Vida & Arte
FILME
O ralo e o olho
Produzido com apenas R$ 330 mil, o segundo longa-metragem de Heitor Dhalia, O Cheiro do Ralo, estréia amanhã em Fortaleza, após conquistar sucesso em festivais. Em entrevista por telefone ao O POVO, Dhalia fala sobre o filme, protagonizado pelo ator Selton Mello
Camila Vieira
da Redação
11 Jul 2007 - 22h11min
Segundo longa-metragem do cineasta Heitor Dhalia (o mesmo de Nina, de 2004), O Cheiro do Ralo é a adaptação cinematográfica do romance homônimo do quadrinista Lourenço Mutarelli. Do texto original, Dhalia e o roteirista Marçal Aquino (conhecido pela parceria com Beto Brant em vários filmes, como O Invasor e Cão Sem Dono) optaram por dar mais leveza e ironia às frases curtas do romance. O resultado desemboca no humor negro de O Cheiro do Ralo, que está provocando o riso do público nas salas onde é exibido. O filme foi projetado com êxito no Festival de Sundance, transformou-se em sucesso instantâneo no Festival do Rio e recebeu o prêmio de melhor filme - tanto do júri oficial quanto da crítica - na Mostra Internacional de São Paulo.
Produzido com apenas R$ 330 mil, O Cheiro do Ralo contou com ousado esquema de produção, chamado por Dhalia de "cooperativa de cinema". Tanto o diretor, quanto os produtores Rodrigo Teixeira, Marcelo Doria, Matias e Joana Mariani e o ator Selton Mello resolveram investir verba do próprio bolso para a concretização do projeto. Além disso, vários integrantes do elenco e da equipe abriam mão de seu cachê. Criado no Recife e radicado em São Paulo há treze anos, o carioca Heitor Dhalia comenta, em entrevista por telefone ao O POVO, sobre a adaptação do romance de Mutarelli, sobre a personalidade de Lourenço e sobre novos projetos.
O POVO - Cheio de frases curtas, o livro do Mutarelli apela para uma forte descrição visual. No filme, isso se traduz não só pelo tratamento do roteiro como pela montagem rápida, dinâmica. Como foi o processo de adaptação do romance para o cinema?
Heitor Dhalia - O Cheiro do Ralo passou por dois tratamentos de roteiro. O primeiro era mais próximo do livro. Aí passamos para o segundo tratamento, que desembocou no roteiro final, que tem um tom mais leve e luminoso, com mais diálogos. O livro é mais escuro e sombrio. Foi um processo de construção muito bacana com o Marçal e feito também durante as filmagens. Ensaiamos com os atores. Havia uma tentativa de ser fiel aquela dramaturgia do livro, porém com uma abordagem própria daquele universo, com paleta de cores, trilha sonora bem humorada, figurinos próprios e ironia em tudo. O livro parece ser mais realista. Com relação à montagem, o próprio roteiro dialoga com as frases cortantes dos diálogos do livro.
OP - No livro, o protagonista não tem nome, mas no filme, ele se chama Lourenço (como o autor do livro). Que afinidades você e o Marçal Aquino viram entre o personagem e o próprio Mutarelli?
Dhalia - Acho que o Mutarelli se usa como personagem nos livros dele. Ele está sempre ali, mas não é ele diretamente. É o jogo entre criador e criatura e uma homenagem ao Mutarelli. O nome do protagonista é uma ironia a esse jogo de quem cria a história e o objeto criado.
OP - Em uma das cenas, Lourenço diz: "O ralo é o olho do inferno. O inferno só tem um olho. O olho é meu pai". De que maneira, esses dois elementos físicos - o cheiro do ralo e o olho de vidro - explicam a psicologia do personagem?
Dhalia - O cheiro do ralo é uma metáfora do mal-estar interno do personagem. São essas coisas ruins que acontecem e que a gente joga debaixo do tapete. São as perversões, o nosso lado obscuro que todo mundo tenta disfarçar. Já o olho permite várias leituras. O triângulo de sustentação do filme é o ralo, o olho e a bunda. É um ciclo. O olho é o olhar do pai sobre ele, mas pode abrir mil interpretações. Uma professora de literatura chegou a perguntar pra mim se o autor tinha sido abusado pelo pai, porque o olho é como se fosse o pai olhando o menino como menina. São universos cheios de interpretações. Sem falar que o olho é uma metáfora do poder, do olho que vê tudo, dessa obsesssão dele. Mas, pra mim, o olho é o pai dele que morreu. São metáforas dessa psicologia do Lourenço, de suas obsessões, da ausência do pai.
OP - Lourenço é dono de uma loja de compra e venda de artigos usados. "Tudo que compro tem história, tem sentimento. Absorvi o sentimento das coisas". Depois, quando um dos personagens decide vender uma caixinha de músicas que tinha uma história afetiva, o Lourenço não dá a mínima. Como você compreende essa contradição do personagem?
Dhalia - O personagem é muito filho da puta (risos). Ele sempre joga um jogo diferente. É como um jogo irônico de pergunta e resposta. O Lourenço vai agir de acordo com a situação. Pode pensar algo e depois sacanear com alguém de frente.
OP - Durante a exibição do filme no Festival do Rio, o público riu muito e Selton chegou a se perguntar "onde foi que erramos?", já que o personagem é cruel, mau caráter, machista, solitário, neurótico. Em O Cheiro do Ralo, qual limiar existe entre o humor e a seriedade?
Dhalia - Acho que, na verdade, o filme é sério. O humor é uma ferramenta pra tocar em temas difíceis. No filme, você vê esse lado podre com ironia. No começo, o Selton ficou chocado com a reação do público, mas depois se acostumou. Principalmente o Selton, que já fez muitas comédias. Às vezes, esse riso que o filme provoca é constrangedor. No final, o riso perde a graça e vemos que o filme é bem mais sério do que a gente imaginava. Pensamos: "Nossa! Isso é tão cruel. Por que estou rindo disso?". É um jogo com o espectador.
OP - O universo sombrio e claustrofóbico d'O Cheiro do Ralo é semelhante ao do Nina, em que a protagonista também vive seus tormentos, suas culpas. O próprio Mutarelli criou os desenhos que são usados em Nina. Que paralelos você faz entre seus dois longas?
Dhalia - Acho que O Cheiro do Ralo e Nina têm uma relação forte, embora sejam diferentes em muitos aspectos. Diria que é uma bilogia, em que há o jogo de poder, os personagens atormentados. O Nina é bem mais radical e intransigente. O Cheiro do Ralo busca maior diálogo com o espectador. Agora estou fazendo outros projetos radicalmente distintos deste universo.
OP - Quais são seus próximos projetos?
Dhalia - Pretendo filmar um longa chamado À Deriva, que é um drama familiar que se passa na praia nos anos 70. É uma história mais sensível que aborda a questão do sexo depois dos filhos. É mais sensível e um pouco autobiográfico também. Depois, tem uma produção internacional, um filme de guerra com viés humanista ambientado no Haiti.
SERVIÇO
O Cheiro do Ralo - Segundo longa-metragem do cineasta Heitor Dhalia. Estréia amanhã no Espaço Unibanco Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 P. de Iracema), às 14h10, 16h10, 19h20 e 21h30. Info.: 3488.8600.
(!)SAIBA MAIS
- Leia o primeiro capítulo do romance de Lourenço Mutarelli, O Cheiro do Ralo, no qual o filme de Heitor Dhalia se inspira.
http://www.devir.com.br/mutarelli/ralo.htm
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