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Vida & Arte

SALÃO DE ABRIL

Efêmero concreto

Eleuda de Carvalho
da Redação

Às vésperas da abertura, os últimos preparativos no Mauc, para acolher os 30 selecionados do 58º Salão de Abril


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13/08/2007 01:23

Chico Togni, mineiro, criado em São Paulo, durante montagem do seu trabalho Colunas  Retráteis (Foto: Edimar Soares)
Chico Togni, mineiro, criado em São Paulo, durante montagem do seu trabalho Colunas Retráteis (Foto: Edimar Soares)

Tarde da última sexta-feira, no Museu de Arte da UFC - Mauc, que vai acolher a 58ª edição do Salão de Abril, promovido pela Prefeitura de Fortaleza através da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo - Funcet. Criado há mais de meio século, o pioneiro evento de artes plásticas da cidade se renova (e abril até pode cair em outros meses, por que não?). A partir deste ano, o Salão virou nacional. A exposição acontece de 16 de agosto a 30 de setembro, com obras inéditas dos 30 artistas selecionados, dentre mais de 500 inscrições, vindas de todo o Brasil. Dos que virão, já chegaram o mineiro - radicado em São Paulo - Chico Togni e o carioca Daniel Murgel. Estavam no Mauc também as curadoras do Salão, Ana Valeska Maia (coordenadora de Artes Visuais da Funcet) e Maíra Ortins (diretora da Galeria Antônio Bandeira). Na entrada do museu, Murgel observa o pedreiro colocando tijolo por tijolo na sua instalação. Togni desembalava suas pilastras gregas, feitas de papel cartonado.

Um grupo de trabalhadores, concentrados em martelar, serrar, pintar, dar outra feição ao museu para ajustá-lo aos artistas. Para Francisco Zananzanan, foi preciso criar uma saleta especial. Caixas não param de chegar, numa delas, o nome de Ding Musa, artista de São Paulo. Em outra, já aberta, fotografias do cearense Celso Oliveira. "Vivemos uma época de conexões. Para este fluxo, precisamos desta troca, não só de conceitos mas de pessoas, sentimentos, pensamentos. Vamos aproveitar a vinda dos artistas. Todos já receberam o prêmio de participação e isto viabilizou a estadia de muitos deles", afirma Ana Valeska. Maíra Ortins destaca a diversidade desta edição. "Tem quase tudo, oito vídeos, muitas fotografias, desenho, instalação, objeto. O Salão é como um termômetro do que está sendo produzido". Ana Valeska chama a atenção para uma temática forte da arte contemporânea, "que passa por questionamentos que envolvem meio ambiente. Esta árvore emparedada é a disputa de espaço entre natureza e cidade, reflexo do nosso tempo", reflete, ao lado de Daniel Murgel, o cara que emparedou a árvore - que receberá o público bem na entrada do Mauc.

"Já é o 58º, e eu nunca tinha ouvido falar...", diz Daniel Murgel, atento para o que faz o pedreiro. No chão, um círculo de tijolos cimentados que faz um raso poço de água pigmentada de azul, no centro este quadrado de tijolos que sufoca o ficus-benjamim. Chama-se A Ilha. A idéia deste trabalho começou com uma performance que Murgel fez no Museu de Arte Contemporânea de Niterói. De dentro dele, à beira mar, vê-se uma ilha. Daniel Murgel forneceu binóculos para o público, que espiava para ele, sozinho, lá longe, ilhado. Ele diz, "virei a paisagem". Pra poder ficar mais uns dias na cidade, além do que lhe permitia o prêmio de participação (R$ 1.550, fora impostos), Daniel vendeu o esboço que fez de A Ilha. "Gosto de desenhar, mesmo que seja uma instalação. A galerista Mercedes Viegas me apoiou, comprou o desenho". Ele está hospedado na casa do artista plástico Nivardo Victoriano, "que tá me recebendo superbem". Murgel diz ter vindo a Fortaleza e a Salvador, quando criança. "Eu me lembrava de jangadas, do Pelourinho... Tudo junto".

Frágil
Chico Togni, mineiro, criado em São Paulo, vivia até pouco tempo como designer gráfico, "enfurnado num escritório. Mas o que eu sempre quis é seguir a carreira de artista". Resolveu inscrever quatro projetos no Salão de Abril. Decidiu, também pedir as contas no emprego. Sortudo, ele. "No dia que abandonei o escritório, me ligaram daqui". Togni está hospedado num "hotelzinho no Centro" e ainda sequer viu o mar. Está concentrado na montagem do seu trabalho, que ele quer chamar de Colunas Retráteis. O nome mesmo que ele deu, na inscrição, é Frágil. "Como se fosse uma piada". Chico Togni mandou para a seleção as colunas Niemeyer (a pilastra cilíndrica, marca do arquiteto), "uma Guggenheim, em forma de filete, uma grega, uma romana. Veio a grega".

No chão, uma caixa enorme de papelão, com um bocado de papelões dentro - revestidos zelosamente de papel branco, e desenhados os adornos que caracterizam as clássicas colunas gregas, não sei agora se do estilo dórico ou jônico. Para Togni, isto não tem nenhuma importância. "Foi trampo, foi trabalhoso, foi suado". O que será das colunas retráteis, depois do Salão? "Eles podem pegar pra eles ou jogar fora. Também existe espaço para esta arte efêmera. É uma outra maneira de produzir cultura. Eu podia despachar um quadro ou vir até aqui, trabalhar, misturado no cotidiano do espaço". Para entender um pouco mais sobre a tal arte contemporânea, boa pedida no dia seguinte à abertura do Salão, quando os artistas selecionados participam de bate-papo com o público no auditório do Mauc, a partir das 16 horas.


SERVIÇO

58º Salão de Abril - Reunindo obras de 30 artistas selecionados em todo o Brasil. A exposição será aberta nesta quinta-feira, 16, ficando em cartaz até 30 de setembro, no Museu de Arte da UFC (Mauc) - av. da Universidade, 2854, esquina com av. 13 de Maio. O Mauc vai funcionar todos os dias, de 8h às 18h. Grátis. Inf.: 3366.7481.

(!) NA INTERNET
Confira a programação completa e a lista de participantes no endereço www.salaodeabril.org.


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