Juliana Girão
da Redação
Porque se lê pouco no brasil? o secretário do Plano Nacional do Lilvro e Leitura, José Castilho, acredita que a solução está na formação de famílias leitoras
18/06/2007 01:58

Nada substitui a sedução que o livro exerce. Coisa de papel, manipulável, tátil, sensorial. Nem mesmo a Internet ou a televisão. Para o secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura, programa dos ministérios da Cultura e da Educação, José Castilho Marques Neto, o déficit de leitura do brasileiro (que lê, em média, 1,8 livros por ano, segundo pesquisa da Câmara Brasileira do Livro de 2000, enquanto os franceses, por exemplo, lêem sete) se explica pela falta de acesso e não pela concorrência com outros meios de comunicação e lazer. "Se você for a uma feira de livro ou a uma livraria, veja a expressão de uma criança pegar o livro pela primeira vez", defende. "Toda vez que você aproxima um livro das pessoas, as pessoas gostam desse objeto, principalmente se você tiver a figura central do mediador de leitura", diz.
Segundo o secretário, além da falta de acesso (segundo ele, são 2.600 bibliotecas em todo o país, concentradas principalmente no eixo sul-sudeste), outra explicação para o baixo índice de leitura é a falta de relação entre a comunidade e o conteúdo dos livros distribuídos gratuitamente, além do caráter impositivo dos programas de incentivo à leitura em detrimento do prazer desse exercício. "O aluno é obrigado a ler esse ou aquele autor, senão, ela não passa de ano. Isso é um castigo", diz.
Para Castilho, a formação de uma nova geração de leitores começa na família e se completa na escola. Mas um dos grandes desafios é seduzir para a leitura aqueles que já passaram pelos bancos escolares. "O leitor começa bem na infância, na leitura escolar, depois, entre os 18 e 20 anos até 45 e 50 anos, nós temos uma queda abrupta de leitura, e, em seguida, uma retomada disso após os 50 anos. Alguma coisa está acontecendo de ruim entre a saída da escola e a entrada na vida profissional", aponta. Quanto aos futuros desafios que se impõem aos livros, o secretário rejeita a questão da base material (seja ela no papel ou na tela do computador) e aponta para uma possível indefinição de autoria e censura aos conteúdos inteligentes.
O POVO - As pesquisas indicam que o brasileiro lê, em média, menos de dois livros por ano. Na França, por exemplo, esse número chega a sete. A que se deve esse baixo índice no Brasil?
José Castilho - Principalmente por aquilo que nós detectamos no Plano (Nacional do Livro e da Leitura - PNLL) que é a dificuldade do acesso. Nós temos dificuldades quando você não tem bibliotecas ou você tem bibliotecas de difícil acesso ou você tem bibliotecas que não têm seus acervos atualizados, por tanto, não atraem os leitores. A acessibilidade é fundamental. Toda vez que você aproxima um livro das pessoas, as pessoas gostam desse objeto, principalmente se você tiver a figura central do mediador de leitura, aquele que é o contador de histórias, que lê o livro para as pessoas pela primeira vez, que cria algo em torno do livro e transforma a mágica da leitura em prazer. O acesso se dá prioritariamente, num país pobre como o nosso, em bibliotecas sejam elas públicas, escolares ou comunitárias. Nós temos o acesso possível também por intermédio da compra, através das livrarias. Para isso é importante políticas de barateamento do preço do livro, criação de mais livrarias no país todo. Nós temos em torno de 2.600 bibliotecas no Brasil, a maior parte delas está no eixo Sul e Sudeste.
OP - Que outros fatores nós poderíamos elencar?
Castilho - São fatores que eu chamaria de menores, mas que também são importantes. Muitas vezes os livros que são doados, que são distribuídos, não têm uma relação com a própria realidade regional. Isso dificulta o acesso. O conteúdo dos livros que são apresentados para uma determinada comunidade não tem nada a ver com ela. Muitas vezes os programas de acesso ao livro aparecem muito mais como uma imposição e menos como uma sedução. O aluno é obrigado a ler esse ou aquele autor, senão, ela não passa de ano. Isso é um castigo não é um prazer.
OP - E como fazer essa sedução?
Castilho - Primeiro, seduzindo com o que aquela criança gosta. Ninguém começa a gostar de doce, se você começa a colocar doces ruins, estranhos, fora do gosto infantil. A criança tem sempre uma tendência a gostar dos quadrinhos. Que comece pelos quadrinhos. E que tenha uma relação mais regionalizada, por exemplo, com a literatura de cordel, que é tão forte no Nordeste. É uma aproximação que começa por aí. Não interessa por onde começa, o importante é que seja feito com gosto. E a escola tem que assimilar isso.
OP - E onde fica o papel dos educadores e dos pais na formação de novos leitores?
Castilho - Ambos são fundamentais. É até uma recomendação internacional da Unesco que nós estamos seguindo rigorosamente: a formação de famílias de leitores. É importante que as famílias estejam envolvidas. Não tem um adulto que seja leitor que o pai e a mãe não tenham formado. E isso se completa na escola. Começa em casa e termina na escola. E aí vira uma sanfona que não se acaba mais.
OP - Os avanços na área da informática ofereceram ao mundo atual uma multiplicidade de novos meios de difusão de informações, como a televisão e a Internet. De que forma essa profusão midiática afeta a leitura de livros de papel?
Castilho - É claro que há uma concorrência hoje de outras mídias, rádio, TV, cinema. Mas essa concorrência nós temos que equacioná-la de maneira correta. Primeiro: não é pelo aparecimento da televisão ou do rádio ou mesmo da Internet que a leitura chegou a esse ponto no país. O déficit de leitura já vem de muitos anos, mesmo antes da Internet. A gente sempre tem essa cultura muito perversa de saber quem é o culpado. Se nós pensarmos assim, nós não sairemos do lugar. Primeiro, nós temos que ter um verdadeiro diagnóstico, do nosso sistema educacional, de acesso à cultura.
OP - Mas a TV e a Internet não têm um poder de sedução maior?
Castilho - Tem, se não tiver o acesso. Se você for a uma feira de livro ou a uma livraria, veja a expressão de uma criança pegar o livro pela primeira vez. Essa sedução que o livro exerce, que é um objeto manipulável, um objeto tátil, sensorial, nenhum outro meio de comunicação cria. Então o livro de papel é ainda hoje um ser insubstituível nas suas especificações. Eu não vejo nenhum problema nós pegarmos a Internet como um complemento de leitura. Ou da leitura na tela, nós passarmos para a leitura no papel.
OP - O próprio mercado editorial pode-se utilizar das novas tecnologias...
Castilho - Claro e já está utilizando. E vai utilizar cada vez mais. Em torno dessa discussão, eu sempre pergunto: vocês já ouviram falar no papel eletrônico? Quase ninguém ouviu falar. É uma coisa muito mais avançada. Mas nada disso afasta aquilo que a gente tem no livro que é o conteúdo, que é o autor. Eu acho que nós vamos ter problemas, quando nós tivermos problemas de indefinição de autoria e de evitar conteúdos inteligentes. Se nós tivermos problemas na edição de conteúdos, nós teremos um problema de leitura. Fora isso, a base material, onde vai estar assentado o papel, na tela do computador ou no papel eletrônico já misturado também à calça jeans, isso é o de menos.
OP - Se nós pudermos traçar um perfil, quem é o leitor brasileiro?
Castilho - Nós temos muito poucos dados de pesquisa sistemática com a precisão que essa pergunta deveria ser respondida. Das pesquisas que nós temos, nós temos o seguinte perfil: o leitor começa bem na infância, na leitura escolar, entre os 18 e 20 anos até 45 e 50 anos, nós temos uma queda abrupta de leitura, e uma retomada disso após os 50 anos. Alguma coisa está acontecendo de ruim entre a saída da escola e a entrada na vida profissional.
QUEM É JOSÉ CASTILHO
José Castilho Marques Neto, 53, possui graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1976) e doutorado em Filosofia também pela USP(1992). Atualmente é secretário executivo do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), dos ministérios da Cultura e da Educação, professor assistente doutor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Campus de Araraquara, e exerce, desde 1988, funções de direção editorial junto à Editora Unesp. Desde abril de 1996, é diretor presidente da Fundação Editora da Unesp. Tem experiência na área de filosofia, com ênfase em História da Filosofia e Filosofia Política, atuando principalmente nos temas relacionadas à formação do pensamento de esquerda e marxista, notadamente no Brasil. Especializou-se também em editoração universitária, sendo consultor de organismos nacionais e internacionais de editoração e leitura. Dirigiu entidades e instituições do livro e da leitura e atualmente é o Secretário Executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura, vinculado aos ministérios da Cultura e da Educação.
(Fonte: Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPQ)
(+) SAIBA MAIS
O que é PNLL
O Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) é um conjunto de programas e ações empreendidos pelo Estado (em âmbito federal, estadual e municipal) para promover o livro, a leitura, a literatura e as bibliotecas no Brasil. Regulamentado pela Portaria Interministerial Minc e Mec, número 1442, de 14 de agosto de 2006, o plano está sistematizando e compilando ações através de um mapeamento. Os quatro eixos estratégicos são: democratização do acesso, fomento à leitura e formação de mediadores, valorização da leitura e comunicação e apoio à economia do livro.
(!) Na Internet:
www.pnll.gov.br
www.cultura.gov.br/pnll/consultapublica