Vida & Arte
CINEMA
Romeu do morro, Julieta do asfalto
Mesmo com o fenômeno 2 Filhos de Francisco, o diretor Breno Silveira tem dificuldades para finalizar seu projeto pessoal, o filme Era uma vez..., uma espécie de Romeu e Julieta carioca e atual
Luiz Carlos Merten
da Agência Estado
19 Jul 2007 - 02h00min
Mas não é Shakespeare que Breno Silveira está adaptando. Fotógrafo - entre outros filmes, justamente de Carlota Joaquina -, no fim dos anos 90 Breno correu atrás dos direitos de Cidade de Deus, mas eles já haviam sido comprados por Fernando Meirelles, que fez o grande filme que todo mundo sabe, embora nem todos reconheçam. Do contato com Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, surgiu esse outro projeto, Shakespeare no Rio das tensões sociais e das balas perdidas. Breno já tinha o roteiro prontinho para estrear na direção quando irrompeu em sua vida o fenômeno 2 Filhos de Francisco. Vencendo todo preconceito contra os sertanejos, ele viu, na história de Francisco, o pai de Zezé di Camargo e Luciano, um apaixonante retrato do Brasil que luta para dar certo. Francisco, interpretado por Ângelo Antônio, sonha com uma carreira artística para os filhos. Num determinado momento, quando ele fraqueja, porque seu sonho parece se esfumar, Francisco ouve da mulher, Dona Helena, uma bela criação de Dira Paes, a frase definitiva - “Que sonho? Foi acordada que eu criei essas crianças...”
Entre sonho e realidade, 2 Filhos de Francisco tocou mais de 5 milhões de espectadores e virou um marco do cinema brasileiro da retomada. Você poderia pensar que Breno encontraria facilidades para o segundo longa. Que nada! Ele foi penalizado pelo sucesso e não foi contemplado no edital de finalização da Petrobras, divulgado na semana passada. De novo, Breno teve dinheiro (para filmar) da Columbia e agora corre atrás do milhão de que necessita para finalizar Era Uma Vez..., que é rodado em película, um luxo do qual não consegue se desvencilhar.
"Todo mundo diz que eu poderia ter feito Era Uma Vez... em digital e seria mais barato, mas cinema, para mim, é película”, ele resume. Breno não tem nada contra os vencedores do edital, nem quer polemizar. Só acha que foi injustiçado. “O cinema brasileiro atual tem 40% mais de títulos e 15% menos de público. Faço cinema para dialogar com o público, cinema de qualidade, porque não acredito nessa divisão entre arte e comércio. Mas percebo que não adiantou nada o sucesso. No final, ganhei muito pouco com o Francisco. Não me permite nem fazer o segundo filme que, como o primeiro, está sendo rechaçado pelas estatais que ditam as regras no cinema brasileiro.”
Ele quer o Brasil
Dificuldades à parte, Breno Silveira está feliz com seu Era Uma Vez... Ele ainda não sabe no que vai dar o filme, mas é uma aposta que vale a pena. Na ressaca de Francisco, Breno foi solicitado, internamente, a pensar no que fazer. Não lhe interessa uma carreira internacional, que ele talvez pudesse desenvolver, já que o filme está em cartaz no Japão e vendeu bem em toda a Ásia. Breno quer filmar o Brasil, retratar a diversidade brasileira. Pareceu-lhe natural a volta à história de seu Romeu e sua Julieta. O trabalho com a emoção em Francisco apontou-lhe um caminho. Ele abandonou o roteiro de Paulo Lins, muito calcado em Cidade de Deus, e chamou Patrícia Andrade, uma das roteiristas de Francisco - a outra é Carolina Kotscho - para mergulhar com ele nesta nova aventura. A ênfase de Era Uma Vez... está na história de amor.
Thiago Martins e Vitória Frate fazem Dé e Nina. No espaço democrático da praia, os dois se aproximam e se amam, mas as diferenças são muito grandes. Ela é rica, filha de Paulo César Grande. Esse pai poderoso não é desnaturado. A tragédia vem do próprio morro. Dé tem um irmão, interpretado por Rocco Pitanga, irmão da sublime Camila, a Bebel que todos desejam na novela das 8 (Paraíso Tropical).
Segunda-feira à noite, Arpoadorzinho, no Rio. Breno filma no calçadão a cena do rompimento de Dé e Nina. Do ângulo escolhido, pode-se ver a favela do Vidigal, ao fundo. “Não dá, não dá”, Dé diz com rispidez e se afasta, enquanto a garota tenta, em vão, segurá-lo. A cena não é tão breve assim. Há um diálogo de dois/três minutos que Breno faz seus atores repetirem diversas vezes. Pelo monitor, a roteirista Patrícia Andrade segue atentamente o diálogo. Desde que a presença das roteiristas no set, em todas as cenas de 2 Filhos de Francisco deu segurança ao diretor, Breno não dispensa a presença de Patrícia. Enquanto ela segue o diálogo com o roteiro aberto, onde está o diretor?
Thiago e Vitória estão num banco cenográfico. Breno coloca-se abaixo do campo visual, sentado no chão, e dali segue a cena, quase num corpo a corpo com a dupla. Ele filma em plano-seqüência, repete e repete de novo (mas acha que a primeira tomada ficou melhor). Muda o ângulo para fazer os chamados planos de cobertura, com detalhes de rostos, por exemplo. Thiago veio do Vidigal. Foi lá que começou a se exercitar como ator, no grupo Nós do Morro, formado para motivar os jovens e afastá-los do tráfico. Thiago foi o Tadeu da novela Belíssima. Fez teste para Era Uma Vez... e Breno o aprovou, mas achava sua pele muito clara. Queria um ator mais pardo.
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