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Fendafor dá um passo bem atrás

Joubert Arrais
Especial para O POVO

27 Jun 2007 - 01h14min

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Não é simplesmente concordar ou discordar, nem um mero ponto de vista. Trata-se de discutir coletivamente dois aspectos pontuais: o caráter educacional de um festival; e, urgentemente, o formato de competição pouco eficiente para a dança, que atende melhor à educação física. O Festival Nacional de Dança de Fortaleza (ver www.fendafor.net) tem negligenciado o primeiro e, na sétima edição, cai no equívoco do segundo. O próprio lema desse ano - "responsabilidade social, aqui tem" - coloca-o na berlinda, pois tem apoio público de lei estadual, mas cobra pelos cursos e inscrições; e privilegia as atrações de fora, mesmo com ações locais ditas sociais, de "popularização" da dança.

Ancorado nos anos 80, o Fendafor nega a (sua) contemporaneidade. Contempla-se com o olhar do passado, sem o transformar, e se engessa. Confunde formação artística com amadora (complementar), disciplina com treinamento (repetição exaustiva), arte com artefato (logo, técnica) e, perigosamente, ação política com marketing (turístico). Compartimenta a dança em modalidades e categorias. Abstém-se da responsabilidade de definir seu perfil - que o prejudica, pois coloca de tudo um pouco na programação - e ainda de refletir sobre a idéia de festival sem pódio - como muitos o têm feito, tentado, já algum tempo, no Brasil.

Mais problemática é a novidade sobre o caráter competitivo. O Fendafor incorpora um formato ultrapassado, a exemplo do Passo de Arte, evento paulista que realizou sua primeira etapa norte-nordeste, em maio último, em Fortaleza. Ou, mesmo, espelha-se na experiência pouco educativa e camuflada de contradições (mas bem sucedida, admitamos) do Festival de Dança de Joinville, que chega às bodas de prata em julho próximo. Ainda, tal tratamento desportivo enfraquece o diálogo sobre a oscilante fiscalização do Conselho Federal de Educação Física (Confef), que exige a diplomação nesta área para ser professor de dança.

Com isso, deixou-se colonizar, reforçou o decalque. Tanto que um bom exemplo local "passou" batido pela organização do evento cearense. Para a edição 2007, o Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga (FNT) decidiu, sabiamente, pela discussão coletiva, o que inclui o público, ao invés de permanecer (insistir) no ranqueamento angustiante das outras edições. Antes, vale citar o FID (Belo Horizonte - MG) que, em 2001, de festival-vitrine tornou-se Fórum Internacional de Dança e, ano passado, comemorou 10 anos de existência.

Sabe-se que, em nosso país, a difusão das informações de dança é escassa e inadequada, realidade que se agrava no Ceará, ainda carente de uma graduação específica que se articule com a sociedade. Se muitos acreditam que existe um lado das escolas/academias e outro da dança "contemporânea" (diga-se: Bienal Internacional de Dança do Ceará), é hora de repensar esse lugar que outrora parecia não haver escolha. Felizmente, hoje há. Ambos podem, sim, co-existir com suas particularidades e fazer do improvável um saber-ação que conta.

Joubert Arrais é jornalista, crítico de dança e mestrando em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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