Regina Ribeiro
da Redação
Jornalista Ana Karla Dubiela lança hoje, à noite, o livro A Traição das Elegantes Pelos Pobres Homens Ricos, e traz à tona o lirismo, a leveza e a crìtica social de Rubem Braga
02/08/2007 02:03

Da janela do bonde que cruza a cidade do Rio de Janeiro, enquanto Monarquia e República se enfrentavam em praça pública, o escritor vai esquadrinhando olhares, jeitos, ou simplesmente adoçando o tempo para entregar a crônica pronta. Machado de Assis colheu na vida os assuntos que despachava em migalhas, ao mesmo tempo em que cozinhava personagens universais, como Capitu. Antes de dele e depois dele, praticamente todos os escritores brasileiros captarem o cotidiano e transpuseram para as páginas de jornais de suas épocas impressões certeiras sobre a vida que se passava em redor: era (e é) a crônica que se fortalecia enquanto gênero equilibrista firmado na corda-bamba entre o jornalismo e a literatura. Por isso, ninguém melhor do que um jornalista para entrar na alma de um cronista. Que o diga a jornalista Ana Karla Dubiela que foi ter-se com Rubem Braga. Considerado um dos maiores do gênero, o jornalista, firmou-se como escritor graças às pequenas porções do dia-a-dia captadas às travessas de um olhar cirúrgico que decepava corpo e espírito sociais com um corte certeiro, ou seja, quase sem adjetivos.
No livro A Traição das Elegantes pelos Pobres Homens Ricos - Uma leitura da crítica social em Rubem Braga, que será lançado hoje, no Mercado dos Pinhões, a partir das 19 horas, a jornalista Ana Karla põe o cronista sob análise e conclui que Rubem Braga cimentou a crônica nacional e tornou-se o pai da crônica brasileira moderna. "Enquanto viveu, até 1990, a escrita diária, por 62 anos, contribuiu para a formação e legitimação da crônica, como atestam tantos estudiosos da literatura", escreve. Fez mais esse capixaba nascido às margens do Rio Itapemirim, que banha o Estado do Espírito Santo. Segundo a pesquisadora, ele inovou a crônica brasileira, criando novos atalhos para a estrada feitas por nomes como Lima Barreto e João do Rio, José de Alencar e tantos outros.
A pesquisa da jornalista tem foco na crítica social feita pelo cronista. O foco da análise fixou tentáculos particulares em duas peças: A traição das elegantes, crônica escrita em janeiro de 1967, quando o Brasil ainda já estava sob o regime militar; e Os pobres homens ricos, publicada seis anos antes, em 1961. Enquanto examina os olhos braguianos sobre a lista das mais bem vistosas senhoras da corte carioca, a jornalista vai buscar, nas entrelinhas, "um Rubem Braga irônico, sarcástico", que "sob o disfarce de uma falsa preocupação com as senhoras elegantes", faz um legítimo retrato "de uma sociedade tristemente ameaçada de perder sua essência em nome da sensação de prosperidade do chamado 'milagre brasileiro', da industrialização e do consumo", afirma Ana Karla no livro, resultado da monografia de especialização defendida no Departamento de Letras da UFC. No curso de mestrado recém concluído, a jornalista com passagem pelo O POVO, aprofunda os estudos sobre o cronista na dissertação Como se fora um coração postiço - Desleituras de Bandeira, Ruschi e Jair Silva na crônica de Rubem Braga.
Em Pobres Homens Ricos, Braga, de acordo com Ana Karla, a crítica se estabelece nas mazelas centenárias brasileiras, já atestadas pelos teóricos, mas que na crônica ganham a leveza literária, sem ignorar a força da denúncia jornalística e o rigor da análise social, tudo isso sem perder uma linha no quesito atualidade. "O cronista une governo, serviço público e os homens ricos como exemplos do desgaste social provocado pelo apego ao dinheiro, ao poder e às aparências", escreve a pesquisadora e completa: "Os textos têm em comum a preocupação social do narrador e denunciam e denunciam uma ideologia de esquerda". Para ela, Braga leva para a escrita, submersa na "lirismo e/ou sarcasmo" as convicções políticas. O lirismo com que enfrenta a temática social é considerado pela pesquisadora um dos marcos da escrita braguiana.
Mesmo recheado de citações autorais, com pede a melhor produção acadêmica, o livro da jornalista Anda Karla é mesmo leve, como afirma o escritor e crítico Affonso Romano de Sant´Anna, no texto de apresentação da obra Ao Redor da Crônica - que bem que poderia ser um ensaio. Nele, Sant´Anna leva o leitor à discussão em torno do gênero crônica como literatura, confirmando o alcance deste e negando a crônica como uma literatura menor. No final, num único parágrafo, o escritor dá a deixa para o leitor navegar com tranqüilidade sobre o trabalho realizado pela jornalista: "É uma pesquisa feita com amor, aparentemente despretensiosa, porque ela não complica as coisas". Verdade. A Traição dos Elegantes ... deixou de lado as complexas teorias literárias e as pitadas teóricas que se encaminham trabalhos em que a análise discursiva está em jogo e entrega o prêmio. Responde com clareza e uma boa dose de simplicidade como o gênero crônica se estabelece e vai direto a Rubem Braga, que é que interessa, com sua vida, sua obra e as leituras possíveis de serem feitas das duas.
SERVIÇO
Lançamento do livro A Traição das Elegantes pelos Pobres Homens Ricos. Uma leitura da crítica social em Rubem Braga, de Ana Karla Dubiela.Editora Edufes. Hoje, às 19 h, no Mercado dos Pinhões, durante a Quinta Cultual da Funcet, com a participação do Bloco Unidos da Cachorra. Praça Visconde de Pelotas, s/n. Entre as ruas Gonçalves Ledo e Nogueira Accioly. O livro custa R$ 23
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