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Vida & Arte

DIÁLOGO

O que faltar a gente inventa

Ednardo
Especial para O POVO

Partindo do Mito de Hefesto, o cantor e compositor Ednardo constrói uma breve reflexão sobre a psique cearense para além da rejeição


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23/06/2007 14:07

Pintura do Mito Hefesto Vulcano
Pintura do Mito Hefesto Vulcano

Não resta dúvida que "mitos" são importantes para entendermos dinâmicas da psique humana e a alma desta forma. Hefesto - Vulcano - personifica deus, arquétipo e indivíduo, habilidoso, que por seu aspecto considerado repulsivo, não era valorizado no reino de Zeus - onde poder e a aparência eram valores importantes.

Rejeitado e expulso por sua mãe Hera, dedica-se à arte da Forja das Almas, "o fogo vulcânico", é adorado por seres humanos por seus poderes de controle da força destrutiva dos vulcões, além do uso do fogo para criar objetos úteis.

Personifica ânsia humana profunda, mesmo sendo desvalorizado e rejeitado, é capaz de criar objetos funcionais e belos. Simboliza gênio criativo que concretiza obras, mesmo sentindo-se sem atrativos supera e desenvolve brilhantes criações artísticas, científicas, manuais e filosóficas.

Interessante abordagem do Gilmar de Carvalho, pinçando obras de José de Alencar - aliás, muitas obras de Alencar e outros autores, abordam a psique cearense. A índia rejeitada pelo branco europeu gera Moacir, o filho da dor. O interesse do europeu predatório em colonizar o Ceará se aqui tivessem riquezas, torna-se posterior abandono ao constatar a aridez e dificuldades da região, independente do mal escolhido "donatário".

Penso que não fica por conta desta "herança", nossas habilidades ou equívocos ou a baixa auto-estima de um "povo abandonado" pelo primeiro mandatário.
A maneira de ser de nosso povo, não se adequa a este desígnio, como se todos tivessem que cumprir o lado negativo da herança. O mito se realizaria de forma negativa, quando não é esta a realidade geral e nossa maneira de ser.

Podemos sim, ver o mundo através de nossa aldeia, e podemos também ver nossa aldeia na ótica ampla onde ela está associada. Pinçando exemplos também vitoriosos e positivos que acontecem aqui.

Hoje podemos expandir percepções de ver o mundo, descobrindo coisas esquisitas acontecendo ao longo dos tempos à nossa revelia, muitas por não estarmos presentes, estamos falando de séculos, outras com o consentimento tácito em nosso tempo e presença, por não saber como combatê-las, e outras por não interesse em questioná-las, ou até concordarmos ou aceitarmos de bicos calados.

Não sei se o sentimento, prazer/sofrimento é formador da ânima do povo cearense, tipo - "Rejeitamos o que somos, porque fomos rejeitados".
Falando especificamente de minha área - Artistas saem de sua origem na busca de outras paragens porque queremos o mundo. Se fosse falta afetiva, todos artistas seriam carentes. No Brasil, maior parte dos artistas saem do lugar de origem em busca do centro emissor. Do Ceará, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, Pará, etc., todos nós, até os do Rio de Janeiro e São Paulo, buscam o exterior, o mundo todo. Não diferente de outros locais, Beatles saíram de Liverpool para Londres e EUA e Mundo.

Interessante quando Gilmar de Carvalho lança foco de luz sobre o humor cearense como forma de entender via mídia a existência de um povo feliz. Vi ilustre representante da atual safra, em mídia nacional, dizer - "Ô povo feio" - referindo-se aos cearenses sendo ele um dos próprios. Coisa autodepreciativa, para fazer graça.

Gilmar sabe pinçar com exatidão determinado viés comportamental de nosso povo entre eles o do ufanismo às avessas - Jaguaribe é o maior rio "seco" do mundo... Poderíamos citar outros... É um glossário extenso, mas no frigir dos ovos não há mal nisso, depois que a pequena Rádio de Pernambuco na década de 40 institui o slogan "Pernambuco falando para o Mundo"... Quando um povo sonha alto quase beirando a megalomania, é porque está querendo mais do que é oferecido às suas capacidades.

Podemos partir de leitura sociológica mais ampla desde as tribos indígenas habitantes dos litorais, serras e sertões, aos colonizadores, portugueses, franceses, holandeses, espanhóis, a vinda da civilização negra para esta região, as estratificações e importâncias no processo da civilização cearense para daí chegarmos na formatação identitária básica, e depois partirmos para outras influências que foram permeabilizando nosso povo, por exemplo, a presença ostensiva dos americanos do norte durante a segunda guerra mundial, etc, até chegarmos aos dias atuais onde é inegável que estamos sendo permeabilizados de novo por outros tipos de culturas e costumes.

É arriscado tentar fazer análise psicanalítica de um povo, seria quase que um horóscopo de jornal que serve a todos do mesmo signo. Melhor pensarmos que somos um povo multi-cultural-racial-comportamental-criativo, que faltar a gente inventa.


Ednardo é cantor e compositor cearense e mora no Rio de Janeiro. Seus principais álbuns são Ednardo e o Pessoal do Ceará (1973), O Romance do Pavão Mysterioso (1974), Berro (1976), O Azul e o Encarnado (1977), Imã (1980), Terra da Luz (1982), Libertree (1985), Rubi (1991) e Ednardo - Única Pessoa (2000).


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