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Vida & Arte

LANÇAMENTO

Versos de tinta

Angélica Feitosa
Especial para O POVO

Alencar completa 30 anos de carreira. A trajetória do artista estampa o livro Mano Alencar, O Poeta das Cores


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28/06/2007 00:31

Mano Alencar, artista plástico ceaerense, durante criação de telas: trajetória profissional em livro (Divulgação)
Mano Alencar, artista plástico ceaerense, durante criação de telas: trajetória profissional em livro (Divulgação)

"Um arremesso de tons entra pelas narinas e pelos olhos de quem escuta cores em forma de música na poesia pintada. Todos os sentidos me levam na direção de uma tela em branco, fazendo explodir pelas minhas mãos o doce tormento da paisagem urbana". Mano Alencar lê em voz alta o texto poético e antigo, de sua autoria. Imposta a voz para não fazer feio. "Ele traduz ainda muito bem a minha pintura poética", diz o artista que comemora, em 2007, 30 anos de carreira e recebe de presente um livro que coleta obras de todas as fases de sua pintura, organizado pela programadora visual Augusta Azevedo de Alencar. As palavras do autor abrem o livro, que contém obras do artista desde 1977 até as mais recentes e inéditas, feitas por ele ainda este ano. Além disso, textos de poetas, escritores e outros artistas analisam a obra de Mano. Muitos dos textos foram, inclusive, publicados em outras obras, ensaios e outros meios e foram coletados pela organizadora. O lançamento conta com a exposição de vários trabalhos do artista, do acervo pessoal de Mano e coletado com os proprietários e colecionadores.

Mais que uma divulgação do trabalho, o livro representa para o artista um reencontro consigo, com uma parte da vida que há muito tempo não tinha contato e que estava quase esquecida. No seu ateliê, no bairro Varjota, zona Leste de Fortaleza, Mano Alencar recebe os visitantes com um sorriso. O amplo galpão pulsa com as cores e traços das obras do artista espalhadas por todas as paredes. A maioria dos quadros é abstrata, marco contemporâneo da obra do artista. Porém, a abstração não é definitiva. Elas sempre sugerem uma imagem figurativa e, no emaranhado de cores fortes, vibram, modificam-se para cada pessoa e até mesmo para cada novo olhar. Ele é exigente consigo e com a pintura em geral. "Acredito que para o artista usar o abstrato ele precisa primeiro dominar as técnicas figurativas. Não acredito em artistas que não dominam as técnicas figurativas para então usar do abstrato", afirma.

No canto, ainda no térreo do ateliê, quase imperceptível, está a face de Cristo, uma das obras recentes de Mano. "Esse aqui veio meio que por acaso. Eu limpava com esse pano os pincéis sujos de tinta e daí, quando eu abri, vi que já havia começado a desenhar o rosto de Cristo, só fiz terminar o desenho". As pinturas é o que há de mais intimista na obra de Mano. São obras que ele deixava reservadas para o ambiente da família e dos amigos, mas agora também estão à mostra dentro do livro e da exposição que acontece no Centro Cultural Oboé. São os únicos trabalhos presentes em toda a trajetória do artista. Vão e vêm com a velocidade da inspiração. São pinturas e desenhos que quase na unanimidade mostram Jesus coroado com espinho. "Para que a gente nunca esqueça o sofrimento", diz.

Embora não se considere uma pessoa religiosa, as influencia cristã esteve presente desde cedo nos trabalhos de Mano. Quando se mudou com a família de Juazeiro do Norte para a cidade de Sobral, Mano foi expulso da sala de aula pelo padre, por ter desenhado Cristo sendo apedrejado, carregando a cruz e sorrindo. "Ele não entendeu que o Cristo estava rindo era de pena da gente", conta. Em uma das obras, usou apenas um carimbo com o nome da mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, dona Canô. "Ela, muito religiosa, disse pra mim: 'Meu nome nessa coroa é para saber que também faço parte desse sofrimento', foi uma das obras que ela mais gostou".

O artista é, acima de de tudo, urbano. O verde, vermelho, azul, preto e amarelo, cores que vibram nos seus trabalhos atuais, da fase abstrata iniciada em 1987. Não foi à toa a alcunha dada por Dimas Macedo a Mano: "poeta das cores". Autor de quatro livros, sendo dois de poesia e os outros dois de prosa poética, até nas palavras Mano é figurativo: os versos sugerem imagens, cores, formas. As obras abstratas, a princípio, eram dominadas pelas formas. No final dos anos de 1990, entretanto, os quadros passaram a se compor de pinceladas, umas sobre as outras, sugerem um ar vibrante e, segundo ele, "musical". As obras não são planejadas e, mesmo durante a inspiração, ele diz que não faz idéia do resultado final. Tanto que as figuras que elas sugerem não são definivas. Os nomes dos quadros ele escolhe pelo que observa do resultado final, mas fica a cabo de cada observador formular seu próprio desenho. "Nesse quadro, que eu vejo um buquet, já me disseram que mostra uma explosão. Podem fica a vontade, então".


SERVIÇO

Lançamento do livro Mano Alencar, Poeta das Cores. Hoje (28), no Centro Cultural Oboé (rua Maria Thomásia, 531 - Aldeota), às 19h30. Informações: 3264.7038.

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