Poeta maldito, o cearense José Alcides Pinto, participa hoje, logo mais à noite, do programa Quarta Literária Especial, na Biblioteca de Artes Visuais Leonilson. Alcides pinto é autor de Relicário Pornô, Cantos de Lúcifer, entre outros
20/06/2007 01:03

"A morte, como a vida, não fazia sentido; mas o amor, entre estes dois abismos, aparecia como um anjo da guarda, fulgia alegre, radiante como uma estrela ao nascer da noite. Era por essa coisa misteriosa e inevitável que o homem lutava e procurava dar sentido ao que não tinha sentido. E isso era compreensivo e ao mesmo tempo não era"
José Alcides Pinto, em O Enigma (1974)
No primeiro contato telefônico, José Alcides Pinto disse que estava ocupado, preparando o material da apresentação no Centro Dragão do Mar, mas que atenderia a imprensa com carinho. “Então, eu posso ligar para o senhor mais tarde?”, perguntou a repórter. “Não me chame de senhor! Arre égua!”, exclamou. Rápido, ríspido. Horário marcado, entrevista por telefone mesmo, segundo a preferência do entrevistado, da sua casa no Centro da cidade. A cada “senhor” que escapava, uma reação imediata. “Se você fosse minha aluna da Comunicação, já teria lhe passado um zero!”, reclamou. O mote da conversa seria a participação do escritor no programa Quarta Literária Especial, hoje logo mais à noite, na Biblioteca de Artes Visuais Leonilson. Na ocasião, ele faz um depoimento sobre sua obra e responde perguntas do público.
O poeta, romancista, crítico literário e jornalista cearense, o mais ilustre dos nascidos em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, tem a fala ligeira, emenda as palavras. E continua cortante. Assim como sua obra, em quase 60 anos de Literatura, marcada pelo caos, alucinação, demoníaco, sobrenatural, maldição, sexo, loucura e morte. A obra confunde-se com o próprio José Alcides Pinto, que diz já ter nascido autor. “A infância é que move o escritor. Sua sensibilidade o acompanha desde esse tempo. A infância é o começo de tudo. Minha obra é toda autobiográfica. Até mesmo na poesia”, diz. O universo temático do criador é envolvido por personagens atormentados, loucos ou isolados do mundo, conduzindo o leitor por manicômios, cemitérios e hospitais e meditando sobre a condição humana e aspectos religiosos da vida. “Eu só escrevo em estado de angústia, porque eu escrevo a realidade do cotidiano, só que numa realidade transfigurada”, diz.
Alcunhado de “o poeta maldito” - influenciado pelos chamados poetas videntes ou iluminados, como Baudelaire, Rimbaud, Poe, Byron e Artaud, sem esquecer Augusto dos Anjos -, José Alcides Pinto ficou admite que o sagrado e o profano fazem parte da sua natureza. “Acredito piamente em Deus. Sou católico de óstia na mão. Só que eu sou rebelde e fujo dos padrões normais”, diz. Para ele, o inevitável está no homem e sua condenação é eterna. “A maldição está em tudo”, diz. Para ele, toda vida consciente é uma revolta. “A vida é rebelde, nós é que procuramos adoçar para viver”, completa o autor, também conhecido como “o anjo pornográfico cearense”.
Produção literária
Essa condição se expressa, entre outras obras, nos romances Estação da Morte, O Sonho e O Enigma, que integram a Trilogia Tempo dos Mortos e ganham edição nova em agosto pela Top Books, assim como O Dragão, Os Verdes Abutres da Colina e João Pinto de Maria - Biografia de um Louco, da Trilogia da Maldição, onde o cenário é São Francisco do Estreito. O elemento-chave da sua obra? Ele mesmo reponde: “A hereditariedade, o sentimento de ancestralidade”. Atualmente o autor escreve um livro de poesias - cujo título ele não revela e que deve enviar para seleção de editais no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. “Eu sou muito entusiasmado com o que eu faço. Isso o que eu digo não é esnobismo. Me sinto muito feliz”, diz.
Atormentado pelo enigma da morte, presente em toda sua obra (como diz o protagonista anônimo de O Amolador de Punhais: “Cada um de nós nasce com essa megera escanchada nos ombros”), José Alcides Pinto, hoje aos 84 anos, já não se inquieta como outrora. “Eu pensava mais na morte na minha mocidade. Nessa idade, a gente vai aceitando a vida. Você fica mais reflexivo e vai dando mais valor ao amor. A morte é comum a todos”, pondera. Se tem arrependimentos? “Não me arrependo de nada. Mas gostaria de ter sido mais humano, mais compreensivo com as amantes”, confessa. Ele diz estar cada vez mais contemplativo, ao observar as estrelas, a lua, no gosto do convívio com os animais. “Estou mais perto de Deus. Não durmo sem rezar”, diz. Do alto de sua maturidade, o poeta maldito é a impossibilidade de viver sem amor. “O amor é tudo no mundo. Só o amor me salva da solidão”, diz.
SERVIÇO:
Quarta Literária Especial, como José Alcides Pinto - Hoje (20), às 19 horas, na Biblioteca de Artes Visuais Leonilson, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Grátis. Informações: (85) 3488-86
E-MAIS
Ainda neste mês, a programação literária do Centro Dragão do Mar lança Quando as letras têm a cor do sonho, uma coleção de poesias lúdicas de Kelson Oliveira, e De Eros e Ágape - Como lágrima dourada no oceano de silêncio, o primeiro da psicóloga e mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará, Gisneide Nunes Ervedosa. Na reunião do grupo Por Mais Leitura, dia 23, os participantes debatem o tema Textos Autorais.
Por Mais Leitura - Dia 23, às 15 horas, na Biblioteca de Artes Visuais Leonilson. Grátis.
Quando as letras têm a cor do sonho, de Kelson Oliveira - Lançamento dia 20 de junho, às 19 horas, no Espaço aberto da livraria Livro Técnico. Grátis.
De Eros e Ágape - Como lágrima dourada no oceano de silêncio, de Gisneide Nunes Ervedosa - Dia 27 de junho, às 19 horas, no Espaço aberto da livraria Livro Técnico. Grátis.
QUEM É JOSÉ ALCIDES PINTO
Ficionista e poeta, José Alcides Pinto nasceu em 1933, em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, no Ceará. De origem humilde, cedo aventurou-se ao mundo indo morar no Rio de Janeiro, em 1945, onde morou por 27 anos e diplomou-se em jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil e em Biblioteconomia pela Biblioteca Nacional. Colaborou em suplemento sliterário no Rio de Janeiro e na imprensa de Fortaleza. Foi redator do Ministério da Educação e Cultura e professor concursado na Universidade Federal do Ceará, cargos dos quais pediu dispensa, em 1977, para dedicar-se à sua fazenda no interior do Ceará e à sua obra literária. Recebeu o Prêmio José de Alencar da Universidade Federal do Ceará, referente a obras no gênero Romance e Conto (1969) e o Prêmio Categoria Especial para Conto (1970), concedido pela Prefeitura Municipal de Fortaleza, além do Prêmio Estado do Ceará para poesia (1982). É o principal responsável pela introdução do Movimento Concretista no Ceará.
SAIBA MAIS
José Lemos Monteiro, da Universidade Federal do Ceará, crítico literário e romancista, publicou pela Imprensa Universitária, em 1979, um livro básico sobre a ficção do autor, intitulado O de José Alcides Pinto, o que se constitui numa das principais fontes de consulta para melhor compreensão da obra.
Links na Internet sobre Josá Alcides Pinto
http://www.revista.agulha.nom.br/ag28pinto.htm
http://www.secrel.com.br/jpoesia/pardalalcides.pdf
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/ceara/jose_alcides_pinto.html