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Vida & Arte

TEATRO

À beira do abismo

Natália Paiva
da Redação

Toda nudez será castigada, peça escrita por Nelson Rodrigues em 1965, ganha montagem do grupo londrinense Armazém Companhia de Teatro, cuja encenação ocupa o Theatro José de Alencar hoje, amanhã e sábado


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21/06/2007 01:11


Herculano chega a sua casa cheio de um cansaço feliz. Grita pela esposa "Geni, Geni!", mas na sala só encontra um embrulho: uma "fita de gravação". Põe o rolo para rodar e, "após sons esquisitíssimos de fita invertida", das trevas ouve a voz da esposa: "Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei". Eis a introdução necessária para que, sobre o palco, passe a se apresentar uma série virulenta de eventos. Toda Nudez Será Castigada, peça escrita por Nelson Rodrigues em 1965 - encenada no Rio de Janeiro, no mesmo ano, pelo polonês Zbigniew Ziembinski e imortalizada no cinema em adaptação de Arnaldo Jabor, em 1973 - conta uma fabulosa história de amor, desejo, morte e vingança. O viúvo de luto fechado Herculano, em ardil tecido por seu vingativo irmão Patrício, apaixona-se pela prostituta Geni. Serginho, seu filho reprimido sexualmente - "impotente como um santo!" -, e suas tias virgens constroem a imagem de uma classe média conservadora, moralista e repressora. Entre idas ao racional médico e ao místico padre, atrás de conselhos, Herculano acaba se casando com Geni, ação que provoca uma reação inesperada em seu filho.

A obra, que se constrói sobre máxima que condena todo despir-se, todo entregar-se, em 2005 ganhou montagem do grupo londrinense Armazém Companhia de Teatro, criado em 1987 e radicado há quase dez anos no Rio de Janeiro. E é essa a encenação que ocupa hoje, amanhã e sábado o palco do Theatro José de Alencar. Para Paulo de Moraes, diretor do Armazém, cujo primeiro trabalho no teatro foi na famosa montagem de Toda Nudez feita em 1985 pelo Grupo Delta (também de Londrina), uma das qualidades do texto é a própria construção de sua estrutura narrativa. Um dos primeiros pontos a se levar em conta é o fato de Nelson Rodrigues começar a história pelo final. "Ele abre mão da maior surpresa na primeira frase, quando a gente fica sabendo que a protagonista se mata. Mas abre mão porque constrói uma estrutura tão bem-feita, que a gente fica preso a ela o tempo inteiro", afirma. Paulo ainda aponta a estrutura em flashback bastante fragmentada, em idas e vindas de uma cena a outra. "E tem uma outra qualidade muito maluca: o protagonista da história é o Herculano, desde o início a gente tá acompanhando a história dele. Lá quase pro fim, Nelson o abandona completamente e a protagonista passa a ser a Geni. Então, é uma estrutura narrativa muito interessante que dá a possibilidade de uma ousadia cênica na mesma medida", pontua.

Alucinação
De fato, a montagem do Armazém consegue criar bastante, fugindo do naturalismo e apostando em uma abordagem que não apenas materializa em cena os conflitos propostos por Nelson Rodrigues, mas confere ao texto uma dimensão alucinatória, como se tudo traduzisse, simultaneamente, "fatos reais" e tentativas de costura de uma memória fragmentada. Essa abordagem vem, certamente, da concepção que Paulo de Moraes tem do texto. O grande crítico de Nelson, Sábato Magaldi, no cuidadoso ensaio A Peça Que A Vida Prega, sobre a técnica de flashback em Toda Nudez afirma: "Dentro de estrita veracidade, muitas situações vividas não poderiam pertencer à memória de Geni. É essa uma liberdade que o dramaturgo se pode conceder (...), abrindo o campo ficcional". Paulo propõe espaços simbólicos e afetivos fragmentados, a partir das dores da memória entrecortada de Herculano. "O que eu senti quando eu li o texto é que parecia que a história se passava toda na cabeça do Herculano, sabe? Porque é uma história que a mulher dele contou pra ele. E a memória é traiçoeira. Se eu estou contando alguma coisa que aconteceu, eu não estou contando exatamente o que aconteceu. Eu estou contando a lembrança que eu tenho do fato".

O equilíbrio entre linguagem cênica e visualidade se dá na cenografia, que segue a linha expressionista dos personagens à beira do abismo. "A gente construiu um cenário de ferro e de acrílico com um monte de portas, umas oito ou dez, espaço onde tudo ocorre. Quer dizer, o acrílico dá a possibilidade tanto da transparência quanto de você trabalhar com cor nele, e aí a gente consegue criar, nesse mesmo ambiente, tanto essa coisa mais sacra, que é o vitral de igreja, quanto esse clima mais profano do bordel". A transparência do acrílico, no entanto, passa longe de uma transparência dos sentidos. Em cena, reinam o não-naturalismo e as diversas possibilidades de fruição de um texto e de uma encenação. As portas, por sua vez, permitem entradas e saídas muito velozes dos personagens, enquanto Herculano continua em cena. "É como se os personagens estivessem entrando dentro da cabeça do cara, para ajudá-lo a se lembrar dessa história que a mulher conta pra ele". A montagem do Armazém venceu o Prêmio Eletrobrás de Teatro 2006, nas categorias de Melhor Iluminação, Cenografia e Figurino, e o Prêmio Shell de Teatro 2005 nas de Melhor Direção e Melhor Iluminação (do cearense Maneco Quinderé). Sons esquisitíssimos de fita invertida, acaba a gravação. Acaba a peça, acaba o texto. Cai o pano, lentamente.


SERVIÇO:

Toda Nudez Será Castigada - Armazém Companhia de Teatro. Texto de Nelson Rodrigues. Hoje, amanhã e sábado, às 21h. Local: Theatro José de Alencar. Censura 18 anos. Duração: 115 minutos. Ingressos: R$ 30,00 (inteira platéia), R$ 15,00 (meia platéia), R$ 20,00 (inteira torrinha) e R$ 10,00 (meia torrinha). À venda no Theatro José de Alencar. Informações: 3101.2596 / 3101.2582/ 3101.2583.

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