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Para ler no banheiro

O 1º Almanaque de Banheiro, de André Fisher e Renata Laureano, propõe o aproveitamento do tempo que cada um passa no banheiro para se informar. Os autores, em conversa com O POVO, explicam que depois de ler o Almanaque você vai fazer bonito em festinhas e happy-hours

Paula Lima
da Redação

09 Jul 2007 - 02h23min

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Em meio a globalização, Internet wi-fi e interatividade, quem quer ficar de fora daqueles assuntos que todo mundo deveria saber? Como encontrar tempo para se atualizar de tudo o que acontece no cinema, literatura, televisão, música, universo pop e no mundo? Nessa sociedade na qual a informação se tornou o mais precioso dos bens, é importante administrar não apenas seu uso, mas também o tempo gasto em selecioná-la. Então, que tal tornar proveitoso seu tempo gasto no banheiro diariamente? A idéia é de André Fisher e Renata Laureano, autores do 1º Almanaque de Banheiro, da editora Jaboticaba. O livro é uma coletânea de 155 textos sobre os mais variados assuntos que "ajudam a concentração", brinca o autor, e fazem qualquer um dar show de cultura em festinhas e happy hours.

Os textos de no máximo quatro páginas são pequenos resumos sobre obras como Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márques, A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, Ana Karênina, de Tolstói, e O Diabo Veste Prada, de Lauren Weisberger. Tem também explicações sobre maconha, telefonia celular e homeopatia. A história completa do seriado Friends, dos filmes Bonequinha de Luxo e Fale com Ela. Biografias de Monteiro Lobato, Jean-Paul Gaultier e Billie Holliday. Dicionários do politicamente correto ao gauchês. Explicações de candomblé, maçonaria e espiritismo. Relatos de fatos históricos como Diretas Já, As invasões francesas no Rio de Janeiro e por aí vai. Renata Laureano explica que a escolha dos assuntos foi feita por uma "curadoria pessoal". "Os temas são coisas que lemos alguma vez na nossa vida, e que modificaram nossa maneira de ver as coisas", diz.

André que já era parceiro de Renata em Dicas de Sexo Para Mulheres por um Homem Gay, da mesma editora, e no programa de rádio Dicas de Sexo, teve a idéia de escrever o livro e perguntou para a amiga: "você lê no banheiro?" Ela disse que sim. "Depois que descobrimos os mesmos hábitos fomos decidir os temas. A idéia inicial eram ter 365 textos, mas aí o livro teria 700 páginas. Publicamos 155 e guardamos material para o segundo almanaque", conta.

O livro completa a trilogia que os autores chamam de "cama, mesa e banho". "Já temos o livro sobre sexo, que é a cama. O André lançou o livro de receitas, que eu participei comendo, apenas, e agora chegamos ao banheiro", diz Renata. André diz que o livro era para ser um almanaque de banheiro e de vôo. "O livro teria duas capas e orelhas diferentes. Porque esses textinhos curtos também são ótimos para ler em saguão de aeroporto e no avião. É questão de aproveitar o tempo ocioso para se informar e ler coisas de cultura geral e uso social", analisa.

O livro parece uma brincadeira, mas é, na verdade, bem-humorado, tem textos densos e pretende agradar a todos os públicos. O bom humor passa pela mistura de assuntos, palavras cruzadas e jogos de caça-palavras. "Alguns filósofos vieram perguntar como tivemos coragem de resumir Maquiavel em duas páginas. Mas o filósofo não tem pegar o Almanaque para ler a área que ele domina, ele deve ir ler sobre Friends, para saber do se trata a série da Sony", fala Renata.

Os textos devem ser lidos em quatro, cinco minutos. "Esse é o tempo médio que a pessoa passa no banheiro. Fizemos uma pesquisa entre amigos e calculamos o número de toques", brinca André. A orelha do livro tem uma razão patológica para não fazer ninguém passar tempo demais no banheiro: "cuidado, a cultura pode viciar e proctologistas advertem: mais do que 20 minutos no banheiro pode causar problemas de saúde. LEIA APENAS UM TEXTO POR SENTADA!". É, os tempos modernos anunciam: o banheiro é o novo espaço cultural.

Em conversas por telefone, André Fisher fala sobre a relação que tem com os livros e o banheiro, sem segurar as gargalhadas. Renata ressalta que o livro não pretende encerrar o assunto e, sim, despertar o interesse de busca da pessoa e torná-la mais "descolada".


LEITURA RÁPIDA

O POVO - Como surgiu a idéia do livro?
André Fisher - A idéia partiu de uma experiência minha, porque eu passei a minha adolescência lendo Almanaque Abril no banheiro (risos). Acho que li todos. Adorava ler os dados dos países. A cada vez que eu ia, lia alguma coisa. Aprendia até sobre a Mauritânia, por exemplo, eram textinhos pequenos que, em quatro, cinco minutos terminava (risos). Depois pensamos no formato de texto pra deixar dentro do banheiro, a capa dele até combina com banheiro, não acha?

OP - Você é daqueles que precisa de concentração para ir ao banheiro?
André - Faço parte do time da concentração (risos). Leio embalagem de shampoo e tubo de pasta de dente. Muita gente lê, não é à toa que banheiro público é cheio de coisa escrita. Esse Almanaque é pra isso, quando a pessoa sentar, lê um trechinho, mas não deve se prolongar ali, não faz bem, os proctologistas confirmam (risos). Mas eu tenho até um cestinho de livros no banheiro.

OP - Então você é um leitor de banheiro? Existe literatura indicada?
André - Completamente (risos). Atualmente tenho um livro de cabeceira, para antes de dormir e o do banheiro, que não é denso. Na cama leio O Rato, que é um romance moderno brasileiro. No banheiro o livro de fofocas do Amaury Jr. (risos). Recomendo esses que são ligeiros de ler, mais rápido mesmo. Revista cabe qualquer uma. Não sendo a Piauí...

OP - Você acredita que o banheiro é a uma nova biblioteca?
André - Acho que passa pela reformulação dos espaços da casa. A cozinha faz papel de sala de estar nos projetos novos. Eu acho que o banheiro faz sentido usar pra outras atividades também. Assim como a cozinha se transformou em sala de estar, as pessoas vão usar o banheiro como sala de leitura rápida, faz sentido.


PARA ORIENTAR

OP - Quando o André a chamou para fazer o Almanaque de Banheiro, o que você imaginou?
Renata Laureano - A primeira coisa que lembrei foi do Readers Diggest, uma publicação muito antiga e tradicional. Achei logo que o livro tinha que ter uma cara antiguinha, como revista de palavras cruzadas, a Recreativa, por exemplo. Eu achei que era uma coisa nesse sentido, de interesses gerais. Deveria acrescentar algo a vida da pessoa, em vez de ficar só lendo bula de remédio, vidro de shampoo. E tinha que ter textos curtos, porque se livro de banheiro grande e com uma história muito interessante ele sai do banheiro.

OP - Você acha que o Almanaque é realmente a salvação para fazer bonito em festinhas?
Renata - Quem lê tem que saber o que está lendo, ali não é um texto profundo. Mas é melhor saber ao menos do que se trata um assunto, do que nunca ter ouvido falar. Um dos objetivos do Almanaque é despertar o interesse pelos assuntos, não é encerrar ali. E para você ser descolado tem que ter o mínimo de cultura básica sim, aí depois de ler o Almanaque você vai querer ir pegar o filme, ler o livro. Alguns assuntos, como a biografia do Artur Bispo do Rosário, artista de arte naãf, foi feito por especialista, depois dali a pessoa tem que sair atrás de ver as imagens e conhecer a obra. Não é encerrar a busca da pessoa sobre a pessoa, e sim, orientar.

OP - Quais os critérios para os assuntos escolhidos?
Renata - Os temas foram coisas que a gente tinha lido e se interessado em algum momento da nossa vida e isso tivesse modificado a nossa forma de ver as coisas, foi uma curadoria pessoal. Já temos temas e textos para fazer o número dois.

OP - Quais as maiores dificuldades de resumo?
Renata - Acho que foi o texto sobre as sete maravilhas da antiguidade, tem cinco páginas e agora vão ter as novas maravilhas, poderemos falar no próximo sobre as maravilhas atuais. Os que falam de drogas, foi muito difícil achar um tom apropriado para explicar como funciona de forma isenta e imparcial. O jeito foi suar em cima do computador por dois anos que foi o tempo que ficamos escrevendo.


E-mais
André Fisher é curador de mostras em festivais de cinema e vídeo no Brasil e no exterior. É co-diretor do Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual, atualmente na 15º edição. Além disso é tradutor, DJ e editor do site Mix Brasil.

Renata Laureano é tradutora, intérprete de conferências e empresária. Há quatro anos apresenta o programa de rádio Dicas de Sexo, junto com André Fisher.


Serviço
1º Almanaque de Banheiro. De André Fisher e Renata Laureano. Editora Jaboticaba. 392 páginas. Preço: R$ 55.

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