gomes, 34, auxiliar de cozinha e cunhada de seu João. Percorrendo a praça artificial montada no terceiro piso do North Shopping, entre os cinemas e a área de alimentação, a prática da grande família é síntese do passeio familiar contemporâneo: Everton, 8, e Allef, 13, ficam entretidos na área de brinquedos e jogos eletrônicos, enquanto os adultos vão "procurar as novidades", como explica dona Sulivane. Nem sempre se gasta dinheiro - nem sempre se tem -, mas o divertimento está no bater perna, no percorrer os corredores iluminados, no olhar as vitrines. "Se não tivesse o shopping, a gente ia só comer uma pizza num restaurante e acabou-se", lamenta seu João.
Certa vez, o arquiteto e professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, Romeu Duarte, perguntou a seus alunos: "Se o Iguatemi pegasse fogo hoje, o que isso significaria para vocês?". Tragédia, claro. Afinal, foi ali onde muitos firmaram amizades, deram o primeiro beijo, iam fazer compras com os pais etc. "Ou seja, pra eles foi construída uma memória afetiva daquele espaço que pra muita gente não significa nada. Shopping center, durante muito tempo, foi uma expressão pejorativa. Mas esses ambientes não só são um novo lugar de sociabilidade, mas começaram a virar também lugar de memória". O dentista e professor universitário Giovany Cruz, vive o slogan do shopping: "Iguatemi: há 25 anos, sua vida acontece aqui". "Basicamente, a nossa adolescência foi aqui. A gente ficava no estacionamento, né? (confirma com o amigo ao lado, o advogado Marcos Pimentel, 35). Tô com 34, praticamente me criei aqui. A gente está morando em Juazeiro (do Norte) e lá a cultura do shopping tá chegando nos últimos cinco anos. Essa cultura é importante mais em nível pessoal do que econômico", diz, ao lado da esposa que carrega a filhinha de um ano, atenta às luzes e cores do shopping.
A segurança, no contexto brasileiro de violência crônica, é um dos principais motivos para se eleger o shopping center como reduto. "Principalmente quando você está com a família, que você não quer expor ao perigo que a cidade representa", afirma o advogado Marcos Pimentel, 35. Criado nos Estados Unidos nos anos 1950, desde o início o shopping emergiu como uma cidadela artificial e ideal, que não tivesse os problemas urbanos comuns, como trânsito, chuva, sol, falta de estacionamento. Hoje, essa cidade artificial ideal investe prioritariamente em segurança, com cerca de 30% dos custos condominiais destinados a aquisição de equipamentos, contratação e treinamento de mão-de-obra, de acordo com informações do sítio eletrônico da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). "Aparentemente, não há nenhum 'toque brasileiro' nos shopping centers, a não ser a ilusão propagada de que nesse espaço encontra-se mais segurança. Na França, por exemplo, onde estudei os shopping centers, os franceses não apontam segurança como um dos atrativos. Para eles, o que mais interessa é a praticidade. Isso fica evidente quando se entende que o Brasil é um dos países campeões em desigualdade social...", pontua Valquíria Padilha, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo, e autora de Shopping Center: A catedral das mercadorias (Boitempo, 2006).
A comodidade é outro elemento apontado por quem freqüenta. No shopping com as filhas e o genro, a advogada Maria Cely Sobreira, 46, confessa que chega a ir até três vezes por semana ao Iguatemi. "Passear? Pra gente, hoje, é no shopping". Há mais de 20 anos, seus passeios semanais se davam em outras esferas. "A gente ia pra Beira-Mar e sentava nos banquinhos...". Hoje, enquanto a filha de 17 e o namorado vão ao cinema, dona Maria Cely e a mais nova, de 11, saem "passeando" pelos corredores limpos e climatizados. Toda vida que vai ao shopping, é batata: acaba comprando alguma coisa, mesmo sem ter ido com o intuito de gastar. "E eu faço muitas compras. A gente roda, roda, roda, mas acaba voltando porque acha que aqui tem as melhores marcas. A gente vai pra (Avenida) Monsenhor Tabosa, vai para outras lojinhas... Mas como elas estão dispersas e a gente quer ganhar tempo...". A paulatina concentração de lojas e serviços foi, aponta Rosemere Maia, professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS/UFRJ), fator fundamental para o surgimento e a consolidação dos shopping centers como espaço de lazer. "E lá, as pessoas justificam que podem 'resolver a vida'. Podem deixar o filho no cercadinho, ir ao cabeleireiro, deixar a roupa na lavanderia". Segurança e comodidade, na cidade ideal aberta ao trânsito de domingo a domingo - mas que só funciona das 10h às 22h. (Natália Paiva)
O SHOPPING É PARA TODOS?
Para questionar isso, em 4 de agosto de 2000, um grupo de cerca de 100 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi passear no Shopping Rio Sul, um dos mais chiques do Rio de Janeiro (RJ). Os militantes olharam vitrines e comeram marmita na praça de alimentação. A segurança foi reforçada, 50 policiais militares foram ao local e a Associação Brasileira de Shopping Centers entrou na Justiça com um pedido de medida cautelar para proibir novas entradas de sem-terra em shopping centers.
O QUE É
O shopping center nasceu nos EUA, nos anos 1950, como materialização do chamado "american way of life" e do consumismo desenfreado. No Brasil, o primeiro shopping center foi inaugurado em 1966, o Iguatemi de São Paulo. O cearense Grupo Jereissati foi responsável pela divulgação desse modelo de centro comercial pelo Brasil, com a Iguatemi Empresa de Shopping Centers S.A. "A segurança, a facilidade de encontrar tudo no mesmo lugar e a idéia de progresso foram os maiores atrativos para os brasileiros elegerem esse 'templo do consumo' como lugar privilegiado para compras e lazer", pontua Valquíria Padilha, autora de Shopping Center: A catedral das mercadorias (Boitempo, 2006).
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