Janaína Marques
Especial para O POVO
A jornalista Janaína Marques analisa os principais elementos estéticos dos filmes de Michelangelo Antonioni, pontuando sua influência no cinema contemporâneo
04/08/2007 14:30

"...Sentados na borda do barco,
sem saber para onde nos levava,
olhávamos para a linha aquática do rio
a desaparecer, à distância,
num nevoeiro de uma pálida, pálida neblina
que te fez pensar
que a viagem acabaria em Ferrara".
(Tonino Guerra a Antonioni)
A vida não faz sentido! Certamente, Michelangelo Antonioni era um mestre neste assunto. Em mais de 50 anos de carreira, ele criou uma forma peculiar de fazer filmes, tendo como base de estruturação de seus personagens, a busca pela "transcendência" em meio ao "vazio", à "distração" e aos "tempos mortos" fabricados pelo mundo moderno. "Um filme de Antonioni não é compreendido pelo que as pessoas dizem, embora isso possa muitas vezes fornecer nuance e complexidade, mas sim observando onde as pessoas se encontram, o que elas tocam, o que observam e o que as observam...", resumem os escritores Ted Perry e Rene Prieto.
Falar da obra deste italiano significa, em geral, falar mais de nós mesmos do que de técnicas ligadas ao cinema. O cineasta esteve mais preocupado em fazer com que o público adivinhasse o que seus personagens estão realmente pensando do que em deixar clara a relação causa e efeito dos fatos mostrados na tela. Nascia com isso uma proposta intensamente autoral, focada em recusar mudanças de expectativas na história e em tentar não unir os pontos narrativos do enredo, deixando que um fato não necessariamente tenha elo com outro na película. Diante desta atitude, surge o "anti-suspense", algo que caminha na contramão de propostas tão bem sucedidas, como a de Alfred Hitchcock.
No momento que Antonioni deixou definida esta ousada trajetória que estava seguindo, o cinema ganhava não só um de seus maiores representantes, mas também alguém que estava, constantemente, empenhado a falar de algo tão íntimo, de uma forma tão simples. O importante, para ele, era transmitir a vida de uma maneira onde a "sensação" fosse mais forte do que a "descrição" dela.
Se partirmos da idéia de que a arte é ilusória, assim como a vida, e a realidade é sempre inconscientemente construída pela sociedade, fica mais fácil de entender o que levava Antonioni a preferir depositar sua atenção em situações onde o "desaparecimento" de algo era o ponto central de seus argumentos e as "doenças dos sentimentos", algo freqüente nas suas histórias.
Tudo é efêmero e se perde dentro do vazio de um mundo repleto de imagens e caos. Em Blow Up, a câmera fotográfica, a situação a ser fotografada e o próprio fotógrafo desaparecem de quadro (cada um a seu tempo na narrativa). Em A Aventura, onde estará Anna? Em A Noite, o que aconteceu com o amor? Em O Eclipse, por que o casal não compareceu ao encontro marcado?
Antonioni não busca respostas. Interessa-se mais em forçar o olhar para certas idéias até a exaustão. Estende momentos inexpressíveis de um episódio, como o enquadramento da ninfomaníaca encostada na parede branca do hospital, em A Noite, ou na última seqüência de O Eclipse, que destaca o vácuo gerado pelo medo de amar. Para ressaltar estes "tempos mortos", o diretor fixava a câmera em locais vazios ou voltados para personagens estáticos, não esquecendo de valorizar o silêncio. Usufruía também do ambiente urbano para mostrar o impacto indiferente e negativo nos seus habitantes. Os velhos valores da comunidade diante do gigantismo arquitetônico, enquadrado pelo autor, estavam sempre prestes a desaparecer simplesmente porque as pessoas já não tinham lugar para "ser".
Outra faceta do cineasta italiano era não se importar em romper regras clássicas do cinema, como a "linha dos 180º", fazendo com que o espectador perdesse a noção da localização da personagem no espaço filmado.
Toda esta "arte" de Antonioni influenciou cineastas do mundo inteiro. Alguns se destacam na atualidade com obras poéticas que tentam captar instantes especiais do dia-a-dia. Três nomes que pertencem a este grupo são o iraniano Abbas Kiarostami (O Sabor da Cereja), o húngaro Béla Tarr (Werckmeister Harmonies) e o diretor austríaco Michael Haneke (O Sétimo Continente). Este último defende idéias bem parecidas as do italiano, apesar de possuir uma obra que, em geral, circula por outros temas: "uma das coisas mais importantes para um cineasta é usar a fantasia do espectador. O público tem que fazer suas próprias cenas, e qualquer coisa que eu mostre significa diminuir a fantasia do espectador. Uma forma de arte está obrigada a confrontar a realidade, a tentar encontrar um pequeno pedaço da verdade".
De uma maneira especialmente única, o diretor nascido em Ferrara retocava estes pedaços de vida: um olhar perdido no infinito... A espera na sala da recepcionista... O plano desejado do programa de TV que não chega... O sussurro no carro... O passeio na praça deserta... O fim do amor inexplicável... A pálida neblina da vida.
Janaína Marques é jornalista e estudante do curso regular da Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV), de San Antonio de Los BaÀos, em Cuba.
DEPOIMENTO
BERGMAN
“Bergman me mostrou, quando assisti ao filme Gritos e Sussurros (em meados dos anos 70, quando era apenas uma curiosa estudante da UnB), que o cinema podia chegar ao sublime. Saí do Cinema I, no Conjunto Nacional, em Brasília, atarantada. Manchas de vermelho se formavam na minha memória. Nunca me esqueci do filme. O revejo sempre que posso. Conheci Morangos Silvestres mais tarde. Outro diálogo com o sublime. Recentemente, vi Saraband e comentei com amigos: ele tem quase 90 anos e segue um realizador de imensa potência criativa. Que fenômeno. Dos filmes da juventude dele, um me causou frisson por sua modernidade, embora seja um filme imperfeito: Mônica e o Desejo. Vale lembrar que Walter Hugo Khouri (1929-2003) contava sempre que Bergman foi descoberto primeiro no Brasil, depois nos grande festivais europeus”.
ANTONIONI
“Antonioni é outro cineasta que dialogou com o sublime. Conheci-o, primeiro, na juventude, através de dois filmes: O Grito, ainda com fortes ligações com o Neo-Realismo, e As Amigas. Vi estes filmes muitas vezes, em Brasília, no Cineclube do José Damata. Só mais tarde veria A Aventura e A Noite. Não conseguia, pelos absurdos de nosso circuito exibidor, conhecer O Eclipse, parte desta que se convencionou chamar de Trilogia da Incomunicabilidade. Quando, há uns cinco anos, vi o filme, apaixonei-me perdidamente. É a obra máxima dele. Há quem não goste de Zabriskie Point. Eu gosto muito. Tive a alegria de conhecer Antonioni em Gramado. Passamos, Zanin (Luiz Zanin Oricchio, crítico) e eu, na companhia dele, de sua mulher Enrica Fico e de W. H. Khouri, umas duas horas jogando conversa fora (ele mudo, claro, pois visitou Gramado já com a sequela do derrame), tomando chá e comendo torta de maçã. Enrica nos contou histórias incríveis dos bastidores de Passageiro, Profissão Repórter. Rolava no set todo tipo de droga, LSD em especial. E Jack Nicholson aprontava todas. As explosões lisérgicas de Zabriskie Point são o prenúncio destes loucos tempos, não é? Pena que, neste momento em que a hegemonia do cinema comercial norte-americano assume dimensões acachapantes, a gente perca em dias seguidos, dois mestres da grandeza de Bergman & Antonioni. Sim, porque os dois continuavam ativos, filmando, criando”.
Maria do Rosário Caetano, jornalista, pesquisadora de cinema brasileiro e autora dos livros Cineastas latino-americanos e O cangaço Nordestern no Cinema Brasileiro (org)