Camila Vieira
da Redação
A vida e a trajetória artística do cantor e compositor cearense Belchior é o mote do programa nomes do Nordeste, hoje, às 19h, no Centro Cultural Banco do Nordeste. Em entrevista por telefone ao O POVO, Belchior antecipa o debate
28/08/2007 00:59

Feito o menino levado e inquieto que foi na infância, Belchior não pára. Com uma agenda lotada de shows pelo Brasil afora, ele mal consegue tempo para dar uma entrevista sequer. E foi uma peleja para a reportagem do O POVO conseguir contactá-lo. Telefonemas aqui, e-mails ali. Nada de resposta. Após três dias, veio a compensação: uma conversa generosa por telefone, na última tarde de domingo. Eram apenas 10 minutos - por recomendação da assessora -, mas o bate-papo se estendeu por meia hora. "Estou trabalhando muito", desculpou-se. Apesar de seu último álbum ter sido lançado há oito anos - o duplo Auto-Retrato (1999) -, Belchior continua na ativa. Seja nos constantes shows que apresenta ou mesmo traduzindo A Divina Comédia, de Dante Alighieri, um de seus livros de cabeceira. Para completar, prepara um novo CD que inclui músicas com parceiros e uma caixa de DVDs com três volumes que promete ser a grande retrospectiva de sua carreira, sem deixar de acrescentar material musical inédito.
O novo projeto de Belchior ainda não tem nome. "Esse DVD é um trabalho muito apurado, que vai demorar mesmo. Além da pesquisa com coisas já feitas atrás, há músicas novas, depoimentos de parceiros. Estou trabalhando muito nisso com muito cuidado e carinho. Quero fazer um trabalho de porte cinematográfico e não apenas essa coisa de filmar um show". Belchior não se contenta com pouco. Quer sempre fazer diferente. Fugiu de sua casinha em Sobral aos 15 anos para tentar a vida na cidade grande, em Fortaleza. Na juventude, largou a Faculdade de Medicina para seguir carreira musical, mesmo a contragosto da família. Logo depois, na década de 70, partiu para o Sul do Brasil, com seus "25 anos de sonho e de sangue", seguido de grandes nomes da música popular cearense, como Fagner, Ednardo, Téti, Fausto Nilo, Rodger Rogério e outros da turma do Pessoal do Ceará. Mesmo antes de gravar seu primeiro álbum solo A Palo Seco (1974), Belchior chegou a morar em 28 lugares. "Isso até que foi muito bom, porque hoje, não tenho apego a lugar nenhum. Moro aqui, amanhã ali, não me interessa. O que vale mesmo é a minha presença no mundo, como um ser útil", chegou a afirmar ao O POVO em 1976, em pleno início de sua carreira.
O nomadismo também se reflete na musicalidade de Belchior. Suas canções não se restringem a elementos considerados nordestinos, mas apontam para o que há de mais universal na "vida do cidadão comum". Discutindo sentimentos profundos, a contradição humana, o conflito entre gerações, suas músicas refletem forte disposição filosófica e poética. Sem apelo para refrões, mas a la Bob Dylan, uma de suas principais referências musicais. Contudo, nem mesmo a densidade das letras afasta Belchior de seu público. Pelo contrário. Seus shows costumam ser marcados pela participação intensa de quem está na platéia, curtindo as performances e "o canto torto feito faca" do cantor e compositor cearense, de bigode farto e madeixas revoltadas. É esse Belchior que o Brasil conhece e que também pinta e desenha, porque tem "espírito de renascentista", de sempre fazer de tudo um pouco e nada ser suficiente para acalmar esse rapaz latino-americano. Afinal, "tudo é divino, tudo é maravilhoso".
O POVO - Apesar da origem humilde, Belchior, sua infância em Sobral foi marcada por atividades que você considera como "divertimentos": foi menino de recado, vendedor de galinhas, artesão. Quais as melhores lembranças que você tem dessa época, ao lado dos seus 23 irmãos?
Belchior - Eu passei minha infância em Sobral e posso dizer que minha vida lá foi a base pra tudo. Foi lá que eu vi a arte das igrejas, os mestres, as bandas de músicas. Todas essas coisas que foram significativas na minha infância, durante o período dos meus estudos, que foi a coisa mais importante que aconteceu na minha vida. Nesse tempo do colégio de padres, a música era uma disciplina normal no currículo. Essas coisas me encaminharam para o fazer artístico.
OP - Sobre essa formação musical com padres no Colégio Sobralense e depois no mosteiro em Guaramiranga, há um dado interessante. Você começou a estudar canto gregoriano em latim, além das primeiras noções em filosofia. Essa influência se reflete bastante nas suas composições. Mas tal educação rigorosa e disciplinar determinou seu comportamento na hora de compor? Até que ponto essa exigência se reflete no seu processo criativo?
Belchior - Não afeta diretamente, porque eu sempre fui rigoroso no meu trabalho, né? Não só do ponto de vista estritamente do fazer artístico, como também do exercício de meu ofício. Com muito cuidado. Sou muito disciplinado nisso. Faço exatamente as coisas que julgo importantes e necessárias para o desenvolvimento da minha arte. Isso é o que acho importante. Então, todos os condicionamentos que são hoje naturais, vindos da mídia ou de uma pressão externa, eu prefiro deixar de lado em benefício de fazer meu trabalho como acho que devo fazer.
OP - Como você chegou a confessar, sua família era "terrivelmente musical". A mãe cantava no coro da Igreja, os tios eram violonistas de mão-cheia, o avô tocava sax e flauta e, pra completar, a bodega do pai reunia os melhores violeiros da região. Mas, de alguma forma, o abandono do curso de Medicina para seguir a carreira musical frustrou o sonho de seus pais. Naquela época, como você absorveu essa contradição?
Belchior - Olha, minha família sempre foi muito musical no sentido do gosto. Nunca teve ninguém profissional na minha família. Meu avô tocava flauta e sax, minha mãe cantava no coro da igreja, tinha aqueles tios boêmios, que cantavam e tocavam violão. Seresteiros, né? Nesse período, ouvia muito rádio. Tinha muito alto-falante no Ceará. Participei de todas aquelas festas populares, que em Sobral era muito comuns, né? Inclusive tinha até rádio-baile, que eram bailes comandados pela música do rádio. E tinha muita audição de música, no Music Hall, na sala de música lá em Sobral mesmo. Isso tudo mudou meu gosto profissional, mas inicialmente não tinha intenção profissional com a música. Meu gosto mudou mesmo dentro da universidade, no tempo do movimento estudantil, quando vi que a música era uma forma muito próxima da poesia, da vida de comunicação no Brasil. Então, deixei a escola pra fazer música. Claro que isso frustrou um pouco a expectativa da minha família, que queria mais um doutor (risos), mas acho que no caminho artístico você deve encontrar o fazer. A necessidade mesmo da expressão artística leva a essa coisa.
OP - Não é à toa que suas primeiras canções já falam das relações familiares, do conflito de gerações, da necessidade de se rebelar artisticamente para construir algo novo. Aos 15 anos, você fugiu de casa. O que representou essa mudança na sua vida e na sua carreira como músico?
Belchior - Olha, essas fugas de casa foram constaaaantes (risos). Sempre fui um menino muito levado, inquieto e isso me levou a fugir várias vezes de casa, mas eu sempre voltei. Essas fugas mais longas foram mesmo pra estudar no mosteiro, por exemplo, ou pra me ausentar de casa para ser estudante na cidade. Coisas da rebeldia estudantil necessária, né? Num momento da vida, você tem que afirmar sua própria vontade e seu próprio modo de existência. Só existe liberdade, onde você pode dizer não. Então, eu sempre disse o não que era necessário.
OP - E você despertou definitivamente para a música, no contato com os amigos da faculdade e com a participação em programas de televisão, como Porque Hoje é Sábado, da TV Ceará, ao lado da turma do Pessoal do Ceará. Como era a atmosfera daquela época? Como o pessoal se reunia?
Belchior - Essa coisa do movimento estudantil era bastante importante, porque fazia da universidade um centro de discussão da vida brasileira, da arte brasileira e, sobretudo das formas atuais e contemporâneas daquela altura de vida para o Brasil. Essa abertura para a comunicação, a informática que estava começando naquele tempo... A própria televisão, que foi um meio de comunicação absolutamente importante pra inovação e confirmação da música popular. Então, havia um ambiente muito especial dentro da faculdade, que favorecia esse tipo de invocação artistica. A política estudantil e esse desejo de mudar a vida brasileira, naquele tempo sob ditadura e censura. Todas essas coisas eram motivações para pessoas mais conscientes, mais sabedoras em si, ou seja, estudantes que se dedicaram a esse tipo de exercício. O que acho fundamental nesse ponto de vista é que todos os companheiros que estavam apontando para a música popular brasileira estavam dentro da universidade. O Chico Buarque com o pessoal da Arquitetura, que tinha deixado a escola. O Caetano que também veio da Filosofia, o Gil era administrador de empresas. Juntando com exemplos antigos, como o Noel Rosa que havia deixado Medicina. O Tom Jobim que deixou Arquitetura. Havia toda uma plêiade de artistas interessados, de profissionais liberais que incentivavam outros a dar sequência a uma arte mais consciente, mais radical que aquele simples romantismo boêmio característico de outra geração. Acho que as grandes linhas universitárias que forneceram não só os nomes, mas criaram minha geração foi a própria Faculdade de Medicina, no parque das mangueiras, onde havia uma vida política muito viva e interessante, tanto na disputa pelos diretórios acadêmicos como também na vida política nacional. A Arquitetura abriu seu centro acadêmico pra festas de estudantes onde se ouvia muita bossa-nova e sobretudo ouvia discos que estavam surgindo naquele momento. E depois a Faculdade de Direito que era o centro de discussão, que promovia grandes palestras e encontros, como foi um famoso do qual participaram o Gilberto Gil, Caetano Veloso, Torquato Neto e Capinan, que foi um encontro decisório para que personalidades cearenses se interessassem pela música popular.
OP - Depois de compor Mucuripe com Fagner e ganhar o IV Festival Universitário da Canção com Hora do Almoço, a Continental queria assinar um contrato para um disco seu com maior apelo à musicalidade nordestina, mas você não aceitou. Queria acrescentar elementos do rock, do blues. Com Auto-Retrato (1999), as regravações de suas músicas são cheias de efeitos eletrônicos contemporâneos. Você acha que a busca do diferente causa algum incômodo?
Belchior - Pessoalmente, eu não sinto incômodo nenhum por fazer esse tipo de música, porque as origens mesmo do meu trabalho têm esse tipo de universalidade, esse desejo de universalidade. Eu sempre busquei juntar aquelas origens musicais da arte brasileira e nordestina com elementos mais contemporâneos, da arte musical àquela altura. A minha formação foi naturalmente do trabalho dos Beatles, de Bob Dylan e de outros compositores. E falo dos Beatles mais da fase típica dos (álbuns) "Sargent Peppers", "Abbey Road" e em especial a figura do John Lennon. Então, acho que meu trabalho sempre correu um pouco solitariamente, no sentido de adotar comportamentos artísticos que não fossem tipicamente nordestinos. Sempre quis fazer uma música mais universal. Até mesmo porque trabalhei sempre com uma forma musical mais geral, universal, essa coisa da balada, que ultrapassa e extrapola essa noção da regionalidade. Eu não preciso recorrer ao nordestinismo, porque basta olhar minha figura e minha voz e a salada das minhas canções, para ver que sou do Nordeste, né? É porque, às vezes, a gente imagina que uma coisa tipicamente nordestina e regionalizada não precisa ter universalidade maior. Acho que isso acontece com toda a grande arte no mundo todo. Você escolhe elementos regionais para que ela atinja o universal e possa interessar a todos.
OP - Em entrevista, você afirmou que sua "visão de arte é muito materialista" e que "não compreende a idéia de missão artística". Por outro lado, o discurso de suas canções é marcado pelo engajamento político. Elas falam do sonho brasileiro, do desencanto diante da não realização de ideais. São canções ainda pertinentes no mundo de hoje. De que maneira você acha que suas músicas tocam as pessoas?
Belchior - Eu acho o seguinte, que eu continuo materialista. Sou materialista do ponto de vista filosófico naturalmente, né? As minhas canções, ao contrário do que muita gente pensa, são uma prova evidente disso, dessa visão anti-romântica da realidade. A minha música foi toda feita... é... como uma espécie de crítica ao sonho de uma geração, a essa idéia romântica da realidade e que, por si mesma, pode ultrapassar o cotidiano pela arte. E acho que a minha música continua interessante, porque ela trata desses temas. De temas atemporais, vamos dizer, base da cultura brasileira contemporanea, que aparece com uma dose de acidez e crítica muito intensa a cada canção. Essa questão da ironia é um dos pontos mais evidentes do meu trabalho.
OP - Nos seus shows, as pessoas geralmente cantam todas as suas músicas, que não são muito fáceis, pois são longas e têm muitas referências literárias e filosóficas. Você conquistou um público considerável, sem se amarrar à lógica do mercado. A que você atribui isso?
Belchior - Eu atribuo isso ao bom gosto do público (risos). Atribuo a uma larga faixa da população jovem, humana, que se interessa realmente por um tipo de música que ultrapassa a cultura simples da comunicação. Em todos os lugares por onde viajo, vejo um público muito interessado em música popular brasileira construída de forma mais poética, que tem uma linguagem que ultrapassa essa questão da comunicação pura e simples, sabe? De gostar de uma canção que é mais do que uma massagem pura para os ouvidos do que simplesmente uma construção para corações e mentes. Acho que a música de toda a minha geração foi caracterizada por este tipo de impulso de cultura e poesia que é característico delas. Taí o trabalho do Chico, que continua no maior sucesso. Acho que essas coisas vencem a questão da sazonalidade da música, de determinados tipos de música tropical que são feitos pra vender. E que tem seu lugar, não tô discutindo isso. Só estou dizendo que meu tipo de música é outro. Quero fazer algo mais interessante e o sucesso é fazer bem-feito. É o artista fazer aquilo que ele imagina responsavelmente e intelectualmente e é o que eu pretendo fazer.
OP - No Nomes do Nordeste, você vai compartilhar com o público sua história de vida e descrever sua trajetória artística. Revendo esses anos todos de carreira, o que permaneceu para você em termos de afetividade com a música?
Belchior - Eu quero dizer que é muito bom fazer um trabalho como esse que vou fazer aí. É um trabalho muito democrático, uma oportunidade de discussão, de esclarecimento de determinados momentos da arte brasileira, da arte cearense em particular. Acho que é de absoluta importância, porque essa ligação entre a música e a universidade, entre a música e os estudantes e a vida do cidadão comum é o que vai dar a matéria do que se vai cantar. Todo meu acesso pela música continua vindo disso, de saber que a música popular brasileira, que faço com tanto orgulho é uma música que diz respeito à vida do cidadão comum, do homem comum no Brasil. Pode ser um veículo muito bom de crítica do sonho, de aproximação com a linguagem da poesia, e também apontar para a possibilidade de liberdade, que é sempre o objetivo fundamental, né? Seja música, poesia, literatura, naturalmente conquistar a liberdade é o objetivo de qualquer artista.
OP - Uma última pergunta, para encerrar. Além de cantor e compositor, você também é artista plástico. Como surgiu o interesse pela pintura?
Belchior - Olha, eu não gosto muito do nome artista plástico, não viu? Não sou artista plástico, não (risos). Eu sou desenhista e sou pintor. Não sei ser artista plástico, porque pode ser alguém que faça instalação, sabe? Eu não. Eu desenho e pinto. Esse interesse vem desde a universidade, do começo do meu trabalho, ilustrei as capas dos meus CDs. Enfim... Isso aí é uma constante na vida de alguns artistas, de músicos não só do Brasil, mas do exterior também. Bob Dylan é um grande desenhista e ilustrou várias capas dele. John Lennon fez grandes capas, o Noel Rosa era desenhista, o Dorival Caymmi, o Duke Ellington. Cineastas nem se fala, né? Fellini, John Huston, o Eisenstein. Muita gente se interessou pelo desenho e pela pintura como uma forma de arte em que sua própria linguagem pode ser expandida.
OP - Mas, para você, a pintura seria uma espécie de complemento à música?
Belchior - Não sei muito se seria complemento, porque tenho espírito de renascentista. Eu faço o que posso e o que faço não é mole (risos). É assim. Eu não pretendo completar minha música com a minha pintura nem minha pintura com a música. Eu faço o que posso.
SERVIÇO
Nomes do Nordeste - O convidado desta edição é o cantor e compositor cearense Belchior, que fala de sua vida e de sua carreira musical, com mediação do jornalista Moacir Maia. Hoje, às 19h, no Centro Cultural Banco do Nordeste (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro). Grátis. Fone: 3464.3108.
DISCOGRAFIA
1974 - A Palo Seco (Continental - LP)
1976 - Alucinação (Polygram - LP/CD/K7)
1977 - Coração Selvagem (Warner - LP/CD/K7)
1978 - Todos os Sentidos (Warner - LP/CD/K7)
1979 - Era uma Vez um Homem e Seu Tempo/Medo de Avião (Warner - LP/CD/K7)
1980 - Objeto Direto (Warner - LP)
1982 - Paraíso (Warner - LP)
1984 - Cenas do Próximo Capítulo (Paraíso/Odeon - LP)
1987 - Melodrama (Polygram - LP/K7)
1988 - Elogio da Loucura (Polygram - LP/K7)
1993 - Belchior em Espanhol com Eduardo Larbanois e Mario Carrero (Eldorado/Movie Play - CD)
1993 - Bahiuno (MoviePlay - CD)
1996 - Vício Elegante (Paraíso/GPA/Velas - CD)
1999 - Auto-Retrato (BMG - CD)