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Vida & Arte

FRIDA KAHLO

Soberba e suprema

O crítico de arte e professor da universidade de Sorocaba, Jorge Anthonio e Silva, dimensiona o legado de Frida Kahlo para a història da arte


07 Jul 2007 - 14h49min

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A artista plástica mexicana Frida Kahlo posa para as lentes enquanto pinta seu famoso duplo As duas Fridas(Foto: DIVULGAÇÃO)
A originalidade da arte de Frida Kahlo e sua transcendência em relação aos fatos de sua própria vida confirmam o "ineditismo estético" da pintora mexicana, segundo o crítico de arte Jorge Anthonio e Silva, que também é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (Uniso). Para Jorge Anthonio, a artista plástica já é, por si só, um mito com derivações na mitologia grega. "Como um Sísifo levou sua cruz como melhor pôde, sem autocomiseração. Como Fênix, fez-se renascer através da narrativa de sua experiência de vida no objeto da arte. Como Prometeu acorrentado (da tragédia de Ésquilo) viu-se definhar fisicamente na lentidão constante do sofrimento".

Membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) e PhD em Estética pela Universidade de Salamanca, Jorge Anthonio, procura desconstruir o mito de que foi o acidente de Frida Kahlo que a aproximou da pintura, ao contrário do que muitos pesquisadores afirmam. A relação da artista plástica com a imagem já tinha sido estabelecida na infância, quando acompanhava o ofício do pai - o fotógrafo Guillermo Kahlo. "Depois de ter estado com (Diego) Rivera, de ter oferecido um auto-retrato seu a um jovem namorado, é que (Frida) sofreu o acidente voltando para Coyoacán".

O crítico de arte explica que não se pode dizer também que a dramaticidade da vida de Frida Kahlo definiu a opção da pintora pela arte. "Por outro lado, não se pode negar que o acidente, as dores constantes, os corpetes de gesso, o fato de ela se ver como resultado do encontro da cultura européia representada pelo pai e da indígena pela mãe, mais a impossibilidade da maternidade, influenciaram sua paleta na escolha temática". Em entrevista ao O POVO por e-mail, Jorge Anthonio dimensiona o legado de Frida Kahlo para a história da arte, reflete sobre o aspecto autobiográfico de suas pinturas e fala sobre suas obras mais importantes.


O POVO - Ao longo da história da arte, vários artistas plásticos retomam a tradição para criar suas próprias obras. Outros preferem apontar para o rompimento com esse legado. André Breton chegou a afirmar que a arte de Frida Kahlo é surrealista (postura negada posteriormente pela própria pintora). A arte de Kahlo se propõe a estabelecer um diálogo profundo com a tradição e com seus contemporâneos? Ou ela estabelece novos parâmetros que a singularizam em relação ao que até então já havia sido feito?
Jorge Anthonio e Silva - Não se pode classificar a obra de Frida Kahlo a partir apenas de determinações históricas, lendo-a como surrealista ou artista de um nascente primitivismo moderno e renovado em seu tempo. Enquanto as vanguardas européias no primeiro quartel do século XX rompiam com o passado, tanto com as academias quanto com o vivido como fonte de inspiração como proposto pelo Futurismo Italiano, Kahlo imprimiu em sua obra a própria vida, plena com os valores ancestrais da cultura mexicana. Seu legado é único em originalidade e potência criadora. Formalmente, pode-se dizer que ela recuperou o retrato como um fato artístico maior no século XX. É evidente que há uma recuperação estética da tradição cultural mexicana, vista nos adereços usados por Frida Kahlo, e que comparecem em grande parte de seus auto-retratos. É importante lembrar a postura político-educativa assumida pelo governo de Porfirio Díaz no momento em que o México se estendia para o mundo com Orozco, Siqueros e as obras monumentais de Rivera. Há uma ambigüidade cognitiva na obra e Frida, ao mesmo tempo em que estabelece liames com a tradição, renova a estética mexicana ao tomar como motivo sua situação trágica e, ao mesmo tempo, produzir conexões com as vanguardas européias em pleno desenvolvimento.

OP - Apesar de procurar afirmar a identidade nacional mexicana em seus quadros (pelo uso de cores fortes, de símbolos da religiosidade), os quadros de Frida são como páginas de seu diário íntimo, eternizando sua própria vida pessoal. Suas pinturas refletem a relação existencial de Frida com sua própria dor. De que maneira esse gesto autobiográfico na arte também irá exercer influência em artistas contemporâneos pós-Frida?
Jorge Anthonio - É impossível ao grande artista, não se fazer presente sua obra, como um dado personalíssimo de sua criação. Isso é visível em toda arte figurativa. É claro que, a grande obra, em termos significativos, independe de seu criador, porque pode significar-se autonomamente. Veja o caso de Las Meninas, de Velázquez. O autor está ali, os personagens realmente existiram e a obra é uma incógnita, na medida em que é atemporal e continua demandando ressignificações. Contemporaneamente, pode-se falar em Arthur Bispo do Rosário, esquizofrênico e genial, cuja obra é uma possibilidade de aproximação com o inconsciente revelado.

OP - Mas parece que conhecer a biografia de Frida Kahlo se faz necessário para compreender suas obras de arte (o que certamente não é necessário em Velásquez, mas imprescindível no próprio Bispo que o senhor citou). É Kahlo quem primeiro leva essa relação ao extremo ou existem outros exemplos na história da arte?
Jorge Anthonio - Quando eu digo conhecer a obra, quero dizer que é necessário visitar toda a obra figurativa do artista, desde suas garatujas até sua fase final de produção. Guernica é a obra de um espanhol inconformado com a violência da guerra e pela dominação humana pelo próprio homem, mais a perda da dignidade. É uma obra emblemática na história da arte, e revela um artista consciente de seu estar no mundo da criação e social. Tinha postura política (no melhor sentido da polys grega), expressou sua sensualidade quando já velho, na obra Suite Vollard. Retratou todas as suas mulheres e algumas amantes. Picasso pôs-se integralmente no seu feito. Com relação à arte abstrato-concreta, como a de Vasarely, Jesús Soto, Kandinsky ou outros que professam a arte como idéia, fica incomum, senão impossível, perceber o artista na obra. O objeto de arte, nesse caso, é um farol na praia avisando os navegantes. Vale dizer, a obra abre-se ao fruidor, tal sua qualidade de abertura para significações. Kahlo congrega, em sua arte confessional, abertura significativa porque a boa obra de arte suplanta seu próprio autor, que é humano e falho. A obra perfeita é perfeita.

OP - A maneira como Frida Kahlo se vestia e se comportava diante das pessoas não estava dissociada de sua necessidade de "auto-invenção" ou como possibilidade de fuga de sua condição de mulher-artista, latino-americana, mutilada. Que imagem Frida queria deixar de si mesma e qual representação dela vingou no imaginário coletivo?
Jorge Anthonio - Frida Kahlo não quis ser modelo para ninguém, além de si mesma. Dizia: "Pinto a mim mesma porque sou meu melhor motivo". Há nisso o reconhecimento da grandiosidade humana, a abertura da dimensão do homem para significações universais, ainda que frente a interditos de saúde, de locomoção, de impossibilidades individuais. Não sou psicanalista, mas acredito que posso, com base nos estudos da Crítica Genética, supor que todo artista está se reinventando constantemente. É como dizia Cecília Meirelles: "a vida só é possível, quando reinventada".

OP - Quais são as obras de Kahlo que mais refletem seu posicionamento artístico?
Jorge Anthonio - Toda a obra de Frida Kahlo é emblemática, desde seus auto-retratos adolescentes até sua fase final, quando tornou-se uma expressionista em função da fraqueza e dos tremores nas mãos, com figuras sem definição volumétrica. A obra ficou impregnada pela aura da vivência trágica, com registros político-nacionalistas, e a proposta de se buscar, como os modernistas brasileiros em 1922, uma recomposição plástica tendo como base a ancestralidade. No imaginário, ficou a mulher criativa, capaz de indignar-se contra as instituições hipócritas da moral e socialmente contra a injustiça social. Eu tenho especial predileção por A Coluna Partida. Trata-se de uma obra que faz convergir para o motivo toda a dor de uma mulher cindida fisicamente entre seus aspectos naturais e a invasão de uma reconstrução médica do ser. As lágrimas são, ao mesmo tempo, uma chuva que faz renascer o solo com tudo o que de bom existe na água. No centro está Frida Kahlo, soberba em sua dignidade, suprema em sua variedade.


GLOSSÁRIO

Porfirio Diaz - (1830-1915) - Presidente do México, de 1876 a 1880 e de 1884 a 1911. Estabeleceu governo ditatorial, favorável aos interesses do Exército, da Igreja e dos grandes proprietários rurais e contra as classes populares. A entrada de capital estrangeiro serviu para estimular a exploração das riquezas do subsolo, especialmente o petróleo, e a construção de infra-estruturas (como a estrada de ferro e a rede de telégrafos) que trouxeram modernidade ao México. A política de Díaz provocou a revolta dos camponeses sem terra e dos índios e também protestos de grupos mais liberais contra o domínio dos Estados Unidos sobre o país. Em 1911, foi derrubado em meio à Revolução Mexicana, por Francisco Madero, que tornou-se presidente de 1911 a 1913.

José Clemente Orozco (1883-1949) - Pintor representante do muralismo mexicano, juntamente com Rivera e Siqueiros. Dedicou-se também à pintura de cavalete, à aguarela, ao desenho e à caricatura, que fazia mais como forma de sustento do que como arte. Um de seus mais famosos murais se encontra no Dartmouth College, em New Hampshire, e foi pintado entre 1932 e 1934, abrangendo quase 300 m
em 24 painéis.

David Alfaro Siqueiros (1896-1974) - Destacou-se principalmente em pintura mural, onde propôs inovações técnicas. Tinha grande preocupação em experimentar novos materiais e retratar em seus murais a revolução mexicana e o povo mexicano, que ele representou como o protagonista da luta por uma sociedade melhor, a sociedade socialista utópica.

Diego Rivera (1886-1957) - Pintor responsável pelo muralismo mexicano, ao lado de Orozco e Siqueiros. Eles acreditavam que só o mural poderia redimir artisticamente um povo que esquecera a grandeza de sua civilização pré-colombiana durante séculos de opressão estrangeira e de espoliação por parte das oligarquias nacionais, voltadas para a metrópole espanhola. Ao longo de sua vida, Rivera criou mais de dois mil quadros, cinco mil desenhos e cerca de quatro mil metros quadrados de pintura mural. Em 1929, casou-se com Frida Kahlo.

Diego Velázquez (1599-1660) - Pintor espanhol e principal artista da corte do Rei Filipe IV de Espanha. Une o realismo e a idealização de retratos e figuras feitas em tons claro-escuro que lembram a influência de Caravaggio.

Pablo Picasso (1881-1973) - Artista plástico espanhol conhecido como o co-fundador do Cubismo, junto com Georges Braque. Criou mais de 22 mil obras de arte em diversos meios, incluindo cerâmicas, esculturas, litografias, mosaicos. Guernica (1937) e Suite Vollard (1933) são algumas de suas obras.
Victo Vasarley (1906-1997) - Pintor e escultor húngaro radicado na França, considerado o "pai da OP ART". Optou por uma arte construtivista e geométrica abstrata. Experimentou o uso de transparências e cores em projeções. Seus quadros combinam variações de círculos, quadrados e triângulos, com gradações de cores puras, para criar imagens abstratas e ondulantes.

Jesús Rafael Soto (1923-2005) - Artista visual venezuelano. Considerado um dos mestres da arte cinética (modalidade abstrata que busca captar o movimento através de efeitos óticos). Soto insistiu em implementar uma nova maneira de interagir com a obra de arte, que para ele carecia de movimento. É o espectador quem irá passear em torno da obra para perceber o efeito cinético de uma peça imóvel.

Wassily Kandinski (1866-1944) - Pintor russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das artes visuais. Alguns artistas já haviam feito experimentos com a dissolução de imagens, mas Kandinsky foi o mais consistente na busca de um modo de expressão não figurativo.

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