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Vida & Arte

LÍNGUA PORTUGUESA

O novo bê-a-bá

Amanda Queirós
da Redação

As regras de ortografia da Língua Portuguesa vão mudar. A reforma prevê a entrada de novas letras, a supressão de outras e uma reviravolta no uso de acentos gráficos, do trema e do hífen. O Vida & Arte Cultura deste domingo explica as mudanças


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25/08/2007 16:10


O cantor e compositor Caetano Veloso já cantava: "O que quer, o que pode esta língua?" A contar pela justificativa para a nova reforma ortográfica, ela quer mesmo é se expandir e mostrar que, com pouco mais de 230 milhões de falantes, tem, sim, força no mundo globalizado. A língua portuguesa é a terceira mais falada no hemisfério ocidental. Perde apenas para o inglês e o espanhol. Agora, todo esse batalhão de gente está prestes a enfrentar um novo treinamento. Após anos reproduzindo na escola as regras da língua e mais tantos outros de reforço delas por meio leituras e escritos, a população dos oito países que falam o português vai ter que se acostumar a escrever "idéia" sem acento, "lingüiça" sem trema, a remexer o uso do hífen e a incorporar as letras "k", "y" e "w" nos próximos anos.

Isso é o que determina o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O documento, assinado em 1990 por todos os países lusófonos de então, procura simplificar a escrita da língua ao aproximá-la ainda mais da fonética. No entanto, o acordo previa que as novas regras ganhariam validade apenas com a ratificação de pelo menos três desses, o que só ocorreu no fim do ano passado. O Brasil foi o primeiro a enfrentar todos os trâmites burocráticose a topar a empreitada em 2004. Depois veio Cabo Verde, em fevereiro de 2006, e São Tomé e Princípe, em dezembro do mesmo ano. A grande mudança pretendida com a reforma é a uniformização da escrita da língua em todos os locais onde ela é falada oficialmente - o que inclui ainda Portugal, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau e Timor Leste -, facilitando o trânsito de documentos e de livros entre esses países.

"Existe uma só maneira de escrever o espanhol, publicada pela Real Academia de Madri e seguida pelas academias dos outros países que falam espanhol. Hoje, a língua portuguesa é uma construção conjunta de todos os oito países. Consideramos que a fonética vai variar, que o próprio vocabulário vai variar, mas queremos uma padronização na ortografia. A uniformização é fundamental para que a gente possa aprofundar o diálogo cultural entre nós", afirma Lauro Moreira, representante brasileiro na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), situada em Lisboa.

Livros escolares
Apesar de já poder vigorar, os países lusófonos ainda não decidiram quando a reforma ortográfica deve ser implementada nem o prazo de adaptação a ela. Segundo Carlos Alberto Xavier, assessor do ministro da Educação, Fernando Haddad, o MEC precisa de uma definição quanto a data até o fim de 2007, quando será lançado o edital de compra de livros escolares para 2009. A idéia seria que, daqui a dois anos, os alunos da rede pública já estudassem com um material adaptado e que as novas regras já fossem incorporadas no mercado editorial.

No entanto, existe um empecilho a essa decisão. Portugal, pátria-mãe da língua em questão, foi um dos países que não ratificou o acordo. As modificações propostas afetam mais os portugueses que os brasileiros. Com a reforma, 1,4% dos dicionários de lá serão modificados, assim como o dos demais países que seguem o vocabulário lusitano. No Brasil esse percentual cai para 0,5%. A principal alteração é a supressão de consoantes mudas que não são mais pronunciadas (como o "h" de húmido e herva), fato que enfrenta resistência em alguns setores mais conservadores.

Em um artigo publicado em maio no Jornal de Letras, de Portugal, a ministra da Cultura daquele país, Isabel Pires de Lima, mostrou-se favorável ao acordo. Ela, que também é especialista em Língua Portuguesa, desbancou institucionalmente a idéia de que o país receia uma afronta a suas tradições. "Portugal, sendo historicamente berço da Língua Portuguesa, não é seu guardião. Essa atitude de zelo e de cuidado deve ser hoje repartida, equitativamente, por todos os países que constituem a CPLP", escreveu a ministra. No entanto, ela sinalizou para a adoção do acordo somente daqui a dez anos, prazo considerado inviável para o governo brasileiro. Segundo Isabel, esse seria o tempo necessário para as editoras se adaptarem à reforma.

No Brasil, a perspectiva de transição é bem menor. O MEC prevê somente a necessidade de dois anos e dá indícios de que, mesmo sem entrar em acordo para o início da vigência das novas regras, deve começar a implementá-la sozinho. "Não é mais Portugal que tem o comando. É o peso de 180 milhões de falantes. O que está previsto é uma reunião com todos os países na qual Brasil vai apresentar suas necessidades. Temos que esperar por ela porque isso é parte de um entendimento. Agora só falta o anúncio solene da data. Se isso não acontecer, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe adotam e os outros com certeza virão correndo atrás. Todo mundo aguarda uma condução natural desse processo pelo Brasil", afirma Carlos Xavier.

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