Vida & Arte
ARTIGO
Das tripas coração
Beatriz Rocha Lagoa
Especial para O POVO
07 Jul 2007 - 14h49min
Frida Kahlo, uma das artistas mais emblemáticas do século XX - descendente de judeus húngaros e alemães por parte de pai, e de índios e espanhóis por parte de mãe - encarna o trauma físico e psicológico da cultura mestiça mexicana, durante o processo de reformulação social, política e cultural que se instaura no país.
No México, a reforma agrária iniciada em 1910 prolongando-se por dez anos, revela uma nação fraturada, oprimida, em busca de uma solução libertadora, logo apontada pelos primeiros governos democráticos. A adesão de inúmeros intelectuais à causa é fundamental, para que se promova um movimento educativo e artístico, de clara orientação ideológica. Nas artes, os objetivos da pintura em grande escala, fora dos museus e galerias, pretendem a fusão de costumes populares com temas libertários, representados nas paredes dos palácios, igrejas, pátios, escolas, museus e fachadas de edifícios, permitindo a comunhão visual dos ideais do governo com os do povo mexicano.
Como um contraponto intimista ao realismo figurativo da pintura muralista de Diego Rivera, José Clemente Orozco e David Siqueiros, a arte autobiográfica de Frida Kahlo opta pela contundência de uma narrativa pessoal, ora denunciando as seqüelas de um grave acidente sofrido na infância, ora as turbulências conjugais da sua relação com Rivera (1886/1957). Uma pintura minuciosa e densa, plena de expressão e cor, cuja sofisticação denuncia o contato direto com o meio artístico, mexicano e internacional.
São inegáveis os conhecimentos de Frida sobre a arte européia, conforme o paralelo da sua obra com Henri Rousseau. A artista se relaciona com vários pintores surrealistas, sendo possível a aproximação com os ambientes fantásticos, experimentados por Salvador Dali e René Magritte. Mas em Frida, os seres híbridos, as plantas, as cenas dramáticas e os objetos fora do contexto, povoando a imaginação, confundem-se com o realismo dominante dos seus quadros, nos quais humores, fantasias e frustrações desfilam em um mosaico de auto-retratos, à maneira de Rembrandt e Van Gogh.
Durante a fase de recuperação das inúmeras cirurgias às quais se submete ao longo da vida, Frida Kahlo acopla um espelho à cama, além dos inúmeros aparatos de pintura: cavalete, pincéis e tinta. Olhando sua imagem refletida, Frida exercita fantasias, provavelmente intensificadas pela dor. E é justamente nestes momentos que desenvolve uma obra notável, expansiva às memórias e ao mundo que a cerca.
Nos auto-retratos, mostra-se com uma aparência quase imutável ao longo de vinte anos. O rosto sério retratado à moda renascentista, quase nunca de frente, cabelos presos e olhar direto, sobrancelhas cerradas e buço aparente, conferindo maior seriedade à fisionomia, parecem não corresponder à pessoa irônica e bem-humorada, adorando piadas e gargalhando com facilidade. Vestida com roupas nativas e portando acessórios que remetem à cultura do seu país, Frida se cerca de símbolos referentes a uma fertilidade que lhe foi negada. O "terceiro olho", abrindo-se muitas vezes na testa, expõe os pensamentos que a atormentam: Diego e a morte. Dedicatórias e referências revelam dados pessoais, datas e doações, enquanto que acontecimentos marcantes merecem apelos e orações aos santos católicos protetores.
Sua obra emotiva e sincrética a destaca quase sempre só. Em pequenos formatos, contrastantes com as enormes pinturas murais, Frida Kahlo revoluciona na maneira como se expõe pelo avesso, reinventando valores e comportamentos, ao louvar os costumes do seu país e a intensidade da sua paixão. Uma alegoria à vida e à liberdade de expressão. Doa a quem doer.
Beatriz Rocha Lagoa é doutora em História da Arte pela PUC-RJ.
No México, a reforma agrária iniciada em 1910 prolongando-se por dez anos, revela uma nação fraturada, oprimida, em busca de uma solução libertadora, logo apontada pelos primeiros governos democráticos. A adesão de inúmeros intelectuais à causa é fundamental, para que se promova um movimento educativo e artístico, de clara orientação ideológica. Nas artes, os objetivos da pintura em grande escala, fora dos museus e galerias, pretendem a fusão de costumes populares com temas libertários, representados nas paredes dos palácios, igrejas, pátios, escolas, museus e fachadas de edifícios, permitindo a comunhão visual dos ideais do governo com os do povo mexicano.
Como um contraponto intimista ao realismo figurativo da pintura muralista de Diego Rivera, José Clemente Orozco e David Siqueiros, a arte autobiográfica de Frida Kahlo opta pela contundência de uma narrativa pessoal, ora denunciando as seqüelas de um grave acidente sofrido na infância, ora as turbulências conjugais da sua relação com Rivera (1886/1957). Uma pintura minuciosa e densa, plena de expressão e cor, cuja sofisticação denuncia o contato direto com o meio artístico, mexicano e internacional.
São inegáveis os conhecimentos de Frida sobre a arte européia, conforme o paralelo da sua obra com Henri Rousseau. A artista se relaciona com vários pintores surrealistas, sendo possível a aproximação com os ambientes fantásticos, experimentados por Salvador Dali e René Magritte. Mas em Frida, os seres híbridos, as plantas, as cenas dramáticas e os objetos fora do contexto, povoando a imaginação, confundem-se com o realismo dominante dos seus quadros, nos quais humores, fantasias e frustrações desfilam em um mosaico de auto-retratos, à maneira de Rembrandt e Van Gogh.
Durante a fase de recuperação das inúmeras cirurgias às quais se submete ao longo da vida, Frida Kahlo acopla um espelho à cama, além dos inúmeros aparatos de pintura: cavalete, pincéis e tinta. Olhando sua imagem refletida, Frida exercita fantasias, provavelmente intensificadas pela dor. E é justamente nestes momentos que desenvolve uma obra notável, expansiva às memórias e ao mundo que a cerca.
Nos auto-retratos, mostra-se com uma aparência quase imutável ao longo de vinte anos. O rosto sério retratado à moda renascentista, quase nunca de frente, cabelos presos e olhar direto, sobrancelhas cerradas e buço aparente, conferindo maior seriedade à fisionomia, parecem não corresponder à pessoa irônica e bem-humorada, adorando piadas e gargalhando com facilidade. Vestida com roupas nativas e portando acessórios que remetem à cultura do seu país, Frida se cerca de símbolos referentes a uma fertilidade que lhe foi negada. O "terceiro olho", abrindo-se muitas vezes na testa, expõe os pensamentos que a atormentam: Diego e a morte. Dedicatórias e referências revelam dados pessoais, datas e doações, enquanto que acontecimentos marcantes merecem apelos e orações aos santos católicos protetores.
Sua obra emotiva e sincrética a destaca quase sempre só. Em pequenos formatos, contrastantes com as enormes pinturas murais, Frida Kahlo revoluciona na maneira como se expõe pelo avesso, reinventando valores e comportamentos, ao louvar os costumes do seu país e a intensidade da sua paixão. Uma alegoria à vida e à liberdade de expressão. Doa a quem doer.
Beatriz Rocha Lagoa é doutora em História da Arte pela PUC-RJ.
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